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Le RDA : un acquis majeur pour la vie professionnelle

III. 2Mon expérience : découvertes, limites et acquis

III.2.4. Le RDA : un acquis majeur pour la vie professionnelle

No capítulo “O direito a vida e morte” Rousseau (1987) defende que no pacto social

firmado pelos indivíduos que deu origem ao Estado “quem desejar conservar a sua vida também deve dá-la quando necessária” (p.51). Nesse caso o atentado contra o corpo social seria igualmente um atentado contra o Estado. Ora, se é o Estado o responsável por garantir a liberdade natural dos indivíduos que formam o corpo social ou a sociedade civil, então aquele

que coloca a vida de qualquer contratante em risco torna-se inimigo do Estado e tem igualmente o direito a morte:

A conservação do Estado é então incompatível com a sua, sendo preciso que um dos dois pereça, e, quando se faz que um culpado morra, é menos como cidadão do que como inimigo. Os processos de julgamento são as provas e a declaração de ter ele rompido com o trato social, não sendo mais, consequentemente, membro do Estado. Ora, como ele se reconhecera tal ao menos por sua residência, de ser isolado por exílio, como infrator do pacto, ou pela morte, como inimigo público. Por que, não sendo tal inimigo uma pessoa moral, mas um homem, então o direito da guerra é o de matar o vencido (Rousseau, 1987, p.52).

Neste caso o “atentado” contra o Estado, seria um suicídio. No caso do bairro Liberdade, visto sob a ótica Rousseauriana, o jovem negro no barbarismo neoliberal deve está “morto” para o Estado (social) enquanto cidadão de direito, passando a existir apenas como infrator para o Estado (punitivo). Contudo, o mesmo não deverá ser literalmente “esmagado” pelo Estado burguês, mas pelo “exílio” social que este lhe confere ao empurrá-lo para os campos de batalha da “guerra interna”. O Estado apenas decreta e pena de morte, a “guerra interna” aplica a sentença.

Em todo o caso a idéia de “estado permanente de guerra” na periferia provocado pelo excesso “de drogas e armas” e não pela falta de políticas públicas reforça a idéia de que há uma perversão estrutural em quem mora nessas localidades. Tal como Hobbes previa, para aplainar ou controlar essa tendência natural do homem a praticar a violência seria necessário à intervenção do Estado, “de um Estado duríssimo”, cujos governantes, segundo Maquiavel, “é muito mais seguro ser temido do que amados”. (GRUPPI, 1980, p.10).

No geral o que toca a todos, é o controle social dos pobres, sobre a falaciosa retórica de defesa do “bem comum”, para garantir a propriedade privada das classes dirigentes. Toda essa complexa relação, que envolve atores de diversas esferas de poder, deságua num processo educativo de fazer com que a própria comunidade assuma para si a responsabilidades pelo fracasso social do capitalismo, à medida que se ver como politicamente impotente e incapaz de conciliar consigo mesmo.

Acreditamos que isso acontece na atualidade por que as formas de inculcar a ideologia burguesa nas classes dominadas através métodos tradicionais (escola, parlamento) estão seriamente em crise precisando ser acrescidos por outros instrumentos que, no caso analisado, possa levar a comunidade a projetar no próprio universo simbólico de suas relações sociais cotidianas a sua auto-imagem negativa.

Já dizia Marx (1992) que os trabalhadores sem escolas são educados por seu estado de miséria e de pobreza. Mais do que “as confusas idéias religiosas” o mundo prático dos trabalhadores pode lançá-los em fúria contras as ideologias e os privilégios da burguesia. Analisando a situação da classe trabalhadora da Inglaterra Marx afirma que:

Por sorte, as condições em que vive esta lhe asseguram uma formação prática que não só substitui todo o trabalho escolar, mas que também neutraliza o efeito pernicioso das confusas idéias religiosas em que se move o ensino - e isto é o que coloca os operários na cabeça do movimento em toda a Inglaterra. A miséria não só ensina o homem a rezar: também ensina a pensar e a atuar. (...) Inclusive se não sabe escrever sabe falar e falar em público. Não sabe contar, mas sabe o suficiente para fazer , com noções de economia política, os cálculos que são necessários para rejeitar o burguês que que abolir a lei sobre os seus salários a fim de rebaixa-los (p.80)

Lopes (1980) explica que ao longo da história diversos acontecimentos políticos tiveram um impacto educativo formidável na consciência das massas trabalhadora. A partir da afirmação de Saviani de que “A educação é sempre um ato político” acrescenta a autora que “toda a ação política é educativa”. Não se trata de confundir política com educação, mas de captar a política como um ato educativo. E diz mais, há no processo histórico uma educação revolucionária do povo e o seu grande educador é o governo.

Deste modo, cada ataque do Estado contra os trabalhadores, ou a ausência de sua de sua face social, pode se reverter em um ato educativo, por que ensina as massas a desacreditarem ou desiludirem-se com os seus governos. Foi assim nos antecedentes da queda do império Romano, da revolução francesa, da revolução Russa, da inconfidência mineira, na Balaiada, etc.

Essas questões devem ser consideradas em nosso estudo tendo em vista a fragilidade do sistema de ensino do estado do Maranhão e acentuado “déficit de legitimidade” das elites políticas que aplicaram o receituário neoliberal em todo o mundo na década de 1990, conforme já vimos com Wacquant.

Em vista disto é mister lembrar que a indisfarçável constatação do desemprego estrutural aos olhos dos setores despossuídos da classe trabalhadora criaram uma ameaça para o capitalismo e uma preocupação a mais para os ideólogos do capital. As recentes insurreições populares na América Latina e na França mostraram a força política que pode representar esses grupos. Ainda que possam está deslocado do real processo de criação de valores

(...) sua condição de despossuídos o coloca como, potencialmente, um pólo social capaz de assumir ações mais ousadas, uma vez que estes segmentos sociais “não tem mais nada a perder” no universo da (des) sociabilidade contemporânea. Sua

subjetividade poderia estar, portanto, mais propensa às rebeldias. (ANTUNES, 2003, p. 220)

Portanto, “se estamos diante dos limites absolutos e insuperável do capital em si” (Mezáros, p.98, 2007), e se estes trabalhadores, especialmente aqueles que se encontram no “final da fila” do exercito industrial de reserva, “não tem mais nada a perder”, não resta alternativa ao capital a não ser destruir este “inimigo” de classe por dentro, antes de ser por ele destruído.

Neste emaranhado de processos educativos convergentes, o braço menos eficiente do Estado para resolver problemas sócio-estruturais destas comunidades é justamente o mais requerido. Para Marx (1982 p. 14) “as necessidades do consumo determinam a produção” e sendo a polícia um dos poucos “produtos” que o Estado tem a oferecer para a periferia na atual conjuntura, a “guerra interna” aparece como ventre gerador e legitimador dessa “necessidade”.

Nessa “pedagogia dos opressores”, a “guerra interna” da periferia aparece como decorrente da natureza humana de seus “guerreiros”, cabendo ao Estado, força externa e acima da “guerra”, intervir no seu controle. Assim, o clima de tensão permanente entre os seus moradores favorece o estabelecimento do “pacto social” da periferia com as classes dominantes via legitimação do seu Estado punitivo. Esse consenso, às vezes tênue, se constrói nestes termos e vem embutido na repressão.

Dito isto, a partir de agora iremos analisar como que a Posse Liberdade Sem Fronteira, considerada como núcleo molecular pedagógico do Movimento Hip Hop Quilombo Urbano, atua como força contra-hegemônica ao barbarismo neoliberal da “guerra interna” e as estratégias ramificadas do imperialismo cultural no bairro da Liberdade.

5 A POSSE DA LIBERDADE: a ruptura cultural para a reagregação política em torno do hip hop

Textos textos e mais textos escritos/ Livros lidos relidos e devolvidos/ distribuídos, adiante, avante discípulos/ não era uma pedra mais estilhaçava vidros/ despertou o menino (O incendiário, G.O.G)

Desde o seu surgimento em 1989, o Movimento Hip Hop “Quilombo Urbano” sempre estabeleceu algum tipo de relação política e cultural com a juventude do bairro Liberdade, seja nas atividades realizadas no período de 1989 até 2000 nas “Sexta Hip Hop” na Praça Deodoro, no centro da cidade de São Luís ou em uma das etapas do projeto “Ruas Alternativas” desenvolvido com os membros da galera Detonadores de Rua (D.R.), pertencente a esse bairro em 1993.

Figura 2- Cartaz divulga o lançamento do Projeto “Ruas Alternativas”.

A Liberdade foi o primeiro bairro contemplado por esse projeto.

Mas, efetivamente, o Quilombo Urbano passa a atuar de forma mais sistematizada nesta comunidade a partir da fundação da posse “Liberdade Sem Fronteiras” por volta de 2000. 63 Este momento coincide com o acirramento do processo de “Guerra Interna”, talvez um dos seus momentos mais tenso e intenso.

O nome “Liberdade Sem Fronteira” traz justamente a preocupação e necessidade de transcender as “fronteiras” reais e imaginárias criadas nos interstícios desses conflitos. A coordenação desta posse é formada por cinco militantes do Quilombo Urbano, mas em suas atividades está sempre presente o corpo de militantes desta organização.

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