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1.THE STATIC TASK

3. CONCLUSION AND PERSPECTIVES

O método de instrução ao sósia foi criado por Ivar Oddone numa fábrica da Fiat em Turin nas décadas de 1960 e 1970, a partir da demanda dos trabalhadores no sentido de melhor enfrentar os efeitos nocivos do trabalho para a saúde, em meio ao momento histórico vivido pelo movimento sindical italiano que, por sua vez, deu origem ao Modelo Operário Italiano (MOI), que validava a experiência e a subjetividade operária em detrimento da visão dos experts nos locais de trabalho, sendo os responsáveis pela formação dos grupos homogêneos. Os grupos homogêneos representavam a validação do coletivo do trabalho, a

base da formação sindical e da consciência de classe. Nele, os trabalhadores discutiam suas dificuldades, contextos, compartilhavam experiências e validavam coletivamente todo conhecimento produzido (MUNIZ et al, 2013).

O método da instrução ao sósia era usado para confrontar o trabalhador com seus próprios planos, possibilitando críticas e melhorias no seu processo de trabalho. A instrução versava sobre como o sósia devia se comportar em relação às tarefas, aos colegas de trabalho, à hierarquia e à organização sindical. À medida que o sósia questionava o instrutor acerca das minúcias do trabalho, tinha início um processo de debate e de escolhas sobre formas de fazer o trabalho, visto em sua complexidade, abria-se espaço para a criação de pequenas comunidades científicas capazes de criar estratégias de transformação em prol da afirmação da saúde, inaugurando o lugar dos trabalhadores na produção de conhecimentos sobre o seu trabalho (MUNIZ et al, 2013).

A instrução ao sósia foi apropriada por Clot (2007, 2010a), que a utiliza não mais com o foco na construção da consciência de classe, mas salvaguarda seu uso enquanto dispositivo que mobiliza a função psicológica do coletivo e a valorização da experiência do trabalhador, representando uma formação informal do trabalhador aos seus pares, capaz de possibilitar a organização, validação e transmissão da experiência nos níveis individuais e coletivos. Diferentemente da proposta de Oddone (MUNIZ et al, 2013), na Clínica da Atividade a transformação ocorre no âmbito da ação dialógica, reflexiva e gestual, e seus efeitos não estão necessariamente atrelados aos movimentos sociais e às transformações na estrutura de poder, mas no desenvolvimento do poder de agir sobre o trabalho, tanto em nível individual quanto coletivo, a partir da noção de desenvolvimento psicológico de Vygotski e das trocas dialógicas de Bakhtin (BRANDÃO, 2012).

Para Roger (2013, p. 114):

A instrução ao sósia é um “meio desviado”, um “contato social” artificial consigo mesmo. Pede-se ao indivíduo, na presença dos outros membros do grupo de trabalho, que dê a um interlocutor – o clínico é quem faz o sósia – as instruções mais precisas para que este possa substituí-lo no trabalho, sem que essa substituição seja perceptível aos outros. As solicitações de precisão do sósia visam conduzir o indivíduo a se explicar com mais clareza e explicitar os detalhes de suas ações. O trabalho prossegue com uma transcrição do diálogo pelo próprio indivíduo, acompanhada de seus comentários antes de ser restituída ao grupo de trabalho. Assim, a solicitação feita a cada docente entrevistada foi que ela se imaginasse substituída plenamente em sua atividade por outro e, descrevesse quais instruções ela transmitiria para que ninguém percebesse que havia sido a substituição (CLOT, 2007, 2010a).

O sósia deve ser o pesquisador que, de preferência, não conhecesse a atividade a fundo, configurando-se como um ingênuo e não um expert. Na instrução ao sósia, o trabalhador deve de fato assumir a posição de instrutor, para clarificar esse posicionamento, é interessante que suas falas sejam realizadas na segunda ou terceira pessoa do singular, criando um contexto onde o sósia-pesquisador se situe ocupando o seu lugar. Nessa troca dialógica, o instrutor deve se referir à sua atividade usando o “tu” ou “você”, e não o pronome “eu”.

O processo deve ocorrer junto aos grupos de pares de profissionais, que inicialmente escutam a instrução em silêncio e depois podem revezar com o pesquisador clínico o lugar de sósia. Nessa tese, todo o processo foi gravado em áudio, apresentado à docente por ocasião da entrevista de autoconfrontação simples e disponibilizado aos pares no momento da autoconfrontação cruzada. Por conta do formato da pesquisa e da intensificação do trabalho docente, as transcrições foram feitas pela própria pesquisadora e não pelos instrutores, conforme prevê o método em sua concepção. No entanto, foi disponibilizado para todas as participantes um pen drive com todos os áudios e transcrições feitas.

O método de instrução ao sósia busca favorecer a transmissão da experiência profissional e é uma forma de coanálise do trabalho, uma psicologia praticada pelos trabalhadores. Esse procedimento não é capaz de recolher o comportamento total ou a competência implícita do trabalhador, mas a representação que ele faz de seu comportamento, colocando o trabalhador como centro do processo de investigação. O lugar do pesquisador também é revisitado:

Não se trata de uma relação clássica, do tipo ‘eu vi’, ‘eu estudei’, ‘eu descobri’. Trata-se de uma relação diferente. Trata-se de um sistema em que os dois sujeitos (investigador e trabalhadores) se beneficiam e se transformam progressivamente. O centro de gravidade da investigação psicológica desloca-se. Passa do diagnóstico à invenção de um quadro e de um dispositivo onde os implicados podem pensar coletivamente o trabalho para o reorganizar (VASCONCELOS; LACOMBLEZ, 2005, p. 41).

Assim, o sósia não serve apenas como um receptor das instruções, ele funciona como um questionador das escolhas feitas, investigando o como e não os porquês das ações. Ao finalizar o processo de instrução, que costuma levar em torno de uma hora, o pesquisador lança mão de uma estratégia clínica e pergunta ao trabalhador o que o exercício provocou/causou nele, possibilitando uma reflexão sobre os efeitos da experiência para o sujeito. Depois da entrevista ser transcrita e trazida à presença dos pares, é possível conferir também as motivações, os porquês das escolhas feitas e manejar a injunção entre atividade e subjetividade.

Devido as nuances próprias à pesquisa e o respeito a soberania do campo em seu ritmo e demandas, as instruções ao sósia não seguiram seu formato prescrito, conforme preconiza a Clínica da Atividade. A pergunta disparadora foi efetuada, contudo, seja por inabilidade minha na condução do método, seja por dificuldade das participantes em usarem a segunda pessoa do singular no processo de instrução, mobilizando um sair de si e assumindo uma posição de observadora da própria atividade, o dispositivo funcionou, cumprindo seu papel de recurso de mediação na construção de dados e somente de forma sutil, pode provocar um efeito interventivo.

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