A abordagem do self que se segue tem como ponto de partida o interacionismo simbólico de Georg Herbert Mead. Como observa Elliot, o interacionismo simbólico é uma abordagem privilegiada para pensar o self “como um mecanismo central através do qual o indivíduo e o mundo social se intersetam”110
(2001: 24). Um dos pontos de interesse nesta teoria é o modo como Mead procura conciliar uma abordagem em que o self é visto como sendo socialmente constituído, por um lado, com o reconhecimento da liberdade, criatividade e iniciativa individual, por outro, ou seja, o modo como articula estrutura e agência. Esta abordagem aponta para o mecanismo através do qual o indivíduo adquire a sua individualidade do mesmo passo em que é socialmente constituído, ou seja, através do qual a sua natureza original e o condicionamento social a que está sujeito interagem para produzir um self único. Assim, Mead demonstra como a própria possibilidade de autoexpressão e autoafirmação de uma individualidade original depende de uma internalização da estrutura social.
Para Mead, a principal característica do self é a de ser “um objeto para si mesmo”111 (1967 [1934]: 136), quer dizer, é reflexivo, é sujeito e objeto ao mesmo
tempo. O self pensa sobre si próprio, o que significa que o indivíduo olha para si a partir ‘de fora’, como se fosse outra pessoa – na verdade, adotando o ponto de vista
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Tradução livre da autora. No original: “a central mechanism through which the individual and the social world intersect” (Elliott, 2001: 24).
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de outra ou de outras pessoas sobre si. E é por isso que o self é um processo social: o
self só é tornado possível pela internalização da estrutura de interação social.
A capacidade de tomar parte numa conversação através de símbolos significantes é apenas possível quando o indivíduo assume na sua mente as atitudes dos outros. Ter um self é ter uma conversação interior e, portanto, depende de que a mente do indivíduo seja uma estrutura de tipo social. O indivíduo experiencia-se a si mesmo indiretamente através do ponto de vista de outras pessoas com quem interage ou através do ponto de vista mais geral e organizado da comunidade em que está inserido: é aquilo a que Mead chama o “outro generalizado”112 (1967 [1934]: 154).
Neste processo, o indivíduo leva em conta as atitudes e as expectativas de outros – particulares ou generalizados – em relação a si e também por isso mesmo é capaz de se colocar no lugar dos outros. É através desta perspetiva sobre os outros que o indivíduo aprende a olhar para si como se fosse outra pessoa; e é desse modo que desenvolve um self. Assim, mesmo que, a partir desse momento, um dado self passasse a estar completamente isolado, porque a sua emergência dependeu de interação social, a sua natureza ainda continuaria a ser socialmente estruturada. De tudo isto se retira que a emergência do self requer a existência prévia – temporal e lógica – do grupo.
Torna-se assim claro o papel da linguagem na constituição do self. O que permite a reflexividade é a existência de símbolos, isto é, representações de objetos que permitem a comunicação interpessoal e intrapessoal. Porém, também não temos em Mead uma redução do self à linguagem (como acontece nas abordagens pós-
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estruturalistas), pois o autor reconhece à estrutura do self uma capacidade de ação que é pré-discursiva (cf. Callero, 2003).
O self reflete sempre um aspeto particular da organização social total, mas isto não significa que os indivíduos seguem as regras e normas sociais de um modo passivo ou que estão privados de originalidade, criatividade e sentido crítico. Cada
self reflete apenas um aspeto, ou um pequeno conjunto de aspetos, da comunidade
em que está inserido. Esse reflexo é singular e é o que faz a sua individualidade. É a famosa distinção avançada por Mead entre o I e o Me, como facetas do
self, o que permite compreender a individualidade e criatividade do indivíduo. O I
exprime aquilo que é original e inesperado no self, enquanto o Me exprime aí a presença do outro generalizado. O Me assume as atitudes dos outros enquanto o I lhes reage, uma reação que implica ajustar-se às expectativas sociais ou lutar contra elas e, portanto, reproduzir ou transformar as situações em que está colocado. A autoconsciência emerge quando o indivíduo distingue em si mesmo estas duas facetas e gere conscientemente o diálogo interior e íntimo que acontece entre elas. Nesse momento, ele adquire alguma distância reflexiva face às expectativas sociais.
Dizer que o indivíduo assume as atitudes e as expectativas dos outros não significa, portanto, que se vá submeter a elas. Significa que ele as leva em conta e as internaliza. Tem uma ideia de como os outros o veem, o que esperam do seu comportamento, o que permitirão e o que não tolerarão. Mas o indivíduo retém ainda a escolha de ir ao encontro dessas expectativas ou, pelo contrário, de as desafiar, manipular, negociar ou, simplesmente, rejeitar. Em todos estes casos, ainda se pode dizer que o indivíduo estrutura a sua atitude e o seu comportamento por referência aos outros.
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Mead estabelece uma conexão entre o self e a reivindicação de direitos que é especialmente relevante para esta tese. As condições que nos proporcionam um self são as mesmas que fazem de nós membros de uma comunidade e, portanto, detentores de direitos. “Não podemos ter direitos a menos que tenhamos atitudes comuns”113, afirma Mead (1967 [1934]: 164). Só através da assunção das atitudes do
outro generalizado, que se organizam em pertença e posição na comunidade, é que o indivíduo pode reivindicar o reconhecimento dos direitos e dos valores que lhe são devidos em virtude dessa pertença e posição. A dignidade vem com isto.
Às vezes, pelo contrário, é a resposta original que o indivíduo assume em relação à sociedade em que está inserido que lhe confere um sentimento de importância e dignidade. E até pode ser assim, mesmo quando a sua conduta desperta desaprovação. Não significa isto que a comunidade deixou de estar na raiz do self, mas significa que o indivíduo está a assumir as atitudes de outra comunidade.
Exige-se liberdade face às convenções, face a certas leis. É claro que tal situação só é possível quando o indivíduo apela, por assim dizer, a partir de uma comunidade mais pequena e restrita, para uma mais abrangente, quer dizer, abrangente no sentido lógico de ter direitos que não são tão restringidos. Apela-se a partir de convenções fixas que já não têm qualquer significado para a comunidade na qual os direitos serão publicamente reconhecidos, e apela-se aos outros na assunção de que existe um grupo de outros organizados que respondem ao apelo feito – mesmo que o apelo seja feito à posteridade.114 (Mead, 1967 [1934]: 199)
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Tradução livre da autora. No original: “We cannot have rights unless we have common attitudes” (Mead, 1967 [1934]: 164).
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Tradução livre da autora. No original: “The demand is freedom from conventions, from given laws. Of course, such a situation is only possible where the individual appeals, so to speak, from a narrow and restricted community to a larger one, that is, larger in the logical sense of having rights which are not so restricted. One appeals from fixed conventions which no longer have any meaning to a community in which the rights shall be publicly recognized, and one appeals to others on the assumption that there is a group of organized others that answer to one’s own appeal – even if the appeal be made to posterity.” (Mead, 1967 [1934]: 199)
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Este processo é epitomizado na ação de grandes personalidades que representam e atualizam uma nova ordem, ordem que já estava implícita, mas não realizada, nas instituições da sua época (Mead, 1967 [1934]: 216-218).
A abordagem ao self que Mead faz é uma ferramenta interessante para ancorar uma perspetiva do self como projeto – um projeto simbólico ativado e continuamente reinventado pelo próprio indivíduo a partir dos símbolos significantes da comunidade com a qual se identifica e à qual pretende pertencer.
Assim, o estudo do self exige o estudo das autointerpretações do indivíduo, o que remete para a sua consciência, mas remete também para os recursos culturais que lhe estão disponíveis e dos quais se serve. Em suma, não há que privilegiar quadros de referência internos ou externos. Antes, há que olhar para o nexo entre ambos.