Outra obra que não pode faltar para quem pesquisa sobre (ou trabalha em) editoras universitárias é o livro Edusp, um projeto editorial, citado anteriormente. Ele traz o relato da implantação, na Editora da USP, do seu projeto editorial propriamente dito, pois ela existiu durante 26 anos como financiadora de coedições, quase que na totalidade de suas publicações.
Assim como o livro de Bufrem, esse também reflete em detalhes as práticas dos primeiros anos das editoras universitárias do país, além de poder se constituir em um roteiro para editoras que queiram se profissionalizar. Depois de quase três décadas sem identidade e estrutura próprias, a Edusp teve uma significativa mudança e tornou-se modelo para o setor, quando passou a ser uma editora de fato, com autonomia editorial e investimentos adequados em pessoal e estrutura. Isso se refletiu na qualidade de suas publicações e a prova é a grande quantidade de prêmios Jabuti que conquista. Desde então representa, com suas publicações, “a excelência da USP140” como um todo.
Muitas medidas foram tomadas para chegar a esse ponto, mas, segundo os autores, nenhuma delas “teria sido suficiente sem uma clara política editorial141” para que a Edusp pudesse “ampliar e fortalecer sua presença no panorama cultural brasileiro”142
136 GUEDES; MAZZILLI, 2000, p. 81
137 GUEDES; MAZZILLI, 2000, p. 81. Destaque nosso. 138 GUEDES; MAZZILLI, 2000, p. 81
139 GUEDES; MAZZILLI, 2000, p. 83
140 MARTINS FILHO; ROLLEMBERG, 2001, p. 77. 141 MARTINS FILHO; ROLLEMBERG, 2001, p. 236. 142 MARTINS FILHO; ROLLEMBERG, 2001, p. 236.
50 De acordo com eles, o que proporcionou a reformulação da Edusp não foi uma mudança de diretoria e sim uma mudança de mentalidade da própria USP com relação ao funcionamento da editora. A adoção de uma “política corajosa” fez dela um “sinônimo de excelência editorial” e marcou a sua passagem de uma “publicadora oficial de livros” para uma das melhores editoras do país.143
Com sua política editorial e de produção bem definidas, a Edusp pôde, a partir dessa guinada, conquistar e manter uma relativa estabilidade em diferentes gestões, o que permitiu criar uma tradição que não pudesse ser interrompida de tempos em tempos, quando, porventura, houvesse mudança de sua direção.144
Uma das ações mais importantes na consolidação da Edusp foi a reelaboração de sua política editorial, de forma que esta fosse “blindada” contra possíveis alterações ao sabor das mudanças de gestão. Sobre isso, as três citações abaixo dispensam outros comentários:
Um projeto editorial não se faz com políticas de curto prazo, nem com constantes alterações de rumo. Ao olhar para trás, em uma rápida retrospectiva, podemos constatar que em todo seu tempo de existência, as principais crises pelas quais a Edusp passou se deram justamente durante as mudanças de direção, a cada troca de reitor, com o risco sempre presente de desfazer os acertos anteriores.145
Toda editora que merece este nome tem uma rotina própria de trabalho, com base em uma política de publicações, um projeto gráfico-editorial bem definido [...]. Não se pode trocar completamente de política editorial de quatro em quatro anos, sob pena de nunca vir a se consolidar o que já foi conquistado e, ainda mais, de comprometer sua evolução.146
Mas para ser forte o suficiente uma instituição não pode depender de um ou alguns indivíduos, e sim possuir uma estrutura técnico- profissional adequada e permanente que assegure, ainda que haja troca de direção, as condições necessárias à execução da política determinada pela comissão editorial.147
143 MARTINS FILHO; ROLLEMBERG, 2001, p. 22, 65-66. Trechos entre aspas, respectivamente na página 22.
144 MARTINS FILHO; ROLLEMBERG, 2001, p. 62. 145 MARTINS FILHO; ROLLEMBERG, 2001, p. 237. 146 MARTINS FILHO; ROLLEMBERG, 2001, p. 237. 147 MARTINS FILHO; ROLLEMBERG, 2001, p. 238
51 Enfim, basta uma olhada pelo sumário desse livro para verificar a importância dos temas que ele traz e, ainda, a sua atualidade quanto à realidade da editoração universitária no Brasil, na maioria dos locais onde ela existe.
52 3 SURGIMENTO E EVOLUÇÃO DA EDUFU
Estudiosa das editoras universitárias brasileiras, Leilah Santiago Bufrem verificou que muitas delas evoluíram dos serviços gráficos prestados pelas imprensas universitárias, tanto que até hoje é comum haver confusão entre gráfica e editora no meio acadêmico148. Um desses serviços era a publicação de periódicos científicos. Na UFU não foi diferente e ainda hoje se nota essa confusão no âmbito da universidade, na rotina de atendimento ao público na Edufu e na Divisão Gráfica.
Foi no final de 1981 que a UFU começou a dar seus primeiros passos para publicação de livros, criando uma Comissão Editorial para analisar as propostas de publicação. A documentação desse processo ao longo dos anos não foi alvo de um arquivamento sistemático, tanto que há períodos sem registro, como se poderá perceber ao longo deste trabalho.
Na busca por documentos que pudessem ser reunidos para registrar a história da Edufu não foi encontrado nenhum que oficializasse a sua criação como órgão autônomo na estrutura da universidade, a não ser os regimentos a partir do ano 2001, os quais, ainda assim, não citam datas anteriores. A criação da Comissão Editorial, em 1981, é citada em ata, referindo-se a uma portaria do reitor, como será mostrado mais adiante, o que pode ser contado como sendo o início de uma editoração mais formal, visto que antes disso (1980, por exemplo) já existiam publicações com o selo da UFU.149 Posteriormente, houve a criação de conselhos editoriais, elaboração de regimento interno e emissão de documentos que tratam a editora como sendo um setor vinculado a algum órgão da UFU, dependendo da época. O Quadro 3 mostra as configurações da editora nos três últimos regimentos.
Outros documentos oficiais, como resoluções, atas dos conselhos superiores e portarias, foram localizados no Portal Transparência UFU150, por meio de busca eletrônica exaustiva com termos como: Edufu, editora, publicação, livros, revistas, gráfica, edição, editoração, entre outros. Alguns foram encontrados em armários da
148 BUFREM, 2001, p. 33.
149 Há pelo menos duas obras literárias publicadas em 1980: “Concurso de contos”, do Departamento de Letras UFU, e “Plástica do espírito”, uma peça teatral cuja ficha catalográfica traz como responsável pela publicação a “Gráfica da UFU”. E, ainda, duas obras de 1983, antes da vinculação com a Biblioteca Nacional: “Usucapião de imóveis” e “A ontologia hermenêutica de H.G. Gadamer”. Existem também outras obras, até mesmo da década de 1990, publicadas em nome da UFU sem o ISBN da Edufu. 150 UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA. Portal Transparência. Disponível em: <http://www.transparencia.ufu.br/>. Acesso em: 15 mar. 2014.
53 Diretoria de Comunicação/Dirco, como uma pasta de Resoluções do Condir, elaborada pela Secretaria Geral, que abrange o período de 1980 a 2002, contendo, inclusive, documentos que não estão no Portal Transparência, e o relatório da gestão 1992-1996. O relatório de gestão 1988-1992 e a Revista da UFU, relativa à gestão 1993-1996, foram fornecidos pela historiadora Maria Clara Tomaz Machado.
Quadro 3 – Definição da natureza e competências da Edufu segundo os últimos três regimentos
Regimentos Natureza Competências
2001 Art. 2º - A Editora [...] é um órgão de fomento do ensino, da pesquisa e da extensão, subordinado diretamente à Reitoria.
Art. 3º - Compete à Editora editar ou co-editar e divulgar trabalhos que interessam ao ensino, à pesquisa e à extensão e incentivar a sua produção. 2006 Art. 1º - A Editora [...], na forma do
art. 45 do Regimento Geral da Universidade, é Órgão Administrativo, classificado como Diretoria, de natureza técnica, consultiva e deliberativa, subordinado diretamente à Reitoria e por ela mantido [...]
Art. 1º - [...] incentivar e promover a produção literária acadêmica da Universidade [...]
Art. 2º - [...] por meio da publicação e divulgação de obras literárias resultantes de atividades de ensino, pesquisa e extensão.
2011 Art. 1º - A Editora [...] em conformidade com o Regimento Geral da UFU, é Órgão Administrativo subordinado e mantido pela Reitoria.
Art. 2º - A EDUFU é responsável pelas publicações nas modalidades impressa, digital e eletrônica, resultantes das atividades acadêmicas de ensino, pesquisa e extensão no âmbito da UFU, aprovadas por seu Conselho Editorial.
Art. 3º - A EDUFU tem competência sobre o mérito dos projetos de publicação de natureza científica, artística e cultural, respondendo pela execução e gestão do processo editorial, tendo em vista a edição e coedição de obras provenientes das atividades de ensino, pesquisa e extensão.
Fonte: elaboração da autora, com base nos Regimentos Internos da Edufu dos anos de 2001, 2006 e 2011, publicados, respectivamente, nas Portarias R.884, R.973 e R.1423.
Assim, os fatos descritos a seguir foram retirados das atas de reuniões da Comissão Editorial e dos conselhos que a sucederam, em sua maioria, mas também dessas portarias, resoluções, ofícios e/ou relatórios que possam colaborar na compreensão do contexto e das ações. Quanto às atas, algumas são bastante detalhadas, enquanto outras são muito resumidas. Exemplo disso é o contraste entre as atas da
54 gestão 2003-2008, que incluem todas as ações relacionadas à publicação, vendas, divulgação, problemas enfrentados etc., enquanto as demais focam prioritariamente as questões editoriais. Por mais que os assuntos daquele período tenham sido resumidos, ainda assim o volume de informações é maior que de todas as outras gestões.
É importante ressaltar que todas as atas registram a entrada de obras para submissão, análise destas por meio de pareceristas, estabelecimento de coedições, chancela de periódicos etc. Essa rotina editorial, no entanto, não é relevante para este trabalho, o qual vai se ater, com prioridade, às questões relacionadas à constituição e consolidação da editora, dificuldades enfrentadas, definição de suas atribuições, entre outros. Apenas será feita menção de certas obras quando houver alguma característica ou fato especial relacionado a ela.
Para melhor entendimento das etapas de constituição e consolidação da Edufu, o texto a seguir acompanha, inicialmente, os livros de atas referentes aos períodos em que vigorou a nomeação da Comissão Editorial e dos conselhos editoriais, independentemente da gestão administrativa à frente da universidade e da existência formal da editora. A partir de 2003, no entanto, os períodos de gestão da Edufu coincidem com a gestão da reitoria, visto que a editora se encontra constituída como um órgão administrativo dentro do organograma da universidade e a cada nova gestão a sua diretoria é substituída. O Conselho Editorial, no entanto, permanece e seus membros são substituídos somente ao vencer dos mandatos ou por pedido de dispensa dos próprios conselheiros.
Uma última informação a ressaltar antes de iniciar-se a descrição da trajetória da Edufu é que a minúcia no relato dos problemas enfrentados (muitos dos quais recorrentes ou nunca resolvidos), registrados em atas, informes e correspondências, foi mantida propositalmente, para que eles se tornem conhecidos e, quem sabe, venham a repercutir de maneira a causar algum despertamento no sentido de sanar as necessidades e/ou precariedades desse órgão, que tem muito a contribuir com o desenvolvimento da ciência por meio do registro e divulgação das pesquisas acadêmicas.