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O Príncipe Real D. Luís Filipe vai e está em África, em 1907. Com ele estão elementos da mais alta estirpe nobiliárquica da Europa. Foram antes, depois ou estão lá, simultâneamente com D. Luís Filipe.

E é assim que o Príncipe Alberto, filho do Rei Leopoldo II da Bélgica, visita o Congo; que o Duque de Kent, visita África, vindo de Londres, sempre zelosa dos seus interesses; que o Príncipe Henrique da Prússia está na África Oriental e se cruza, em simultâneo, com D. Luís Filipe, Príncipe Real de Portugal, sondando eventualmente formas de afirmação da Weltpolitik107 alemã, vivendo um período de Neue Kurs - Novo Rumo -, como dito no Capítulo anterior; que um outro alemão, o Duque Adolf Friedrich de Mecklemburg, recebe o subsídio de 60.000 marcos para a sua expedição científica à África Oriental (Anónimo, 1908a).

A referida alta nobreza, enquanto símbolo de poder, afirma e representa em África os seus diferentes Impérios. E D. Luís Filipe – um Bragança – está lá entre os seus Pares. E já no pós- Príncipe Real, em 1909, ainda num possível contexto de ganhar visibilidade, a Duquesa d’ Aosta, Helena de Orleães, irmã da Rainha D. Amélia, a convite da Companhia de Moçambique, participa numa caçada, no Buzi, armada de invulgar espingarda com mira telescópica, a que a imprensa da época dá voz em texto e em imagem (Miranda, 1910).

Importará agora, cremos, em termos de contextualização da época e do lugar, relativamente ao nosso Estudo de Caso, fazer uma abordagem à figura do Príncipe Real D. Luís Filipe e, num segundo tempo, ou seja, na alínea seguinte, fazer uma abordagem à Viagem Imperial do Príncipe Real, tão indissoluvelmente ligada ao Museu Colonial de 1907, em Luanda, que abordaremos, depois, em Capítulo seguinte.

Continuamos, assim, o presente trabalho.

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Weltpolitik, ou política mundial, foi a política externa adoptada pelo Kaiser Guilherme II da Alemanha, a partir de 1890, que marcou uma ruptura decisiva com a Realpolitik do ex-chanceler Otto von Bismarck. O objetivo da Weltpolitik era transformar a Alemanha numa potência mundial através da diplomacia agressiva, da aquisição de colónias ultramarinas, do apetrechamento de uma forte Marinha de Guerra e de uma grande Marinha Mercante.

Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias - FCSEA - Instituto de Educação 150 1 - Quem foi o Príncipe Real D. Luís Filipe?

Foi o filho primogénito do Rei D. Carlos I e da Rainha D. Amélia de Orléans e Bragança, filha dos Condes de Paris, pretendentes ao trono de França. Nasceu a 21 de Março de 1887108 e pereceu com seu pai, a quem sobreviveu breves momentos no atentado regicida de 1 de Fevereiro de 1908. Diz a Grande Enclipodédia Luso-Brasileira de Cultura, Vol. XII, que o Príncipe foi jurado Príncipe Herdeiro em 1901 e que entrou para o Conselho de Estado, a 13 de Abril de 1906. Ficou Regente do Reino durante a viagem de seus pais a Espanha, de 11 a 16 de Março de 1906. Foi acompanhado pelo Ministro de Marinha e Ultramar, Ayres de Ornelas, de 1 de Julho de 1907 a 28 de Setembro de 1907 em visita a S. Tomé, Angola, Moçambique, África do Sul e Cabo Verde. Foi alistado como Guarda-Marinha, em 1904.

Era Sax-Coburg Gotha por parte do seu bisavô o Rei D. Fernando II que, entre vários aspectos, marcou muito positivamente o panorama artístico do País109. Por via deste bisavô o Príncipe era aparentado com as realezas da Alemanha e do Reino Unido - o que não impediu o Ultimato, em 1890. Era, por sua avó paterna, sobrinho do Rei Humberto de Itália, assassinado em 1900, e bisneto de Victor Emanuel II de Itália. Descendia por sua mãe, do seu homónimo, Rei D. Luís Filipe I de França.

Sabemos, por importante acaso, que fez a primeira comunhão em 28 de Maio de 1889, na capela do Palácio de Queluz110 (Beirão, 1957). O cartão, ou seja a pagela comemorativa desta comunhão, é de papel pergaminhado, de 125 x 78 mm, exibindo no verso, motivos florísticos, um cálice, hóstia resplandecente e os seguintes dizeres, em letra desenhada: “Aquele que descansou hoje no meu coração será também quem me há-de fortificar e iluminar no caminho da vida” (ANEXO 11). No reverso, em letra finamente desenhada, o cartão diz: “Lembrança da 1ª comunhão do Príncipe Real D. Luís Filipe, 28 de Maio de 1899” (ANEXO 12). E este cartão chega-nos às mãos através de Luís Filipe Neves, e por intermédio de Cadima Ribeiro, baptizado na Capela do referido Palácio, em 1930, possivelmente por especial deferência do oficiante, dado a sua avó ser originária da pequena nobreza de Trás-os-Montes e seu avô ser Comandante dos

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Conforme registo de nascimento citado por Vicente & Vicente (1998, p. 11). Foi saudado com salvas a partir das praças de S. Julião da Barra e do Bom Sucesso.

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Entre outras actividades foi um conceituado gravador, tendo estado muitos dos seus trabalhos de àguas-fortes em Exposição Temporária no Palácio da Pena, em 1947 (Lucena, 1947).

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Embora em carta do Rei D. Carlos ao Ministro José Luciano de Castro, de 23 de Maio de 1899, seja indicado que esta 1ª Comunhão seria feita na Capela do Real Paço das Necessidades (Cabral, 1922, p. 218).

Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias - FCSEA - Instituto de Educação 151 Bombeiros de Queluz.

É-nos claro que um tão pequeno documento, assume aqui uma dimensão simbólica que importa realçar, pois trata-se da comunhão dum menino de 12 anos que, segundo o então instituído, viria a ser, perante a Santa Sé e o Mundo, Fidelíssimo111 Rei de Portugal – a quem caberia, entre outras funções, nomear e apresentar os Bispos. Atente-se que a primeira comunhão, nesta época, ocorria por norma, por volta dos 12 anos de idade, conforme Corbain (2008). Neste caso concreto, o ritual da comunhão - que seguiu o baptismo, celebrado a 14 de Abril de 1887, na Capela do Paço da Ajuda (Vicente & Vicente, p. 11) - do Príncipe Real era como que uma balização simbólica do caminho que o haveria de levar ao trono.

Em 1891 acompanha os pais na Viagem da Família Real ao Norte de Portugal.

Em sua homenagem, por Decreto de 21 de Março de 1892, data do aniversário do Príncipe Real D. Luís Filipe, o Regimento de Infantaria 18 passou a designar-se Regimento de Infantaria 18 do Príncipe Real.

O Príncipe Real foi nomeado Comandante Honorário do Batalhão de Alunos do Real Colégio Militar, a 21 de Março de 1893, dia em que completou 6 anos, sendo que é apresentado em uniforme do Real Colégio Militar (APÊNDICE 13).

Foi Vice-Comodoro do Real Club Naval de Lisboa.

A 1 de Maio de 1906, o Príncipe Real foi promovido ao posto de Tenente Honorário do Regimento de Cavalaria nº 2, também dito Lanceiros de El-Rei, conforme Branco (2003). Entre outras capacidades, o Príncipe Real era considerado bom atirador. Caçava em Portugal e caçou em Angola112.

Teve como aio ou perceptor, desde 1898113, Mouzinho de Albuquerque, que o acompanhou, em Outubro de 1901, em visita oficial ao Norte de Portugal. No manejo de armas - manejava bem a espada - foi discípulo de António Pinto Martins, também Mestre de Armas do Rei D. Carlos e do seu irmão, futuro Rei. Teve como perceptores o Visconde de Asseca e o austríaco Franz Kerausch - inclusive, seu professor de alemão.

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O Papa Bento XIV concede a D. João V e aos seus sucessores, a 23 de Dezembro de 1748, o título de Fidelíssimo, igualando-os em termos religiosos ao Rei de França, dito Cristianíssimo, e ao Rei de Espanha, dito Catolissíssimo. Este título é importante no que respeita ao Poder Brigantino face aos seus Pares, em tempo do Portugal Restaurado.

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Do imenso espólio trazido por Gomes de Sousa, de Luanda para Lisboa, conforme entrevista a Virgílio de Souza, de 19/03/2013, existe na sua colecção particular um dente de marfim com uma coroa insculpida, que poderá eventualmente remeter para algum abate feito pelo Príncipe Real ou para a homenagem de algum caçador, com maior probabilidade desta última.

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Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias - FCSEA - Instituto de Educação 152 Era membro da Ordem da Jarreteira e deslocou-se a Londres para assistir ao casamento de Eduardo VII. Era bom atirador e fazia fotografia, como teve oportunidade de mostrar bem, fotografando na Costa Oriental, aquando da sua Visita, os combatentes da Coluna dos Namarrais, entre os quais Gomes da Costa e Ayres de Ornelas. E também aqui, no que a fotografia poderá ser agora entendida como coisa simples, ela assume, então, em termos simbólicos a dimensão do nobilitante e do prestigiante. E é tanto assim, que Milza (1995) sente como pertinente destacar que o Sultão Mulu Abd depois de suceder a seu pai, em 1894, gostava de andar de bicicleta nos jardins do Palácio, de jogar bilhar e de fotografar.

O Príncipe Real D. Luís Filipe, para além de ter recebido ensinamentos de fotografia, falava “quatro ou cinco línguas”, como pontua Ortigão (2001). O Príncipe desenhava, como o faziam o seu pai e a sua mãe, sendo dele conhecido, no mínimo, um desenho da Torre de Belém – um emblema da Identidade Nacional – enviado a uma sua aia, conforme informação oral do bibliófilo Américo Francisco Marques e a que não podemos ter acesso por já ter sido vendido. No que respeita à música, sabemos que frequentava o Teatro de S. Carlos, em companhia de seus pais ou em sua substituição, como ocorreu em Abril de 1906, quando o maestro, organista e compositor Camile Saint-Saëns visitou e actuou em Lisboa, conforme texto de Cranmer (2002).

O Príncipe Real ficou para a posterioridade, sobretudo pela Viagem que fez a África, e também esta viagem tenciona ser mais do que o mero acto de visitar. Ela é, seguramente, uma iniciação do Príncipe ao Grande Mar, que o poeta viria a chamar “nosso” e “português”, onde, como veremos adiante, não faltou a vaga alta, exercícios de salvamento a bordo, homem ao mar e sua busca e salvamento, morte a bordo e lançamento de cadáver à água.

Foi jurado Príncipe Herdeiro, em Cortes, no dia 20 de Março de 1901, fazendo 14 anos no dia seguinte.

Como dito, foi o filho primogénito do Rei D. Carlos e, como tal, foi o 8º Príncipe da Beira, desde o nascimento do título, em 1807, até à morte do seu avô, Rei D. Luís I, em 1889.

Foi pretexto para que, em 1887, em sua honra e relativamente à recente outorga do seu título de Príncipe da Beira, fosse dado o nome de Beira ao recém-criado Posto, sob comando de Oficial, na margem esquerda do rio Aruângua, também dito Banqué ou Púngoe, em Moçambique. Foi instruendo de Mouzinho de Albuquerque, combatente em Moçambique; elemento do Estado-Maior da Arma de Cavalaria; Ajudante-de-Campo honorário e, depois, efectivo do Rei D. Carlos; militar bastante medalhado em Portugal e no estrangeiro, nomeadamente pela Prússia e

Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias - FCSEA - Instituto de Educação 153 pelo Reino Unido, com direito a tratamento de Sir.

Em plena Visita Imperial, ao tempo do Governador-Geral de Moçambique, General Alfredo Freire de Andrade, foi pretexto para a elevação do burgo da Beira ao estatuto de cidade, conforme Decreto de 29 de Junho publicado no Boletim Oficial do Governo Geral da Província de Moçambique (1907b, p. 341), que diz: “atendendo à excepcional importância da sua posição e manifesto valor de movimento do seu porto e do tráfego do caminho-de-ferro e em comemoração da visita de sua Alteza Real o Príncipe Real, a Beira é elevada à categoria de cidade”. Igualmente, foi pretexto, em 1907, para o lançamento da primeira pedra do Palácio da Cidade, em Lourenço Marques, a que assiste. Ainda, na costa oriental de África, lança a primeira pedra para os alicerces dos pilares da grande ponte que irá ser construída, junto ao rio Umbeluzi; lança a primeira pedra do Instituto Goano, em Lourenço Marques, no que foi muito aclamado pela colónia indiana e lança a primeira pedra do Monumento a António Eanes; lança a primeira pedra do edifício do tribunal e inaugura o edifício da Escola de Artes e Ofícios, na Beira; também inaugura a Associação Agrícola e Industrial, instituída para comemorar a Visita do Principe (J. P. S., 1907b). Já no retorno da Viagem, em Moçamedes, Angola, é pretexto para que esta então Vila passasse a ter estatuto de Cidade (J. P. S., 1907c).

Dum modo significativo, Santos (1907c) refere que esta Viagem do Príncipe foi antecedida da de um outro Príncipe, seu avô, como comandante de uma corveta. Interroga-se ainda se a segunda visita de um Príncipe às Colónias, não marcará também, por feliz coincidência, o ressurgir do génio colonizador português para a organização dum futuro e grande império colonial.

Diz ainda o autor que a Visita não teve, na então metrópole, um bom acolhimento por parte de todos, dado que os partidos monárquicos abstiveram-se de se fazer representar como protesto contra a conservação do actual governo no poder. Também a Sociedade de Geografia não se apresentou - embora tenha comparecido, a 13 de Outubro de 1907, no Festival Marítimo, em Cascais.

O Príncipe, seguindo o autor que vimos citando, ao regresso, na recepção, teve o quase silêncio, e dirigiu-se depois a Cascais, onde estavam os pais.

Ayres de Ornelas, quando era Lugar-Tenente do exilado Rei D. Manuel II, chamou-lhe, Príncipe Colonial (Ornelas, 1928). O Museu de Marinha dedica-lhe atenção em Exposição Permanente exibindo a sua mesa de trabalho, propositadamente executada para a Viagem do

Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias - FCSEA - Instituto de Educação 154 Príncipe a África, no vapor África.

O assassinado Príncipe Real D. Luís Filipe, a 1 de Fevereiro de 1908, teve solenes exéquias com o seu pai, a 8 de Fevereiro, que duraram mais de 6 horas e em que foi executado o Hino Monárquico e o Requiem de Wolfgang Amadeus Mozart. Os funerais saíram da capela do Palácio Real da Ajuda para o Convento de S. Vicente de Fora, emoldurados, como é bem visível nas 134 fotos dedicadas ao Príncipe, existentes no acervo do Arquivo Fotográfico Municipal, em Lisboa, pela presença de muito povo, crianças do Asilo da Ajuda, militares uniformizados, dignatários das embaixadas creditadas na capital, familiares dos falecidos e outros. O cavalo do Príncipe seguia no cortejo, ajaezado a preto, a todo o corpo, e sem cavaleiro, o que acentuava a dimensão da visibilidade do luto114.

No funeral, entendido como lugar de sociabilidades, o que se terá tratado entre as potências europeias? Quem ganhava a quem no respeitante às visibilidades dos lutos, a entender como “espectáculo” e “espectáculo” a entender como forma de poder? Que alianças se terão reforçado? Que antagonismos de interesses se terão avolumado, nomeadamente, no respeitante à partilha da então África Portuguesa? Quanto a isto, parecia ser peremptório o enviado do jornal Times, Robert Wilton (Castro, 1941, p. 254), dizendo, aquando do funeral do Monarca, que “iam no caixão do Rei D. Carlos, as colónias de Portugal”, o que aliás não veio a confirmar-se, possivelmente e em parte grande, por ter ocorrido a Grande Guerra, sem esquecimento da acção da diplomacia e dos militares portugueses.

A morte do Príncipe Real e de seu pai, tiveram igualmente no Ultramar, concretamente em Luanda, uma pesada visibilidade de luto, como determinado em Boletim Oficial do Governo- Geral da Província d’ Angola (1908a), pelo então Governador-geral Henrique Mitchel Paiva

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A encenação do luto, ao pormenor, na Dinastia dos Bragança, não era só deste particular momento. Por exemplo, as exéquias do Rei D. Luís I, saindo do Paço da Cidadela de Cascais para Lisboa, foram muito longas.

Quanto à morte da Rainha D. Maria I, refere-se que Debret, no Rio de Janeiro, ficou perplexo com as paredes caiadas de branco, que ficaram cobertas durante o período de luto, por enormes panejamentos negros. Também a Artilharia acentuou o luto, com o disparo cadenciado de todos os canhões, de dez em dez minutos, sendo notórios os estrondos e o fumo intenso.

No que respeita ao coche funerário, foi puxado por quatro parelhas de machos. Partiu do Paço, seguiu pela Rua Direita dos Pescadores, entrou na Rua da Quitanda, voltou para a Rua do Ouvidor e seguiu pela Rua dos Ourives, até chegar à Igreja do Convento da Ajuda. Aqui, foi feita a encomendação do corpo da defunta Rainha e, após isto, soou a salva de 21 tiros que deu por terminada a cerimónia fúnebre (Boléo, 2009).

Se aceitarmos que o uso do cavalo é mais nobilitante que o do macho, podemos inferir que a Corte dos Bragança, ao tempo da morte da Rainha Dona Maria I, ao usar o macho no funeral, como dito, não escolheu ou não tinha o animal mais nobilitante. Porém, antes do embarque da Família Real para o Brasil e antes das três sangrentas Invasões Francesas de 1807, 1808 e 1810, a Casa Real portuguesa era sem par; não havia menos de 4.000 machos e 2000 cavalos nas cavalariças reais (Beckford, citado por Souza, 1933).

Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias - FCSEA - Instituto de Educação 155 Couceiro. O luto manifestou-se, entre outros, na bandeira, nos uniformes e fumos dos militares, na cobertura dos punhos das espadas dos oficiais e no ribombar espaçado da Artilharia da Fortaleza de S. Miguel - a mesma que pouco antes anunciava o sufrágio da alma do Rei D. Luís I, falecido em 1889, a chegada dos vencedores do Cuamato, a manhã do dia de Natal -, como que afirmando a continuidade do Regime, mas, ao fazê-lo de um modo tão excessivamente marcado, como que anunciava o fim de um tempo, a que se seguiria um outro tempo, “composto de mudança”.

Paiva Couceiro, Condesso de Paraty, cujo título nunca usou, que havia sido empenhado anfitrião do Príncipe, em Luanda, partidário activo da ocupação e do lançamento de vias de comunicação em Angola - neste e noutros aspectos terá continuadores, nomeadamente, em Norton de Matos -, na qualidade de Governador, implementou, aquando das solenes exéquias do Rei e do seu filho primogénito, jurado herdeiro, um cerimonial pesado de simbolismo, como dito atrás. Assim, atente-se de novo nos uniformes e no armamento de aparato – a Artilharia e os disparos, por exemplo – que aqui devem ser entendidos como eminentes símbolos de poder, dando moldura ao que Neto (1964) denomina, no respeitante a Paiva Couceiro, de política intervencionista para uma ocupação efectiva, que não se limitaria à cobrança de impostos no litoral, e aceleraria o processo integrador. Os disparos de Artilharia, em Luanda, ao tempo de Paiva Couceiro, sugerem querer ter impacto simbólico ao nível do Poder e lembram-nos, assim, de algum modo, o lema com que Luís XIV mandava marcar as peças de Artilharia da França: ultima ratio regnum.

As exéquias do Rei e do Príncipe, em Luanda - como em Lisboa115 -, foram um sinal de luto e foram espectáculo e pretexto de afirmação do Poder, através de símbolos, à semelhança do que refere Areia (1983), relativamente à sociedade tradicional, que o poder não pode existir nem manter-se sem símbolos.

Este convencimento, terá levado a que o Príncipe Real D. Luís Filipe fosse assassinado por opositores à Monarquia, pouco antes de completar os 21 anos. Ortigão (2001) refere-se-lhe como D. Luís II, de cognome o Príncipe Africano.

Deixamos, ainda, nesta alínea, uma palavra sobre o contexto da vida nacional em que

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Como na Catedral de S. Paulo, no Brasil, a 28 de Fevereiro de 1908 e na cidade de Pomba, Minas Gerais (Anónimo, 1908b). Foram também celebradas solenes exéquias, em Roma, na Sala de Beatificações e na Igreja do Instituto Português de Santo António, o que já havia ocorrido com as exéquias dos seus antepassados da Dinastia dos Bragança, sendo que as de D. João V tiveram uma enorme pompa e visibilidade, conforme Cardoso (2001).

Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias - FCSEA - Instituto de Educação 156 ocorre a visita do Príncipe.

O Príncipe Real navegou para África durante o governo de João Franco, apoiado pelo Rei D. Carlos e referido como “ditadura de João Franco”, governo esse que ficou conhecido por “Concentração Liberal”116. De entre os apoiantes do Partido de João Franco, reconhecemos alguns que serão peças muito importantes na Viagem Imperial do Príncipe Real, como sejam Aires de Ornelas, Ministro de Marinha, Paiva Couceiro, Governador de Angola, e Alfredo Freire de Andrade117, Governador de Moçambique.

O jovem Príncipe Real, abatido na carruagem logo depois do seu pai, erguido e em jeito

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