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Conclusion Générale

Dans le document LE DROIT PENAL MARITIME (Page 67-75)

Para muitas pessoas, parece ser indiscutível que a educação e os cuidados oferecidos pelos pais e os valores construídos na família estejam diretamente relacionados com o que os filhos se tornarão no futuro. No entanto, essa influência direta tem sido questionada por alguns autores, como parte da crítica à culpabilização que em geral se faz aos genitores em relação aos problemas de conduta e personalidade dos filhos e à necessidade que algumas

teorias impõem de se voltar a problemas da infância para resolver conflitos da vida adulta (HARRIS, 1999; SELIGMAN, 1995).

Harris (1999) considera que as crianças aprendem a se comportar, principalmente entre os próprios grupos de crianças, e que a influência que os pais têm sobre elas tem efeito apenas dentro da própria relação pais–filhos e no ambiente doméstico.

Outros autores, no entanto, consideram a família um importante agente de socialização, na medida em que transmite às crianças valores e comportamentos compartilhados no seu contexto cultural. Acredita-se que as crianças são também socializadas pelos pais, e que a socialização que ocorre no contexto familiar está presente na interação em outros ambientes. Berger e Luckman (2002), por exemplo, consideram que é no processo de socialização na família que se inicia a transformação da realidade objetiva em realidade subjetiva na formação da identidade. Para os autores essa transformação se dá, a princípio, mediante o processo de interiorização do que a criança vive com a família, e o ambiente familiar afetivo é que favorece a interiorização desses valores. Num segundo momento, a criança abstrai a sua vivência com a família e passa a identificar-se com a sociedade. Para Ruschel e Castro (1998, p. 525), como um sistema social estruturado a partir dos valores culturais da sociedade em que está inserida, a família é um “[...] organismo que seleciona e qualifica as experiências do indivíduo, dando-lhe condições para a vivência individual e social, por intermédio de noções fundamentais”. Segundo Assmar et al. (2000, p.91), os estudos sobre a família ressaltam “[...] seu caráter de instituição mediadora entre o indivíduo e a realidade sociocultural”. Conforme palavras de Biasoli-Alves (2000, p. 238), “Os valores dos adultos significativos começam a ser assimilados quando ainda a criança nem aprendeu a falar direito, estabelecendo que ela será socializada para se tornar um adulto dentro daquela cultura”.

É importante lembrar, no entanto, que esse processo não envolve a reprodução por parte da criança do que é transmitido pelos adultos. Mediante a socialização, o indivíduo apropria-se do saber socialmente construído e o reconstrói, e produz sua cultura ao mesmo tempo em que é por ela produzido.

As divergências em relação ao peso que a socialização na família tem para o desenvolvimento do indivíduo levam a considerar que, provavelmente, ainda se saiba pouco a respeito do que realmente afeta o desenvolvimento. Esses questionamentos favorecem a reflexão de que a socialização envolve múltiplas influências e que o desenvolvimento do indivíduo não está restrito à infância e à adolescência, mas se dá durante todo seu ciclo de vida.

Ressaltamos que o processo de socialização, uma vez fazendo parte de um contexto cultural, também sofre transformações. Mudanças no conceito de infância e de educação, evolução tecnológica e mudanças em relação aos papéis que se espera sejam desempenhados na sociedade transformaram as formas de socializar.

Em relação ao progresso tecnológico, pode-se considerar que a mídia, embora seja um fenômeno recente, é hoje um dos grandes meios de socialização. Através da comunicação de massa, símbolos, discursos e imagens transmitem diversos valores e padrões de conduta. A mídia inter- relaciona-se com outros contextos, como a família e a escola, ampliando o processo de socialização. Setton (2002, p. 107) enfatiza: “a modernidade caracteriza-se por oferecer um ambiente social em que o indivíduo encontra condições de forjar um sistema de referências que mescla as influências familiar, escolar e midiáticas (entre outras)”.

Transformações na estruturação familiar pela reorganização dos papéis e redefinição das posições de autoridade, resultado de mudanças sociais nas últimas décadas, também são responsáveis por mudanças nas formas de socialização. Particularmente em relação à socialização da criança e do adolescente na família, vários autores descrevem as transformações nos valores e práticas em relação à educação dos filhos (BENINCÁ e GOMES, 1998; CALDANA, 1998; DIAS e GOMES, 1999).

Segundo Benincá e Gomes (1998) na família tradicional, até meados de 1960, os códigos de moral e papéis de pai, mãe e filhos eram bem definidos. Eram essas regras da família que organizavam a socialização do indivíduo. A rápida transformação da família a partir da modernização da

sociedade trouxe incertezas em relação a que regras seguir. Os autores apontam que:

[...] o questionamento e o redimensionamento das relações afetivas e sexuais, das idéias e comportamentos, têm como conseqüência um novo conjunto de representações acerca do funcionamento e estrutura familiar, principalmente entre gerações diferentes (BENINCÁ e GOMES, 1998, p. 181).

As formas tradicionais, rígidas e autoritárias de se educar passaram a ser rejeitadas pelos pais, que buscam hoje ensinar através da expressão física do afeto e da expressão verbal. Os pais acham importante estabelecer uma relação mais próxima, de amizade, e estão preocupados em promover a independência dos filhos. No entanto, considera-se que a rápida mudança de valores levou a contradições e diversidades nas formas de educação adotadas pelos pais. Um aspecto abordado foi a dificuldade dos pais em conciliar limites com o atendimento das solicitações dos filhos (CALDANA, 1998).

Atualmente, as práticas educativas centram-se na concepção de que é preciso respeitar os valores individuais; dessa forma os pais valorizam a experimentação. Nas palavras de Benincá, citada por Dias e Gomes (1999, p. 177), "[...] a tática de socialização do 'obrigar', foi se transformando na socialização do 'conversar' para chegar, hoje em dia, na socialização do 'experimentar’”.

A diversidade existente nas diferentes estruturas familiares é um fator importante a ser considerado na análise da repercussão que as mudanças ocorridas nas formas de relacionamento e socialização podem ter na família.

As palavras de Camino, Camino e Moraes (2003, p.43), ao se referirem ao desenvolvimento dos princípios morais na criança durante o processo de socialização, podem ser estendidas para o processo como um todo:

As formas como se socializam os indivíduos são, portanto, múltiplas e bastante complexas. Certamente, faz-se necessário não só analisar o papel dos diversos agentes de socialização no desenvolvimento dos princípios morais, como recolocar estas influências nos contextos sociais, econômicos e políticos nos quais elas se efetuam.

Siqueira (1998) também enfatiza que, durante a socialização, a criança e parceiros mais experientes fazem parte de uma organização social

mais ampla, e essa organização social é profundamente diversificada e estratificada. Dessa forma, as significações atribuídas às ações partilhadas são resultado de uma complexa rede de fatores e de entrecruzamentos de ordens diversas, como classes, gênero e etnias.

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