Senhorita K, em vários textos, nos conta sobre a passagem de criança para adulto e o quanto este momento é vivido como assustador. Muitas vezes não se reconhece e fica temerosa com o que virá a ser. “Eu tenho medo.. De me tornar o que nao sou, de seguir caminhos diferentes. Eu temo nao me reconhecer mais com o tempo” (...) Sente-se, muitas vezes, impotente frente às mudanças: “Eu quero viver o meu máximo, mas minha vida está traçada. (...) Eu sinto que estou vivendo em função dos desejos dos outros (...) Queria apenas ser quem eu desejar, queria poder traçar meu próprio caminho sem medo e temor.” Em busca de uma emancipação de sua identidade, ela precisará contar com novas identificações e com a vigência de novos papéis sociais à medida em que se apropria da sua independência. Senhorita K. estava em universo conhecido e organizado e com a adolescência entrou em turbulência. Apesar de parecer querer se envolver com todo este processo de individuação, sentindo-se fragilizada, gostaria de passar por ele sem nenhum sofrimento. Em um post, narrado algum tempo depois deste, apresenta uma maior maturidade. Observa que sua vida não está traçada e que ela é responsável por si mesma: “Não existem mais caminhos.certo ou errado..agora tudo é sobre o que eu quero..As escolhas estão melhorando.”
Em uma de suas narrativas, faz uma observação bastante perspicaz: “Nossos pais tem um certo poder sobre nós. O Poder de afetar nossos pensamentos. E emoções de um jeito que só eles conseguem. É um laço que muda com o tempo, mas nunca
some.” Senhorita K tem toda razão. Lembra aqui dos primeiros objetos com sua importância de serem modelos para as futuras identificações. A busca por autonomia leva a um relacionamento diferente para com os pais da infância. A adolescência, para diversos autores (Levisky, 1998; Outeiral, 2003), é uma oportunidade de elaboração dos conflitos da infância; portanto, uma oportunidade de, tendo esses conflitos revistos, ter-se uma vida adulta com mais recursos psíquicos.
“Mas por trás dessa menininha cheia de medos e incertezas existe uma mulher que só espera o momento certo e as pessoas certas para se revelar e mostrar o seu potencial.” Senhorita K que em alguns momentos sente-se tão impotente, demonstra aqui a percepção de um potencial latente dentro dela. Estes momentos oscilantes de instabilidade e estabilidade egóica, de ora sentir-se capaz, ora impotente, fazem parte do processo adolescente oriundo das próprias transformações emocionais em elaboração.
Na passagem de ano de 2008 para 2009, Senhorita K. faz uma série de promessas: “Este ano eu preciso crescer. (...) Este ano se eu tiver que sofrer, será por sofrimentos reais, nunca mais por males imaginários, preocupada com coisas que jamais aconteçerão (...) Chega de pensar de um jeito e fazer do outro. Chega do corpo dizer sim e a cabeça dizer não.” Penso acontecer, novamente, uma fala mais madura, em que Senhorita K. faz uma auto-observação, o que poderá levar a mudanças. Integrar novos desejos a uma mente em formação demanda tempo e uma longa negociação em que podem entrar em choque exigências do superego e novas pulsões.
Essa sua colocação nos leva a pensar em uma vivência da sexualidade, que é uma questão bastante abordada em seu blog, como por exemplo: “Desejo. Sensualidade..Quando tocamos na palavra, lembramos do ato de amor, sexo. O
desejo, o tesão, faz parte de um interesse maior. (... ) Talvez ligado a moral, (...) a maneira de viver (...) ao amor (...) a promiscuidade. (...) O desejo é a forma de se sentir viva (...) E qual seria sua opinião? O que é permitido, o que não é?” Para Levisky (1998) os sentimentos contraditórios e de culpa advém de uma fragilidade egóica, muitas vezes característica desse período. Aos poucos, o adolescente elabora estas ansiedades, conduzindo-se para uma identidade adulta mais estável.
Em outra postagem, Senhorita K. mostra a necessidade de um tempo para poder viver uma relação sexual e parece certa que é uma escolha dela e não de um outro: “Olha- la era mergulhar em um mar de ternura. Já ele, era brasa, pura atitude e ousadia. Mexer com ele era brincar com o fogo e ela não estava pronta para isso. Então, ele partira. (...) O mundo dera voltas (...) Aquela garotinha tola que um dia se apaixonara por ele, se transformara em uma mulher, ainda presa ao corpo de menina. (...) Ela crescera, amadurecera e ele está de volta (...) sua menina havia partido.”
Outro tema comum aos adolescentes, que também aparece no blog de Senhorita K., é a necessidade de se isolarem por alguns momentos.e esse isolamento muitas vezes não ser bem compreendido pelas pessoas próximas. Levy (1996) fala da necessidade desse refúgio psíquico quando houver uma intensidade de estímulos para serem pensados. “As pessoas não mais me entendem, nao entendem minha razão de ficar sozinha, meu senso de solidão, elas nao entendem k ele me dá forças... Em outra postagem diz: As vezes kero ficar sozinha (...) logo em seguida perçeber k sozinha nao tem graça.” Para Levy (1996) o refúgio é utilizado pelos adolescentes como “forma de realizar todo o trabalho reflexivo e elaborativo da adolescência” (p. 229).
Lentamente, Senhorita K. vai atravessando a adolescência, em momentos em que se socializa mais e outros em que percebe uma necessidade de estar só para poder pensar. Um pensar que também foi se desenvolvendo aos poucos. A vivência da sexualidade que muitas vezes parece ser assustadora vai ganhando espaço dentro dela. E aos poucos, com menos medo, vai se transformando em uma nova mulher.
4.3.4. O olhar
Em vários trechos das narrativas de Senhorita K., encontramos referências ao olhar, mostrando o quanto o olhar do outro dá existência a ela e aos seus sentimentos, representado aqui por este trecho: “Pelo reflexo no espelho não vejo nada em meus olhos..vc me diz tantas coisas, k eles são eternos, k são inspiradores de alguma forma para vc (...) Pelos seus.. vejo a alegria transparente, vejo o futuro, vejo algo indescritível.” Esta sua fala nos lembra Winnicott (1967) que diz “Quando olho sou visto, logo existo. Agora tenho como olhar e ver” (Winnicott, 1967, p.157). Foi através de um olhar libidinizador que deu sentido à sua existência, enquanto o espelho não lhe dizia nada. Tal fato nos remete à importância do vínculo do reconhecimento aqui estudado.