A origem e o significado do termo “conforto” foram estudados com a finalidade de esclarecer o seu uso na prática, na pesquisa e na teoria de enfermagem e, como já referimos, tem sido desenvolvido em diferentes estudos e obras na área da enfermagem.
Na pesquisa realizada, encontraram-se vários estudos a nível internacional, que têm procurado explorar o conceito ora na perspectiva dos clientes, ora dos prestadores de cuidados, ou ainda relacionados com intervenções específicas que ajudam a obter conforto (Morse, 1983; Kolcaba & Kolcaba, 1991, Kolcaba, 1994; Cameron, 1993; Mcllveen & Morse, 1995; Bottorf, Gogag, & Engelberg-Lotzkar, 1995; Malinowski & Stamler, 2002; Mussi, 2005; Wilby, 2005). Nos estudos referidos, conclui-se que as definições são variadas, o conceito é basilar na profissão, estando o conforto associado a um estado de bem-estar físico e mental e olhado, ora como procedimento, ora como objectivo desejado, ora ainda como antagónico ao desconforto.
Relativamente à exploração deste fenómeno, um estudo de natureza qualitativa procurou compreender a opinião dos enfermeiros, no que diz respeito à forma como promovem os cuidados de conforto aos doentes internados num serviço de urgência (Heterich, 2004). O estudo concluiu que, não só era necessário haver uma maior consciencialização das práticas de cuidados de enfermagem que promovem conforto, como também se deveria investigar de que forma é que o conforto é percepcionado pelos doentes, uma vez que este é considerado o objectivo último dos cuidados de enfermagem.
Encontrámos ainda alguns estudos a nível internacional que procuraram investigar este fenómeno, inserindo-o num determinado contexto de culturas e grupos etários, nomeadamente na enfermagem cirúrgica, oncológica, ortopédica, unidades de cuidados intensivos, cuidados paliativos, radioterapia, saúde mental, geriatria, asilos, entre outros, (Morse, 1983; Cameron, 1993; Bottorf, Gogag & Engelberg-Lotzkar, 1995; Mussi, et al, 1996; Kolcaba, & Steiner, 2000; Panno, et al 2000; Cárter & Bhatia, 2001; Bécherraz, M. 2002a; 2002b; 2002c; 2002d; Walker, 2002; Tutton, & Seers, 2004; Meyer & Sturdy, 2004; Kolcaba, 2003, Wilby, 2005; Bland, 2007; Rosa et al., 2008; Yousefi, et., al, 2009).
Os resultados demonstram que o conforto surge como um conceito tangível e um estado dinâmico. Os achados realçam o contexto da experiência do conforto na dimensão física, social e psicoespiritual. Para os doentes, a vivência de conforto está relacionada essencialmente com o alívio do desconforto. O conceito aparece também ligado à saúde, ao carinho, ao toque, ao estar em paz, à conversa e à presença de família e de amigos significativos. A avaliação do desconforto/conforto pelo enfermeiro vai além da interpretação de sinais e sintomas, estando relacionada com a autonomia e o equilíbrio pessoal e
ambiental. Os resultados tornam-se inconclusivos relativamente à forma como os cuidados de enfermagem se constroem no contexto do encontro entre a pessoa e o enfermeiro, sendo recomendada a sua investigação.
Por outro lado, Wilson, (2002), no seu trabalho de doutoramento procurou perceber a relação que existia entre o conforto do doente hospitalizado e o apoio oferecido pelos cuidados de enfermagem. Os resultados são evidentes no que diz respeito à necessidade de se procurar perceber e atender as necessidades de conforto do doente que vive uma situação de internamento, já que tal facto minimizará a experiência de sofrimento inerente à sua situação e tornará o doente mais seguro e confortável, isto é, com mais qualidade de vida. Ainda a nível internacional e relativamente aos doentes idosos, encontraram-se poucos estudos. Hamilton (1989) realizou um estudo onde procurou explorar o significado de conforto – o que contribui para o conforto, o que o diminui e como estar confortável, na perspectiva de 30 doentes idosos hospitalizados. Concluiu que o conforto assenta numa perspectiva holística estando relacionado com aspectos relativos ao processo de doença, à vida hospitalar, ao posicionamento, às abordagens e às atitudes da equipa e ainda ligado com a auto-estima. A mensagem final é que o conforto é multidimensional, significando coisas diferentes para pessoas diferentes, sendo necessário continuar a sua exploração.
Encontraram-se ainda outros estudos desenvolvidos por Kolcaba, (2003) na área dos idosos, na vertente ortopédica e em idosos com doença de Alzeimer nos quais se procurou avaliar o nível de conforto, destes doentes, mediante instrumentos desenvolvidos pela autora. A constatação de que as acções de enfermagem devem responder às expectativas e necessidades dos doentes é igualmente referenciada.
Em Portugal, a temática suscitou interesse junto de investigadores, os quais já realizaram algumas pesquisas. Assim, foi validada uma escala de avaliação do conforto segundo o modelo operacional do mesmo, desenvolvida por Kolcaba (2003) e construída por Gameiro & Apóstolo, (2004) para avaliar o nível de conforto em doentes a realizar quimioterapia no hospital de dia e, mais tarde, foi realizado um estudo descritivo que procurou descrever as características de sofrimento e de conforto neste tipo de doentes como também, analisar a relação existente entre os mesmos (Apóstolo, et.al. 2006).
Posteriormente, Apóstolo (2007) desenvolveu o seu estudo de doutoramento em contexto psiquiátrico desenvolvendo um programa de intervenção – o imaginário conduzido no conforto de doentes. Concluiu que as pessoas sujeitas ao imaginário conduzido demonstraram um aumento de conforto total não só nos estados de alívio e transcendência como também nos contextos, físico, psicoespiritual e sociocultural. O conforto foi associado a vivências, tais como: melhoria da condição física, sentido mais elevado de auto-estima,
auto-confiança, auto-conceito e auto-controlo, maior paz de espírito e maior relaxamento corporal, mais alegria e satisfação/prazer, entre outras (Apóstolo, 2007).
Noutra vertente, Oliveira (2008) realizou um estudo com uma abordagem fenomenológica que procurou compreender a experiência vivida pelo enfermeiro e o significado de confortar a pessoa adulta e a pessoa idosa hospitalizada. Os resultados apontam para uma estrutura que assenta num processo complexo, fundado no compromisso moral e ético do enfermeiro que procura, de forma incessante, um maior conforto possível.Trata-se por isso, de um processo pessoalmente exigente, interactivo e criativo de intervenção e decisão com e a favor do doente hospitalizado (Oliveira, 2008). A mesma autora, no seu trabalho de doutoramento, já terminado no decorrer da nossa investigação, procurou compreender como o enfermeiro constrói com a pessoa idosa hospitalizada um cuidado experienciado como confortador, partindo de uma abordagem interpretativista pelo método da Grounded Theory. Para a sua compreensão considerou a díada, enfermeiro e cliente, envolvida no confortar e na experiência que daí decorre. Os achados identificam a importância de uma intervenção individualizada, adequada ao particular, com a pessoa numa interacção que, simultaneamente, possibilita conciliar as tensões em presença para obtenção de resultados centrados na mesma (Oliveira, 2011).
A análise dos estudos relatados evidencia que a percepção do conforto pode variar em função da cultura, do sexo, das circunstâncias que desencadeiam a necessidade de conforto, do estado de saúde, da experiência da doença, do ambiente e das expectativas/necessidades das pessoas. A investigação é clara ao demonstrar a importância de fazer pesquisas, procurando descobrir como o conforto é experimentado pelos doentes e utilizado pelos enfermeiros para melhorar os cuidados de enfermagem, resultando na necessidade de se estudar o fenómeno do conforto numa perspectiva simultânea e integrativa, no que se refere não só ao modo como se constrói o cuidado confortador (acção) e a experiência da pessoa ser confortada (interacção dos actores envolvidos), mas também tendo em conta particularidades e especificidades inerentes ao contexto situacional os quais concorrem para o conforto da pessoa idosa hospitalizada.
É nesta contextualização que nos fez sentido compreender o que fundamenta a natureza do processo de conforto do doente idoso que vivencia uma situação de doença crónica e de hospitalização – a interrelaçcão entre a estrutura, construção e resposta do conforto e suas especificidades, num contexto específico de internamento hospitalar. Esta perspectiva, implica aceitar a subjectividade da experiência do conforto, o que leva também a ter em conta a natureza intersubjectiva e interactiva do processo do mesmo (Paterson & Zderard,1976; Mussi, 2005; Oliveira, 2011). Desta forma, com a finalidade de determinar a melhor evidência disponível relativamente ao fenómeno em estudo, realizámos em 2011
uma revisão sistemática de literatura, procurando identificar estudos de natureza qualitativa que tivessem como participantes os doentes idosos hospitalizados e enfermeiros/prestadores de cuidados. Identificámos e analisámos quatro estudos primários9 cujos achados se expressam da seguinte forma:
– O processo de construção e resposta de conforto do doente idoso crónico hospitalizado alicerça-se numa acção de cuidado baseada no respeito e no reconhecimento da individualidade do sofrimento da pessoa humana e caracteriza-se pela relação entre as necessidades experienciadas pelo doente e o trabalho de enfermagem/prestadores de cuidados, devendo as acções/estratégias procurar responder aos desejos, às expectativas e às necessidades individuais dos doentes.
– O processo de conforto é individual, relativo a um momento particular e caracteriza- se pela sensação de tranquilidade, comodidade e satisfação, e ainda pela possibilidade e expectativa de se poder obter o desejado em qualquer momento.
– O processo de conforto é revestido de um carácter intencional. Constrói-se mediante acções e intenções dos enfermeiros/prestadores de cuidados dirigidas ao doente e às suas necessidades globais, onde se destaca a atenção ao cuidado diário – “as pequenas coisas” – e a atitude pessoal dos prestadores de cuidados: o reconhecimento do doente, o respeito, a sensibilidade, o compromisso, a preocupação, o conhecimento (o doente é olhado como um “amigo”), a proximidade física e afectiva, a comunicação, o toque e o humor.
– O conforto poderá situar-se na “sombra” do desconforto principalmente porque é reconhecido quando o doente já viveu um estado de desconforto e está relacionado com as necessidades experienciadas. A avaliação específica das necessidades de conforto é necessária e fundamental para uma intervenção de enfermagem holística e abrangente.
– O conforto surge como conceito tangível e as experiências de conforto do doente idoso hospitalizado relacionam-se com as manifestações de desconforto e os modos/formas de as aliviar, que vão desde à possibilidade de o doente aliviar o seu próprio desconforto, à diminuição de agressões, à assistência religiosa, à presença e apoio da família, e ao suportar/preservar a vida diária no hospital - mesmo que isso seja sentido como um desconforto.
– Para o doente, a resposta de conforto é alicerçada na experiência de satisfação face ao presente e ao futuro, na procura de alcançar o controlo sobre a sua situação de vida e na percepção de uma vida normal durante a hospitalização.
Foi possível, através dos estudos revistos, obter dados que respondam, se bem que de forma particular e parcialmente, aos fundamentos e especificidades que caracterizam o
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Bécherraz, M. (2002a; 2002b; 2002c; 2002d); Bottorf,J.,Gogag, M. & Engelberg-Lotzkar, M. (1995); Tutton, E. & Seers,K. (2004); Yousefi,H. et., al, (2009).
processo de conforto do doente idoso crónico hospitalizado. Para além dos estudos não nos terem parecido suficientemente exaustivos relativamente ao tema em questão, as características dos grupos de participantes (adultos e idosos) tornam os achados inconclusivos para o grupo populacional do nosso estudo. Para além dos aspectos referidos, também o pequeno número de estudos encontrados conduz necessáriamente à necessidade de uma maior clarificação sobre o tema em estudo, o que vem contribuir para suportar e fundamentar a nossa investigação, que procura compreender a natureza do processo de conforto do doente idoso crónico em contexto hospitalar.
Consideramos que a revisão da literatura efectuada se revelou essencial para delimitar o fenómeno em estudo. Pela análise da literatura e nos trabalhos nacionais e internacionais que consultámos, evidencia-se que o conforto e o desconforto devem ser olhados como estados antagónicos e subjectivos. A constatação de que o conforto pode ter significados diferentes para pessoas diferentes e a falta de uma clara compreensão dos aspectos inerentes ao mesmo em determinadas situações, justifica a sua exploração, em investigações múltiplas.De todas as definições encontradas uma noção é comum em todas elas: a procura da satisfação das necessidades do doente, enquanto pessoa, pressupõe um conhecimento do fenómeno na perspectiva dos sujeitos que o experimentam e a sua interacção com a prática dos profissionais que o proporcionam, numa acção baseada no respeito pela individualidade e subjectividade entre o cuidador e pessoa cuidada.
Nas investigações referidas constatamos, igualmente, que existe um conhecimento pouco claro no que diz respeito à natureza e estrutura do processo de conforto e suas especificidades, nomeadamente, no que respeita a estudos de natureza empírica com doentes idosos crónicos hospitalizados.
Em jeito de síntese apresentamos o diagrama 2: