O Manual de Educação Tecnológica da United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization (UNESCO) define, em termos simples, que: “a tecnologia é a extensão da nossa capacidade humana, a fim de satisfazer nossas necessidades ou desejos” (WOCATE, 2003, p. 27, tradução livre). Esta definição atende aos propósitos desta pesquisa que, conforme já enunciado, tem como perspectiva o enfoque humano. O manual elucida, ainda, que a “tecnologia emprega conhecimentos, ferramentas e habilidades para
aumentar o potencial humano, para resolver problemas práticos, para modificar o nosso mundo” (p. 8, tradução livre).
Compreende-se, como organizações de base tecnológica, nesta pesquisa:
Empresas que têm a tecnologia como elemento essencial à sua operação e aos seus diferenciais competitivos. Por terem na tecnologia seu diferencial competitivo, tais empresas investem na geração constante de novos conhecimentos já que todos os resultados da empresa advém desses. Por este motivo, tais empresas possuem um ciclo de vida dos produtos bastante curto já que a perecibilidade do conhecimento é alta (RIGGS, 1983 apud DIAS, 2012, p. 44).
A definição foi selecionada a partir do trabalho de revisão sistemática da literatura apresentado por Dias (2012), conforme o quadro 11.
Quadro 11 – Definições de empresas de base tecnológica
Autor(es) Definição de Empresa de Base Tecnológica
Abernathy e Utterback (1978)
Empresas com processos flexíveis de produção, classificadas como de padrão de inovação fluído, cujo capital humano é altamente qualificado, (intra)empreendedor, e com controle organizacional informal. Normalmente formam-se e se desenvolvem proximamente a polos de tecnologia, geralmente Universidades.
Riggs (1983)
Empresas que têm a tecnologia como elemento essencial à sua operação e aos seus diferenciais competitivos. Por terem na tecnologia seu diferencial competitivo, tais empresas investem na geração constante de novos conhecimentos já que todos os resultados da empresa advém desses. Por este motivo, tais empresas possuem um ciclo de vida dos produtos bastante curto já que a perecibilidade do conhecimento é alta. Torkomian e
Ferro (1988)
Empresas com competências que incorporam elevado grau de conhecimento científico, atuantes nos segmentos da biotecnologia, da informática, das telecomunicações, da robótica e no desenvolvimento de novos materiais.
Autor(es) Definição de Empresa de Base Tecnológica Castells (1989)
Empresas que utilizam como principal matéria-prima, a informação e o conhecimento. As empresas de maior porte, não raras vezes, perdem capital humano empreendedor que inicia seu próprio negócio.
Kruglianskas (1996)
Empresas com extraordinária orientação inovativa, que operam com alto risco de sucesso e com muitas incertezas, e que possuem grande estoque de ativos intangíveis. Normalmente não possuem fluxo de caixa estável e saudável. São empresas que estão sempre próximas aos clientes, não raras vezes trabalhando dentro das instalações deles.
Fernandes et al. (2000)
Empresas com processo de desenvolvimento de produto interno, estruturado ou não, que possuem elevado percentual do faturamento aplicado em pesquisa e desenvolvimento tendo, em alguns casos um setor de P&D dentro da empresa. Possuem, ainda, alto percentual de trabalhadores do conhecimento em relação ao número total de colaboradores. Procuram estar próximas e com relações estreitas com universidades e com centros de pesquisas. Mantém significativa parcela dos seus investimentos na aquisição de novas tecnologias.
Porter (2002) Empresas de maior rentabilidade, orientadas para inovação, e mais exigentes em termos de qualificação do capital humano. Fonte: Adaptado de Dias (2012, p. 44-47).
Granstrand (1998, p. 466, tradução livre) explica que a evolução das ciências e tecnologias gerou a exploração de novas oportunidades, tornando um crescente número de empresas "dependente ou baseada em tecnologia na exploração de oportunidades de negócio, dando assim origem à empresa de base tecnológica (EBT) como uma subespécie da empresa de negócios moderna". O autor evidencia, ainda, a interação da empresa com o seu meio, sendo sensível a mudanças técnicas e tecnológicas de ordem interna ou externa. Ele considera que a "tecnologia é um tipo de conhecimento especial", com propriedades características não compartilhadas por outros tipos de conhecimento. Dentre as propriedades, lista: vínculo com artefatos ou sistemas de artefatos e com os seus processos de produção; vínculo com as ciências naturais e suas metodologias; alto grau de codificabilidade pelo uso de fórmulas e linguagens formais, modelos, patentes, explicitações; vínculo com a intenção prática; vínculo com sistemas comuns globalmente orientados como normalizações, classificações, regulamentos; sendo
passível de proteção pelos direitos e patentes (GRANSTRAND, 1998, p. 480).
3.1.1 Ambiente inovador em organizações de base tecnológica Organizações de base tecnológica devem oferecer o ambiente propício para os fluxos de conhecimento e inovação, sendo potenciais incentivadoras do intraempreendedorismo por parte de seus colaboradores. Por intraempreendedor compreende-se o empreendedor interno que, “a partir de uma ideia, e recebendo liberdade, incentivo e recursos da empresa onde trabalha, dedica-se em transformar esta ideia num produto de sucesso” (PINCHOT, 1987 apud REIS, 2008, p. 173).
Na avaliação de Willerding (2011, p. 50), “as inovações tecnológicas possibilitam novas perspectivas de atuação organizacional, descortinando os horizontes individuais e valorizando, através de suas competências intelectuais, o capital humano”. A autora evidencia que investimentos no elemento humano podem ser convertidos em vantagens competitivas para a própria organização.
De acordo com Leonardi (2011), pessoas reagem à materialidade tecnológica pondo em evidência o agente humano. Esta crença encontra fundamentação em McLuhan (2007), para quem as tecnologias criam ambientes novos, precipitando novos papéis, valores e padrões de comportamentos, além de maior participação e relacionamentos no trabalho e na vida social.
Reforçando as ideias expostas, Reis (2008, p. 81) considera que os colaboradores “são fundamentais no processo de acumulação de conhecimentos e construção de capacidades tecnológicas da empresa”, sendo geradores de inovação e competitividade no mercado. Defende que os colaboradores devem ter a percepção de que a busca constante por formação e conhecimentos parte da alta gestão, mantendo toda a empresa em constante formação, em alusão à empresa que aprende. O autor propõe a implantação de cultura intraempreendedora, com base na figura 3, reproduzida.
Reis (2008) esclarece que o ciclo de inovação deve ser iniciado por mecanismos de difusão e comunicação, processos decisórios pautados por planejamento, autonomia de líderes e de equipes de trabalho, sendo a inovação um resultado esperado e monitorado, a fim de retroalimentar toda a sustentabilidade do ciclo.
Figura 3 - A cultura intraempreendedora nas organizações
Fonte: Reis (2008, p. 185).
De acordo com Makri, Lane e Gomez-Mejia (2006), o setor de alta tecnologia desempenha importante papel na economia, sendo necessário capitalizar as ideias desenvolvidas, pois o ciclo de vida dos produtos são mais curtos, fazendo as empresas buscarem um fluxo contínuo de ideias para introdução de novos produtos. Evidenciam o poder dos principais gestores em manter um ambiente corporativo propício às inovações, precisando estes também ser motivados e incentivados.
Segundo Davenport (2005, p. 3-4, tradução livre), trabalhadores do conhecimento são desencadeadores de inovação, lucratividade, crescimento e progresso. Segundo o autor, a automação fabril, o advento dos computadores e a difusão da informação criaram a demanda para esses trabalhadores, empenhados em extrair significados e agir com base no conhecimento.
Caso este século (séc. 21) confirme o padrão de inovações tecnológicas a cada 50 anos, verificado pelo economista Joseph Schumpeter com base nos ciclos de desenvolvimento econômico de Nikolai Kondratiev (METZ, 2011), a sociedade está à beira de uma inovação tecnológica revolucionária. Considerando que a última "onda" foi em 1970, com as novas Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC), investir na GC de organizações de base tecnológica pode ser o caminho para inovações radicais, incrementais, vantagem competitiva e sustentabilidade das organizações.