Na busca por bibliografia da História da Música na África, descobri parcas referências na própria biblioteca da Escola de Música da Universidade Federal da Bahia. Não se trata aqui de construir observações meramente inquisidoras e, sim, revelar a imensa dificuldade em localizar material, elaborado por musicólogos, etnomusicólogos ou mesmo educadores musicais, sobre a história da música africana. No entanto, não seria possível deixar de relatar que o mesmo não ocorre em relação à chamada música ocidental que engloba, principalmente, a música de países como a Itália, a Alemanha, a Inglaterra, a França e, em menor proporção, a Espanha.
Diante de todo o acervo musical, encontrei apenas duas referências à história da música africana, a saber: História Universal da Música de Roland de Candé (1994) e, numa edição muito mais antiga, a História da Música Universal, de Kurt Pahlen (1965). Entretanto, somente naquele primeiro exemplar encontrei uma narrativa mais pormenorizada sobre o conteúdo proposto e, mesmo assim, com a utilização de algumas referências como “música primitiva”, termo com o qual não concordo por ter sido largamente utilizado em oposição ao conceito de “música dos povos civilizados”. No entanto, apesar de louvar a tentativa do autor, em justificar que o “epíteto ‘primitivo’ sugere não uma simplicidade elementar, mas uma pureza original” (CANDÉ, 1994, p. 162), ainda assim, pareceu-me que o seu uso permanece inapropriado. Nesse aspecto, com as perspectivas da pesquisa em Etnomusicologia, esta
suposta “pureza original”, que era a expectativa dos estudos etnomusicológicos, perdeu a sua força argumentativa, a partir de certas descobertas de mudança em culturas musicais indígenas, reveladas em estudos realizados pelo etnomusicólogo Nettl (2006).
Entretanto, mesmo tendo apresentado no parágrafo acima o que seria um deslize ou, pelo menos, uma deselegância quanto à opção semântica, não se pode deixar de reconhecer que de todos os autores dos livros de História da Música, consultados no âmbito de uma biblioteca de música, Candé foi aquele que mais dedicou espaço em sua obra para a música da África Negra. Portanto, reporto-me a ele como fonte preciosa para a descrição do que se segue.
Para Roland de Candé a música africana é uma “expressão imediata da cultura coletiva” (1994, p. 162). Como expressão primeira, ela seria uma parte completamente integrada ao modo de vida da sociedade e em completa harmonia com a natureza. Segundo Candé, os músicos africanos não teorizaram os seus sistemas musicais e sua forma de tratamento com o som; é completamente diferente da forma ocidental no que tange ao hábito de divisão e isolamento melódico ou rítmico. Pode-se aqui exemplificar um modelo rítmico facilmente notável, mesmo para alguém que não detenha algum conhecimento sobre partituras.
Ainda na perspectiva de Candé, uma outra característica da música africana seria o fato de que esta ser de sobremaneira ligada à linguagem e que este fator, por vezes, seria o causador da possibilidade de sua capacidade de substituir a linguagem falada. Em particular, no grupo banto. O próprio autor afirma que:
Compreender a música tem realmente um sentido na África, pois lá os instrumentos falam. [...] Melhor, ela é capaz de imitar os ritmos e os tons do discurso, permitindo que os instrumentos falem [...] não é um código semelhante ao nosso código morse; é uma língua usual, imediatamente compreensível quando o informante-músico é hábil e o receptor, atento. (CANDÉ, 1994, p. 162).
No entanto, ainda na esteira do pensamento de Candé, como as comunidades africanas são heterogêneas – característica de sociedades culturalmente diversas – na medida em que cada instrumento é o reflexo da cultura de um determinado grupo, estes instrumentos não seguem uma regra, uma receita fechada que ensine como fazer a sua confecção. Também a sua prática é executada de maneira diferenciada, e esta se define de acordo com os contornos da personalidade do músico que irá tocar, sendo que, geralmente, este é o próprio construtor do seu instrumento.
negra executam a função de representar uma fala. Com uma mensagem específica, quando fica estabelecido algum diálogo entre estes instrumentos, na maioria das vezes, acontece dos africanos doarem aos instrumentos a mesma significação dada a uma pessoa, ou seja, o instrumento passa a ser individualizado, por causa de sua capacidade de levar um comunicado, como uma pessoa. Neste sentido, é importante apontar a semelhança desta situação com o tratamento dado aos atabaques no candomblé. Estes detêm a função de comunicar o chamado para que a divindade manifeste sua presença. Igualmente o seu ritual de preparação para ser usado no terreiro é constituído por uma série de tratamentos e cuidados que são feitos de maneira parecida com o preparo que recebe uma pessoa que vai ter sua iniciação. O atabaque recebe, tal qual o iniciado, panos brancos com os quais ele é coberto, bem como o sacrifício de animais para alimentá-lo e fazer gerar nele, a sua força, o seu Axé.
Todas estas questões aqui tratadas são fundamentais para se ter uma visão, ao menos panorâmica, da importância e do papel que a música ocupa em algumas regiões africanas. Entretanto, em função da pouca bibliografia a respeito do tema, tenho a convicção de que uma construção menos fragmentada, somente seria possível num estudo especialmente focado neste tema. Todavia, o que me pareceu mais relevante nestes parágrafos, foi exatamente a herança da importância do instrumento que veio de algumas culturas africanas. Esta herança diz respeito à visão que estas culturas têm de que, por realizar um processo de comunicação, estes instrumentos equiparam-se às pessoas, tal como acontece no candomblé em que os atabaques são tratados como entidades, recebem roupas, são alimentados e, dentre suas funções, está a de estabelecer a comunicação com os Orixás e chamá-los para incorporar em seus filhos.