O percurso metodológico desta investigação foi pautado nas orientações da perspectiva da pesquisa do tipo qualitativa. Para Chizzotti (2006, p. 79), a perspectiva qualitativa “[...] parte do fundamento de que há uma relação dinâmica entre o mundo real e o sujeito, uma interdependência viva entre o sujeito e o objeto, um vínculo indissociável entre o mundo objetivo e a subjetividade do sujeito [...]”. Por
isso, esse autor afirma que “[...] o conhecimento não se reduz a um rol de dados isolados, conectados por uma teoria explicativa; o sujeito-observador é parte integrante do processo de conhecimento e interpreta os fenômenos, atribuindo-lhes um significado” (p. 79). Nessa direção, “[...] o objeto não é um dado inerte e neutro; está possuído de significados e relações que sujeitos concretos criam em suas relações” (p. 79), aponta esse autor.
Levando em consideração os preceitos da perspectiva qualitativa de pesquisa assinalados por Chizzotti (2006) e assumindo o caráter histórico e cultural do objeto de estudo (práticas de alfabetização), optamos pelo estudo de caso para orientar o desenho metodológico desta investigação.
Segundo Sarmento (2003, p. 138), em consonância com Yin (2001, p. 13), o estudo de caso pode ser definido como “[...] uma investigação empírica que investiga um fenômeno contemporâneo dentro do seu contexto real de vida, especialmente quando as fronteiras entre o fenômeno e o contexto não são absolutamente evidentes”. Consideramos interessante esse desenho metodológico por nos permitir desenvolver, conforme apontam Lüdke e André (1986, p. 18), uma investigação em uma situação real, observando dados descritivos em um plano aberto e flexível focalizando “[...] a realidade de forma complexa e contextualizada” (p.18).
Um outro ponto importante no processo de escolha do estudo de caso para delinear esta pesquisa foi o fato de que esse método dispõe de tipos de coleta de dados que foram necessários ao processo. São eles: a observação, a entrevista e a análise
documental conforme postulam Lüdke e André (1986). Por meio desses
instrumentos e assumindo efetivamente a nossa função de pesquisador, neste processo, desejávamos, como aconselhou Sarmento (2003, p. 155), “[...] observar, escutar e sentir [...], interrogar e recolher opiniões dos que agem [...]” no contexto da pesquisa, bem como “[...] examinar os documentos e artefatos produzidos pela e na ação [...]” (SARMENTO, 2003, p. 155) de todos sujeitos pertencentes à comunidade escolar, local da pesquisa.
Cabe aqui, portanto, dizer como concebemos a prática desses três tipos de coleta de dados. De fato, assumimos as colocações de Freitas (2002, 2003),
principalmente, quando essa autora pensa a forma e o papel dos instrumentos observação e entrevistas, buscando coerência com a perspectiva bakhtiniana de produção de conhecimento.
Para a autora, a observação não deve ser concebida apenas como um processo participante do pesquisador com o lócus da pesquisa. Freitas (2003) assinala que, ao observar, o pesquisador necessita focalizar, pensar e assumir o caráter mais dialético do que observa, “[...] buscando uma mediação entre o individual e o social” (FREITAS, 2003, p. 31). Isso diferenciaria, de acordo com essa autora, a observação, numa pesquisa histórico-cultural, da observação etnográfica de pesquisa. Sobre isso, Freitas (2003, p. 31, grifo da autora) se expressa do seguinte modo: “[...] Na observação etnográfica interpretativista está presente a autoridade do pesquisador que representa os sujeitos, enquanto na nova perspectiva o pesquisador está com os sujeitos produzindo sentidos dos eventos observados”. Ainda a respeito dessa questão, essa pesquisadora informa:
De fato, o que se busca com esta observação não é realizar uma análise, entendida em seu sentido etimológico (ana =semelhança e lise = quebra,
fragmentação), mas uma compreensão marcada pela perspectiva da
totalidade construída no encontro de diferentes enunciados produzidos entre pesquisador e pesquisa (FREITAS, 2003, p. 31, grifo nosso).
Para Freitas (2003, p, 32), mais do que participante, a observação, portanto, é “[...] caracterizada pela dimensão alteritária [...] [em que] o pesquisador ao participar do evento observado constitui-se parte dele, mas ao mesmo tempo mantém uma posição exotópica que lhe possibilita o encontro com o outro”. Segundo essa autora, é esse o encontro que o pesquisador deve procurar descrever em seu texto, no qual revela outros textos e contextos. Nessa direção, Freitas (2003, p. 32) concebe “[...] a situação de campo como uma esfera social de circulação de discursos e os textos que dela emergem como um lugar específico de produção do conhecimento que se estrutura em torno do eixo da alteridade”. Por essa razão, é que as observações não podem se prender na mera descrição dos eventos, mas procurar as suas possíveis relações, integrando o individual e o social, porque
A observação, numa perspectiva de abordagem sócio-histórica, se constitui pois em um encontro de muitas vozes: ao se observar um evento depara-se com diferentes discursos verbais, gestuais e expressivos. São discursos
que refletem e refratam a realidade da qual fazem parte construindo uma verdadeira tessitura da vida social (FREITAS, 2003, p. 33).
Sobre a entrevista, no âmbito da pesquisa qualitativa de cunho histórico-cultural, Freitas (2003, p. 34) afirma que esta “[...] tem a particularidade de ser compreendida como uma produção de linguagem”. Para essa autora, a entrevista que acontece entre duas ou mais pessoas precisa ser assumida como um acontecimento, uma situação de interação verbal, tem como objetivo a mútua compreensão e “[...] Não uma compreensão passiva baseada no reconhecimento de um sinal, mas uma compreensão ativa” (FREITAS, 2003, 34) dos enunciados dos outros. Segundo essa pesquisadora, compreender ativamente o enunciado do outro significaria orientar-se para o outro. Tal discussão nos remete a Bakhtin ao falar sobre o excedente de visão que se tem em relação ao outro:
Devo identificar-me com o outro e ver o mundo através de seu sistema de valores, tal como ele é, devo colocar-me em seu lugar, e depois, de volta ao meu lar, contemplar seu horizonte com tudo o que se descobre do lugar que ocupo fora dele; devo emoldurá-lo, criar-lhe um ambiente em que o acabe, mediante o excedente de minha visão, de meu saber, de meu desejo e de meu sentimento (BAKHTIN, 2003, p. 45).
Para Freitas (2003, p. 35),
[...] essa volta do pesquisador ao seu lugar é indispensável ao pesquisador, pois se ela não acontecer, este se detém apenas no aspecto da identificação. Ao voltar ao seu lugar é que o entrevistador tem condições de dar forma e acabamento ao que ouviu e completá-lo com o que é transcendente à sua consciência.
Por essa razão, é que essa autora afirma:
Todos esses valores que completam a imagem do outro são extraídos de sua visão. Deste lugar fora do outro, portanto exotópico, é que o entrevistador pode ir construindo suas réplicas que quanto mais numerosas forem indicam uma compreensão mais real e profunda (FREITAS, 2003, p. 36).
Nesses termos apontados pela autora, justificaria denominar a entrevista de dialógica, pois
[...] ela estabelece uma relação de sentido entre os enunciados na comunicação verbal. Essa relação dialógica é marcada não por uma ordem lógica ou lingüística, mas é uma relação específica de sentido cujos elementos constitutivos só podem ser enunciados completos por trás dos quais está um sujeito real (FREITAS, 2003, p. 36).
Nessa perspectiva, a entrevista se constitui, conforme Freitas (2003, p. 36, grifo da autora), “[...] como uma relação entre sujeitos, na qual se pesquisa com os sujeitos e suas expectativas sociais e culturais, compartilhadas com as outras pessoas de seu ambiente”. No entanto, “[...] os sentidos que são criados nessa interlocução dependem da situação experienciada, dos horizontes espaciais ocupados pelo pesquisador e pelo entrevistado”.
Consideramos importantes essas colocações porque, para a perspectiva bakhtiniana, com relação à produção de conhecimento, “[...] cada pessoa tem um determinado horizonte social orientador de sua compreensão, que lhe permite uma leitura dos acontecimentos e do grupo impregnada pelo lugar de onde fala” (FREITAS, 2003, p. 37).
No que se refere à coleta de dados por documentos, compreendemos que, em uma concepção histórico-cultural, a produção de conhecimento se torna possível, quando consideramos o texto como um dado primário, ponto de partida a ser compreendido no contexto das relações dialógicas, porque por “[...] toda parte há o texto real ou eventual e a sua compreensão. A investigação se torna interrogação e resposta, isto é, diálogo” (BAKHTIN, 2003, p. 319).
Mediante essas colocações, entendemos que investigar um documento ou um conjunto deles é também procurar compreender os discursos que perpassam o objeto de estudo pesquisado. Tais discursos não são neutros ou indiferentes ao contexto de produção, pois expressam concepções que o fundamentam, marcam posições sobre a forma de concebê-los. Por essa razão, não podemos considerá-los como uma coisa e, portanto, portadora de verdades absolutas e indubitáveis, uma vez que “[...] não são palavras o que pronunciamos ou escutamos, mas verdades ou mentiras, coisas boas ou más, importantes ou triviais, agradáveis ou desagradáveis, etc.” (BAKHTIN, 2006, p. 99).
3.2 O PROCESSO DE PESQUISA: INSERÇÃO EM CAMPO E PROCEDIMENTOS