CHAPITRE II : CROISSANCE DES MICROORGANISMES SUR TOURTEAU DE COLZA
4. Conclusion
O presente estudo incide num período em que o ensino não era visto como possível dinamizador da mobilidade social, tendo em conta que «para se viver no topo
tinha de se ter nascido no topo» (Mónica, 1996: 229), destacando Boudon (1973) que o
factor económico era, efectivamente, determinante para a manutenção das desigualdades de oportunidades no acesso ao ensino, bem como no processo de mobilidade social. Refere ainda que os indivíduos se diferenciam não só no âmbito da herança cultural, mas, também, segundo as posições que ocupam no sistema de estratificação social. Considera o êxito escolar e a posição social reciprocamente indissociáveis, tendo em conta que as posições são atribuídas aos sujeitos apoiados quer na origem social quer no nível escolar.
A Igreja católica poderia constituir a única alternativa para contornar este
«determinismo», tendo em conta que, através das suas organizações, procurava «captar o talento» (Mónica, 1996: 229; Cortesão, 1988; Stoer, 1986; Carvalho, 1996).
Desta forma, e tendo ainda em conta o que tem vindo a ser relatado ao longo do presente estudo, entendemos dar voz a um ex-estudante do ensino religioso.
Numa lógica de anonimato será o Professor entrevistado denominado por Professor F.
Tabela n.º 30 – Identificação e caracterização do ex-estudante do ensino religioso
Identificação Género Estabelecimento de ensino
frequentado
Início-Conclusão do curso
O Professor F nasceu em 1942. É o filho primogénito de um casal de camponeses, ambos iletrados, residentes numa aldeia do concelho de Leiria, localizada a cerca de 20 km desta cidade. Os seus pais tinham, no total, seis filhos, três do sexo masculino e três do sexo feminino.
Refere que frequentou o ensino primário na aldeia onde residia e ingressou no ensino religioso em 1953, num Seminário Diocesano.
O Professor F dá-nos conta que a escolha do estabelecimento de ensino deve-a aos seus pais, considerando que quando ingressou no ensino religioso era ainda bastante jovem (11 anos de idade), escolha que aceitou, considerando que como queria estudar,
não havia outra solução, consciente das dificuldades económicas sentidas pela família.
Contribuiu ainda para aquela decisão o facto de os estabelecimentos de ensino secundário estarem concentrados na cidade e a inexistência de meios de transporte que assegurassem a deslocação de forma regular. Sublinha que, já depois de ingressar no Seminário, ao regressar a casa no período de férias, por vezes tinha que fazer todo percurso a pé, com a mala de viagem cheia.
Em alternativa, acrescenta, poderia aquele trajecto ser efectuado de bicicleta, mas não era aconselhável para uma criança de 11 anos fazê-lo sozinha todos os dias.
Todos os colegas que o Professor F conheceu durante a sua passagem pelo Seminário provinham do meio rural Não conheci um só sequer da cidade. Normalmente, eram as famílias economicamente mais carenciadas que procuravam este tipo de ensino, talvez por ser menos dispendioso, quando comparado com o ensino oficial.
O Professor F recorda que todos os estudantes tinham os mesmos apoios embora as prestações mensais diferissem um pouco consoante as possibilidades económicas de cada família. Contudo, a mensalidade mínima, cifrava-se, recorda, em 50$00, sendo ainda devida, pelas famílias dos estudantes, uma prestação anual de 50$00. Desta forma, os encargos anuais fixos, com o estabelecimento de ensino cifravam-se, num valor mínimo de 500$00, quando, em igual período, o valor anual das propinas, se situava em 1.200$00, em todas as escolas superiores públicas, por aplicação do Decreto-Lei n.º 31 658, de 21 de Novembro de 1941.
Este apoio financeiro era-lhe prestado pela sua própria família. Porém, alguns colegas mais carenciados, normalmente provenientes de famílias numerosas e humildes,
CAPÍTULOVI ABORDAGEM INTENSIVA
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viam as suas despesas ser suportadas por outras famílias que apresentavam maior disponibilidade financeira. Recorda por exemplo, o caso de um colega, também do concelho de Leiria que provinha de uma família de oito irmãos. A família, consciente do desejo do filho de frequentar o ensino religioso e reconhecendo a incapacidade para permitir a sua satisfação, solicitou apoio a uma família que residia na mesma aldeia e
que tinha um filho a estudar, que veio a ser Médico. Acrescenta que todas as despesas eram suportadas por essa família e, dos fatos do filho, fazia a roupa para o meu colega.
Esta era, aliás, uma prática habitual nesse tempo. Havia um grande apoio à
Igreja e, consequentemente, a quem pretendesse seguir a vida religiosa.
A alimentação no estabelecimento de ensino era disponibilizada pela própria Instituição, mas tudo o resto, desde a roupa, calçado, os produtos de higiene pessoal até ao material didáctico87, ficava a cargo da família do estudante.
Ao domingo havia um período de 30 minutos (entre as 10:00 horas e as 10:30 horas) para que as famílias fizessem chegar aos estudantes residentes os produtos necessários para a semana seguinte, recebendo em troca aqueles utilizados na semana que findara.
No caso do Professor F, esta permuta era assegurada pela sua irmã, mais nova
apenas dois anos. Todo o itinerário de, no total, aproximadamente 40 km era percorrido
pela criança sozinha e a pé.
A participação na vida académica era prática corrente e totalmente apoiada pela Instituição.
Fazia-se teatro, canto coral, havia uma academia literária com reuniões mensais onde, em cada uma, discursava um aluno diferente, com uma revista interna onde os alunos expunham os seus artigos sobre assuntos da sua escolha, tudo dirigido por uma direcção formada pelos alunos, com presidente, secretário e tesoureiro. (Professor F)
O mesmo acontecia relativamente às actividades desportivas, dispondo, não obstante, este sector de direcção própria. Os estudantes praticavam sobretudo voleibol,
pingue-pongue e, claro está, futebol. Para a prática desta última modalidade desportiva
contavam com a reserva do Estádio Municipal, à quinta-feira, dia em que não tínhamos
aulas.
Acrescenta ainda o Professor F que, para prestar assistência médica aos estudantes, havia um médico no hospital, que podíamos consultar regularmente e a
título gratuito.
O Professor F conclui referindo que o ensino religioso foi, de facto, o meio encontrado na altura para poder continuar a estudar, abrindo-lhe algumas portas que de
outra forma estariam encerradas para alguém que provinha do meio rural88.
Acrescenta que, concluído o curso, em 1964, iniciou o seu percurso como padre de uma paróquia do Concelho de Leiria, onde se manteve durante vários anos. Contudo, algumas deferências com a Igreja católica levaram-no a reconsiderar todo o seu percurso profissional e a enveredar por novos caminhos que, entretanto, começavam a ficar bem definidos e acessíveis para quem tinha efectuado um longo percurso no ensino religioso.