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O IX EBGLT acontece em São Paulo em 1997, realizado sobre o comando das organizações Rede de Informação Um Só Olhar, Grupo CORSA e ativistas. Durante o processo de organização surgiram vários conflitos internos, com deterioramento entre os grupos. O encontro teve a participação de 52 grupos, e uma circulação intensa de cartas acusatórias, com posicionamentos, confrontos verbais em plenárias e muita agressividade. Facchini explica que a grande motivação para que houvesse confrontos era o fato de que, a partir de 1995, o envolvimento do Estado exigiu um controle maior nas organizações dos eventos. Para adquirir financiamentos, era necessário que as organizações obtivessem a estrutura de ONG. Um exemplo era a Rede de Informação Um Outro Olhar, um dos organizadores, que foi um dos principais alvos de acusação. A Rede de Informação um outro Olhar já tinha algum nível de experiência com financiamentos anteriormente e tornou- se responsável para garantir a boa condução, qualidade e resultados das atividades dos encontros, em nome próprio da rede e de outras organizações que pleiteavam financiamento similares. A “agenda” de conflitos contrapunha o posicionamento do movimento na democracia, a “subordinação” ao governo versus a preservação da autonomia pelas organizações, machismo gay entre outros. As acusações permeavam a discriminação, luta por poder, violência e autoritarismo, criando a denominação Coronelismo de Militância6, falta de respeito pelo trabalho e falta de compromisso com a causa. Um dos maiores sintomas do conflito, e que até hoje permeia entre as conferencias e encontros é a questão da identidade coletiva. Conflitos como lésbicas que reclamam que travestis usam banheiro feminino (pois ainda são homens), ou o financiamento para certos grupos, excluindo o “resto”. Tudo em meio de competitividade por uma centralização de importância do tema, conflito este que continua a permear os encontros.

Neste mesmo evento acontece uma passeata pelas ruas da cidade, e foi considerada a primeira manifestação do orgulho gay. No ano de 1998, a ABGLT vai ter uma composição de 68 grupos do movimento homossexual de todo o Brasil. É também em 1990, na pós- redemocratização, que se iniciam novas construções sociais de ação política, da esfera pública, do mercado e das relações entre Estado e sociedade civil. Neste parâmetro Souza (2013) analisa principalmente as condições que permitiram a formação do movimento homossexual brasileiro em um momento de pouca atenção estatal, que é justamente entre os anos 1970 e 1980.Toda a informação mais precisa, na grande maioria da literatura, quanto a relação dos movimentos com o Estado se encontra após a metade da década de 1990. Para Souza (2013), a literatura de movimentos sociais pouco analisou os processos de formação e construção dos movimentos das minorias no interior deste processo mais

6 Silva (2011) apresenta o termo como a proposta de centralização, trazendo para a sua figura o processo

amplo de redemocratização. Por outro lado, as pesquisas tiveram mais foco no intramovimento, negligenciando a relação do movimento homossexual com outros movimentos sociais.

Na medida em que houve maior abertura para a percepção do movimento LGBT, e maior visibilidade, iniciou-se um número maior de pesquisas. Neste âmbito, dois campos se distinguem, o da política e o da organização/identidade. Uma das abordagens mais importantes desta frente entre relações do movimento e conflito interno do movimento é a abordagem de Facchini (2009) no artigo “Entre compassos e descompassos: um olhar para o “campo” e para a “arena” do movimento LGBT brasileiro”. Nesta abordagem Facchini contextualiza o movimento, desde seu surgimento na década de 1980, passando pelo início das ações afirmativas nos anos 1990 com foco na redução da desigualdade de gênero. Facchini não somente apresenta o contexto histórico mas também demonstra quando se inicia a relação entre o movimento LGBT e o Estado. Ela então verifica o deslocamento do movimento LGBT da periferia para o centro e o surgimento das ONGs militantes. Como parte do próprio título, o estudo da autora identifica duas áreas distintas de pesquisa LGBT: Um olhar sobre o “campo”, aonde o movimento se encontra, inter-relacionando-se com outras estruturas e com o governo. Pode ser uma área relacionada, ou qualquer outra adjacente. No “campo” envolve-se o cotidiano, as organizações ativistas e atores de mercado. Já a “arena” são as diversas categorias dentro do movimento LGBT, no qual são defendidos, mas não se encontram diretamente envolvidos. Facchini explica que dentro do movimento existe uma tênue linha entre a transversalidade e a interseções dentro do contexto do movimento. Ela também aborda o mérito do impacto do movimento nas políticas públicas e a politização do movimento.

No âmbito político, existe ainda a análise de Marques e D’Avila (2010) sobre a interação dos movimentos sociais e os partidos políticos. Os autores focam seu trabalho de campo em duas etapas, primeiramente focando os partidos políticos como instituições e a segunda etapa procuram mapear a atuação de parlamentares da Câmara Federal por meio de banco de dados virtual, consultando as proposições LGBT ao longo do tempo e qualificando esses dados a partir de duas frentes parlamentares constituídas: Frente Parlamentar Mista pela Livre Expressão Sexual e Frente Parlamentar Mista pela Cidadania LGBT. A perspectiva é a de que novas subjetividades, padrões conjugais, identidade de gênero e percepções da sexualidade, vem produzindo novas agendas no mundo público, reconfigurando o debate no Brasil. Os autores apresentam um hiato diante da explosão de demandas na última década. Ou seja, essa explosão de demandas advém desta construção de novas identidades no movimento.

Entre o campo da identidade e o campo político, muitos trabalhos de pesquisa procuram especificar uma parte ou outra. Machado (2013) apresenta um estudo acerca da constituição de identidades coletivas em torno da Parada do Orgulho GLBT de Belo Horizonte – MG, com o objetivo de identificar os processos transformativos que implicam na formação de alternativas políticas contra hegemônicas, que objetivam a equivalência dos direitos e efetivação dos princípios de cidadania para gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transgênicos.

O autor discute a especificidade destas experiências na cidade de Belo Horizonte, tentando apreendê-las prioritariamente no movimento que vai da sociedade civil para os espaços político-institucionais. Ele inicia através de uma análise da história da militância GLBT, fazendo a inclusão do mesmo no estado-da-arte dos movimentos sociais dentro do campo metodológico abordando movimentos sociais e identidade coletiva, retratando o movimento e definindo as estratégias metodológicas de forma a abordar dados qualitativos. O autor analisa a politização e o enfrentamento Social LGBT bem como sua história no mundo, definindo os três momentos do movimento e das políticas homossexuais no Brasil e a contextualização do movimento atual . O autor também apresenta a abordagem in loco do movimento LGBT em Belo Horizonte, iniciando desde a década de 1970, passando pelos anos 1980 e a epidemia de HIV, e o surgimento de programas e organizações políticas de reação, procurando demonstrar os diversos movimentos e como o movimento LGBT se diversificou a partir dos anos noventa. Assim para Machado, a abordagem do ativismo LGBT no espaço político de dá através da coordenação de direitos humanos e de centros de referência, bem como por meio de pesquisas acadêmicas realizadas sobre a temática LGBT e referência destes grupos nas pesquisas realizadas.

Ao entender as formas de interações das organizações homossexuais no Brasil, desde a sua formação, conflitos e dinâmicas, passamos a visibilidade de um foco nacional para o foco estadual, contemplando o movimento no Espírito Santo.

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