O preconceito homossexual no Brasil ainda é um dos preconceitos publicamente assumidos, que muitas vezes no cotidiano, sua intolerância e jocosidade funcionam como uma demonstração de distanciamento do rótulo negativo que este agrega. E, diferente do
preconceito racial, a intolerância com os homossexuais é mais brutalmente sofrida no interior do grupo familiar, onde o discurso da intolerância agrega um valor educativo e moral.
Em Esperança, uma cidade com aproximadamente trinta mil habitantes, conforme os dados censitários do IBGE do ano de 2010, em que as pessoas se conhecem pelo nome e lhe classificam pelo sobrenome de sua família ou filiação, ter um comportamento ou afetividade que foge ao padrão heterossexual, dependendo da forma como você a expõe, pode acarretar conseqüências negativas.
Não me proponho a fazer uma análise sobre a sociabilidade homossexual em Esperança, apenas vou apontar, o quanto esta problemática funciona como um fator de
expulsão emigratória. Gostaria de apontar duas formas pelas quais a afetividade entre pessoas do mesmo sexo é vivida entre tantas outras:
(1) Os primeiros, aos quais poderiam ser pensados como bissexuais, vivem na margem, usando de estratégia, como o casamento heterossexual, aliado a relacionamentos sigilosos fora do casamento com pessoas do mesmo sexo, o que não evita que sua prática sexual chegue ao conhecimento local. No entanto, o casamento funciona como um meio de retificar moralmente e publicamente o papel de esposo ou esposa,
mantendo todos as interações sociais possíveis nos espaços públicos e no interior do grupo familiar, como qualquer outro casal.
(2) Diferentemente dos primeiros, estes tornam pública sua sexualidade. Inicialmente não por escolha individual, mas pela forma em que os fatos individuais tornam-se públicos na cidade, através de um forte meio de comunicação e controle social, a “fofoca”. Estes, não se utilizando da estratégia anterior (o casamento heterossexual), tornando- se mais expostos aos preconceitos e discriminações.
Durante minha adolescência, quando fui dando conta que as meninas pouco me atraiam sexualmente, comecei a refletir sobre a possibilidade de ter um relacionamento. No entanto, isto me distanciava do “padrão normal”, que era meninos namorar meninas. No meu cotidiano, conhecia parte dos homossexuais da cidade, alguns destes foram meus professores durante o ensino básico escolar. Eles, os homossexuais, assim como a maioria das pessoas solteiras da cidade, freqüentavam os mesmos lugares: a praça central e dois ou três bares que todos iam. No caso de Esperança, não há espaços ditos “gays” ou GLS. Os espaços de socialização são comuns a todos. E, isto me permitia observar a relação dos homossexuais com as demais pessoas da cidade. E, foram estas observações que me permitiram refletir sobre a condição de ser homossexual naquele contexto, no período da minha adolescência.
Alguns destes homossexuais, me referindo aos do sexo masculino particularmente, a partir da superficialidade de minha percepção (ou do que selecionou a memória), não
estabeleciam relações duradouras e tinham envolvimentos esporádicos com jovens da cidade, muitas vezes mediadas por algum tipo de troca, por vezes os benefícios envolviam pequenos valores, até mesmo o fato de pagar-lhes a bebida que costumavam consumir juntos. Quanto a estas relações, observava que a troca material ou financeira era uma das formas de estabelecer por parte dos jovens, um meio de marcar socialmente uma relação mediada por interesses e não por afetividade. Tenho lembranças de uma ocasião em que um professor homossexual foi vitima de um chute pelas costas de um rapaz. A cena foi deprimente, pois ele caiu
desconsertado no chão. O ato foi uma ação pública, onde o autor pretendia deixar notória sua repugnância pelo outro, o que o afastava de comentários que os envolviam. A relação era marcada por trocas, mas à medida que estas passavam a ser recorrentes, o jovem para não ser rotulado de homossexual, precisou marcar publicamente que não havia afetividade, deixando notório através do ato covarde, seu aparente desprezo. E, este chute, de algum modo, me atingiu.
A oportunidade que vislumbrava para viver minha sexualidade encontrava-se entre os dois universos, descritos a cima. Na atualidade, foi possível perceber que, outras formas de
envolvimento afetivo entre pessoas do mesmo sexo, na cidade, vêm assumindo outros direcionamentos, mesmo que as práticas as quais me referi, ainda sejam bastante comuns, ou mais se destacam. Tanto um possível casamento, envolvendo relacionamentos fora da relação (e toda uma obscuridade e dissimulação que o circunda), quanto os envolvimentos dos que não dissimulavam sua orientação sexual, mais se estabeleciam de forma fortuitos e
aparentavam destituídos de companheirismo; eram realidades a serem encaradas que me atormentavam.
Foi neste contexto, onde me tornava cada dia mais cativo, onde percebi que emigrar era a saída, o Rio de Janeiro era um universo de oportunidades e fuga às imposições sociais locais. Passei a apostar na saída, persegui-la, como alternativa, me questionando sobre suas múltiplas verdades e no que nesta existiria de ilusório. Convivi com experiências de tios, irmãos e de amigos, que falavam da dura realidade dos emigrantes, das oportunidades de trabalho e da angústia da ausência da família. Isto contribuiu para o meu entendimento do forte laço que agrega os emigrantes em Vila São Luís. Com isso, montava, de forma
caleidoscópica, a imagem da cidade grande, no que ela agregava as pessoas que retornavam, nas suas historias, no que informava os meios de comunicação. Contudo, também,
questionava minhas habilidades, para as possíveis atividades que poderia exercer.
Durante o meu segundo grau (atual ensino médio), através de uma seleção, tive a oportunidade de estudar em Campina Grande, numa escola técnica com uma estrutura educacional reconhecida. O que possibilitava que, ao fim do curso, muitos alunos
conseguissem trabalho. Fiquei apenas um ano, a infinidade de cálculos me afastou, à medida que, as aulas de geografia do professor João de Deus e a convivência com demais alunos da cidade de Esperança, no ônibus escolar público que transportava tanto os alunos secundaristas quanto os universitários, me permitiu vislumbrar a possibilidade de fazer um curso superior, dentro de uma temática que me afeiçoasse. Assim, sai da Escola Técnica Redentorista e resolvi fazer o ensino médio, não técnico, o que me possibilitava uma melhor qualificação para o processo seletivo (vestibular). E, em 1998, ingressei no curso de Ciências Sociais da Universidade Federal de Campina Grande na Paraíba.
A partir deste último momento, a expectativa de emigrar foi perdendo o sentido que tinha anteriormente. A minha inserção no curso de Ciências Sociais em Campina Grande, mediante as reflexões que o curso me possibilitava, fui cada vez mais me afastando das implicações existenciais da minha orientação sexual, para as implicações antropológicas.
Estas me faziam refletir sobre as diversas formas culturais e de organização política e social. Mas foi a atividade acadêmica, que me distanciou, provavelmente, da possibilidade de emigrar e, também, me aproximou da experiência emigratória.