O Estado que atualmente denomina-se Moçambique, por vários séculos (desde o IX), conheceu e estabeleceu relações comerciais com populações provenientes principalmente do Golfo Pérsico, o qual era um dos principais centros de comércio no índico no século X (HISTÓRIA..., 1998). O produto que era mais comercializado era o ouro por troca de tecidos asiáticos.
Antes de darmos detalhes da abertura para o mundo, procuramos falar um pouco da história dos povos que constituíam Moçambique. Esses povos eram denominados de
bantus, que resultaram de migrações de várias regiões do continente africano em busca de melhores condições de vida. Os mesmos, antes e durante o contacto com outras culturas, tinham como principal fonte de produção a agricultura de cereais, tendo como cultura dominante a mapira e mexoeira. Em algumas regiões do Sul do rio Zambeze essas actividades eram acompanhadas pela criação do gado bovino. No norte assim como no sul do rio, a recolecção constituía um contributo indispensável para a soberania alimentar. A caça e a pesca, actividades geralmente encarregues aos homens, desempenhavam um papel importante na obtenção de proteínas de origem animal (HISTÓRIA..., 1998). Os excedentes agrícolas, quando existiam, e as produções artesanais, ou o marfim, as peles e minério eram trocados entre as diferentes unidades de produção, quer a nível local, quer em mercados distantes.
Em nível das relações de produção a agricultura determinava relações de produção permanentes, embora se realizasse também a caça e a pesca. Na comunidade aldeã, as unidades de produção constituíam-se em torno de um grupo de parentes consanguíneos, definidos por via paterna a Sul do Zambeze e por via materna a Norte. Quanto à organização social e política, nas linhagens de famílias alargadas cristalizavam-se as formas políticas de relações de produção. A frente da linhagem ou da família alargada estava um chefe (Mwene, Humu, Asyene, Mbumba, etc) com
poderes políticos, jurídicos, religiosos e um conselho de anciãos (idem). Em algumas regiões o poder passava do irmão mais velho para o irmão que segue, noutras do pai para o filho e em outras ainda, a norte do rio Zambeze, do tio materno para o sobrinho. A terra era de uso comum e não propriedade privada. Essas comunidades acreditavam nos antepassados e era para eles que eram direccionadas as orações de pedido de chuva, saúde, protecção para a caça e para viagens.
Entre o século IX e XIII encontram-se evidências de uma progressiva e lenta fixação de populações provenientes do golfo pérsico (idem) como indicamos no início. Essas populações começam por se fixar em toda a costa oriental e particularmente nas Ilhas Zanzibar e de Pemba. Porém, no século XVI uma nova presença começa a se intensificar, era dos mercantilistas portugueses. Foi o ouro que chamou atenção dos portugueses ao ponto de conhecerem Moçambique. O ouro permitia-lhes comprar especiarias asiáticas com as quais a burguesia portuguesa penetrava no mercado europeu. Moçambique passou a constituir uma espécie de reserva de meios de pagamento das especiarias e essa foi à razão por que os portugueses se fixaram no país, primeiro como mercadores e só mais tarde como colonizadores efectivos (HISTÓRIA...,
1998; CASTRO, 1981). Como mostra a História de Moçambique (1998, p.79): “[a]
fixação fez-se, inicialmente, no litoral, particularmente em Sofala (1505) e na Ilha de
Moçambique (1507)”.
Portugal entra em cena enquanto já existiam os Swahili-Árabes controlando o ouro e marfim provenientes do império dos Mwenemutapa. Até 1530, os mercadores portugueses tentaram lutar sem êxito não só contra o bloqueio que lhes foi movido pelos Swahili-Árabes, como também contra o bloqueio de certas dinastias locais. Nisso, os portugueses desistiram de buscar o controlo das zonas de escoamento e foram ao encontro dos lugares de produção até que conseguiram estabelecer boas relações com os povos originário, denominados de bantus, resultando na redução das relações com os Swahiil-Árabes (HISTÓRIA..., 1998).
Portugal consegue expandir a sua supremacia diante dos reinos locais, em particular o império dos Mwenemutapa e a partir de 1629 a dependência cristalizou-se na forma de um tratado que garantia a livre circulação dos mesmos em todos os territórios e ao invés de serem os portugueses a consultarem os povos locais, eram os locais a consultar sobre o que deviam e não deviam fazer. Em compensação, as chefias
locais recebiam tecidos e missangas que passavam a representar símbolos de poder. É também necessário destacar que nessa época a igreja encontrava-se também inserida alienando psiquicamente, culturalmente e simbolicamente (Cf. FANON, 1997; MBEMBE, 2001) os povos locais (HISTÓRIA..., 1998).
Nessa época, os povos originários passaram a ser forçados a produzirem mais para a venda do que para a própria subsistência. Contudo, “o capital mercantil, apesar dos aluimentos e apesar da fuga das comunidades, submetia cada vez mais a produção ao valor de troca, numa sociedade onde, antes, predominara a produção de valores de
uso” (HISTÓRIA..., 1998, p. 83). A obra da história moçambicana prossegue destacando: “Essa actividade produtiva nas minas e nos cursos fluviais, a qual, antes da
penetração portuguesa se fazia nas épocas mortas, fora do plantio e das colheitas agrícolas, passou a efectuar-se, também, nos períodos produtivos agrícolas” (HISTÓRIA..., 1998, p. 83). Tudo isso, foi possibilitando a erosão na relação entre o campesinato e as classes dominantes locais assim como entre estas pela busca dos privilégios do poder fornecidos pelo colonizador. Dessa forma, pode-se ver o quão a entrada do capital mercantil português, para melhor reinar e defender os seus interesses foi corroendo o tecido social local. É preciso referir que o divisionismo e o favorecismo que os portugueses foram criando, nem sempre teve êxito. Este conheceu várias formas de resistência. Em 1693, por exemplo, podemos falar do levante armado de Changamira Dombo, que governava o Oeste de Manica região centro do país, contra os portugueses, tendo resultado na expulsão dos destes do planalto do Zimbabwe.