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9. CONCLUSION ET PERSPECTIVES

Festa de Santos Reis na fazenda São João na década de 1970. Foto acervo do Sr. J. P. da S.

Portanto, as festas faziam parte da tradição do homem rural. Contam os fazendeiros mais antigos, do município de Indianópolis, que a festa mais tradicional era a de Santos Reis, realizada sempre no mês de janeiro, que ocorria em grande parte das fazendas, pois os fazendeiros eram devotos de Santos Reis, que eram os santos que protegiam as boas colheitas. Nessas festas, tinha sempre muita reza, muita comida e também o forró, que durava até o nascer do sol. Eram muito comuns, também, segundo alguns no meio rural de Indianópolis, as festas de São João, São Pedro, Santo Antônio e outros santos.

O senhor O. G. B comenta como era a tradição das festas de Reis nas fazendas:

A festa de Santos Reis era uma tradição das fazenda que tinha todo ano, e o povo ia porque todo mundo gostava e tinha fé. Todo ano a folia saia andano nas fazenda e cantano nas casa durante nove dia, o povo sempre ajudava a folia porque tinha muita fé nos Santos Reis, tinha gente que fazia doação de arroiz, tinha gente que dava capado, tinha uns fazendero que dava até vaca pá ajuda a festa. Por isso é que a festa tinha muita fartura. No dia da festa ficava lotado de gente, e depois que a folia cantava e acabava a parte da religião, era servida a janta, que era a coisa mais farturenta que existia, todo mundo comia à vontade. Porque tinha muita comida e muito doce, quando todo mundo cabava de comê tinha o baile que era muito bão e ia até o dia amanhecê (O. G. B. Conforme trabalho de campo em 19/10/05).

Conta-se que a cidade de Indianópolis já foi palco de grandes festas religiosas, não só no meio rural, como também na própria cidade. Segundo os mais velhos, a cidade nasceu como Aldeia de Santana por já ser habitada pelos índios, nela já existia a Igreja de Santana em sua primeira versão “original”, feita de pau-a-pique e adobe. Segundo a tradição, passada pelos mais velhos, ela teria sido construída pelos índios, versão que não pode ser comprovada.

Muitos dizem que teria sido construída no século XVIII, outros afirmam ser do século XVII, porém, no imaginário da população, principalmente dos mais velhos, ela se tornou um referencial da religiosidade da população local que, segundo alguns, era muito religiosa.

Nesse contexto, o poder público, referendado pelo imaginário popular, acabou transformando-a no cartão postal da cidade, preservando, assim, a imagem de um povo religioso, já que, por aqui, ainda acontecem algumas festas religiosas, até mesmo de caráter popular, como a Folia de Reis, que é realizada todos os anos, a qual será tratada no capítulo 3.

Desse modo, podemos afirmar que algumas festas religiosas ainda permanecem, como resistência e também como manifestação cultural do homem, que procura resgatar sua identidade, a qual, no caso do Triângulo Mineiro, está muito ligada à vida rural.

1.3 O Triângulo Mineiro: Relações Culturais e Religiosas

Na região do Triângulo Mineiro, durante o período colonial, eram freqüentes as expedições destinadas, não só a destruir os núcleos nativos, mas também a escravizar os índios. As expedições foram, na maioria dos casos, o primeiro contato que os povos indígenas tiveram com a sociedade colonial.

No caso de Indianópolis, há que se ressaltar suas peculiaridades, já que foi grande a presença indígena, uma vez que a cidade nasce como aldeia, porém desenvolve características que vão permanecer até por volta da década de 1970. Até esse momento além das igrejas, as fazendas eram os principais centros de convivência social e onde ocorriam as principais atividades econômicas, além de contar com uma forte religiosidade, uma vez que nelas se davam, também, grande parte das festas religiosas, promovidas pelos fazendeiros e prestigiada pela população rural, já que a maior parte da população vivia no campo.

No contexto da história do Triângulo Mineiro é importante frisar que a sua primeira forma de ocupação colonial foram os núcleos de população indígena, em forma de aldeamentos promovidos pelos colonizadores. Neles, os índios eram fixados de forma compulsória, ou cooptados pela catequese, e a partir de então eram tutelados pelo colonizador. No que se refere ao processo de apresamento dos índios, estes eram capturados e presos ao longo dos caminhos, onde se formavam pequenas aglomerações silvícolas, até que a quantidade de indivíduos tornasse vantajoso o transporte para os centros urbanos do Sudeste (BRANDÃO, 1989).

Nesse contexto, a história do Triângulo Mineiro e, particularmente, a de Indianópolis, está diretamente relacionada à presença indígena nessa região, que se deu de forma marcante, por meio dos aldeamentos. Entretanto, a partir da presença dos bandeirantes e do início de sua ocupação sistemática, ocorrem mudanças que irão se desdobrar em transformações sociais, culturais e religiosas importantes, dando ao povo triangulino e indianopolense características peculiares.

Nesse sentido, segundo Lourenço (2002, p.195), “o Triângulo Mineiro teve sua ocupação pioneira iniciada somente a partir dos primeiros anos do século XIX, por imigrantes vindos da região central da capitania - depois província - de Minas Gerais”. O autor afirma que, nesse período, a sociedade brasileira começa a mostrar algumas peculiaridades:

Como de resto no Brasil de então, a sociedade triangulina, desde muito cedo, exibiu os traços de uma ordem social fundamentada no tradicionalismo e na

valorização da fidalguia, na formação de grupos de fazendeiros e/ou industriais, que defendiam ou tinham a escravidão como um valor profundamente arraigado em todas as consciências. Valores típicos das sociedades de ordens do Antigo Regime, eram eles que informavam aqueles homens e mulheres, que criaram fazendas e sítios, nas matas e cerrados do Extremo Oeste Mineiro (LOURENÇO, 2002 p 196).

Dentro do contexto mencionado, pode-se perceber que a sociedade triangulina, historicamente, exibe as marcas de uma sociedade que, por detrás de um comportamento religioso e cristão inteiramente altruísta, sempre manteve os privilégios e a riqueza de sua classe dominante, fundamentada no conservadorismo, impregnado por preconceitos originados nos latifúndios desta região; muitos deles permanecem ainda até hoje.

Desse modo, podemos afirmar que, em cada região do estado de Minas Gerais, existem características bastante peculiares, advindas do processo de sua formação. Nesse sentido, Lourenço (2002, p. 197) afirma que “a fundação dos arraiais do Extremo Oeste Mineiro, diferentemente dos aldeamentos do Sertão da Farinha Podre4 (Triângulo Mineiro) resultou, em todos os casos, de iniciativas das oligarquias rurais, pela formação de patrimônios religiosos”. No caso de Indianópolis, segundo relato de alguns moradores mais antigos, as capelas eram construídas nas próprias terras dos fazendeiros. Já no Extremo-Oeste Mineiro, como afirma o autor, as capelas eram construídas pela comunidade, em terras doadas pelos próprios fazendeiros, em nome de um Santo qualquer; antes de sua primeira atividade religiosa, a benção do vigário era a atividade mais importante. Segundo Murilo Marx (1991), a benção tratava de um reconhecimento, por parte do Estado e, principalmente, da Igreja, para a legitimação e existência de um povoado.

No caso de Indianópolis, segundo relatos de alguns fazendeiros do município, era muito comum construir-se uma capela ou um cruzeiro na fazenda, como sinal de fé e proteção para esta, onde eram também realizados terços e festas. As capelas maiores, dos povoados ou locais próximos, eram construídas com a doação do terreno, geralmente feita por um fazendeiro qualquer, sendo a construção tarefa executada quase sempre pela comunidade, por intermédio de doações; nesses locais realizavam-se, as grandes festas.

4 Existem três versões para o nome “Sertão da Farinha podre”. A primeira seria por estar localizado em uma

região, na época, de pouca fertilidade de seus solos. A segunda revela o fato de que, como esta região está localizada no sertão mais interiorano, era comum que as primeiras entradas dos paulistas nestas paragens, deixassem alimentos em certos locais para depois recuperá-los, para o sustento das tropas. Como as distâncias eram enormes e os caminhos difíceis, quase sempre, quando as tropas chegavam nestes pontos de abastecimentos encontravam os alimentos, especialmente um dos viveres mais importantes, que era a farinha, apodrecidos. Assim, tornou-se “Sertão da Farinha Podre”. Porém, existe uma terceira explicação para este nome. Tal alcunha pode estar relacionada a uma região portuguesa, próxima a Trás dos Montes, que seria a matriz deste nome, Farinha Podre. No entanto, ainda não se tem uma versão considerada definitiva para tal denominação.

A capela, além das funções religiosas, era ponto de reunião social. Além dos casamentos e batizados, com freqüência serviam de cemitério aos membros das famílias. Desse modo, percebe-se que a efervescência religiosa assegurava a possibilidade de continuidade dos contatos entre vivos e mortos.