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Concluding remarks and recommendations

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RIO CHANCHAN ^ T

6. Concluding remarks and recommendations

O artigo L‟Identité narrative, publicado em 1988, na Revista Esprit, é outro texto que caminha na mesma direção do anterior no que tange à narratividade como solução alternativa à identidade pessoal. O que há de diferente é a discussão sobre a possibilidade de dissolução da identidade pessoal através dos puzzling-cases da ficção científica e os casos de crise de identidade proposto pela ficção literária, nos quais a constância do personagem vê-se sujeita a desconfiguração de sua identidade.

Neste artigo, Ricoeur deixa claro sua concordância com o pensamento de Heidegger no que diz respeito ao ser-aí e a tese da diferença ontológica, segunda a qual há distinção entre o ente que cada vez sempre somos, o Dasein, e o ente que vem ao encontro no mundo circundante, isto é, o estar-à-mão, e a presentidade.

Segundo Ricoeur, o conceito de ipseidade é diferente do conceito de mesmidade não apenas do ponto de vista semântico, como atesta a diferença entre idem e ipse, mas também ontológico. Semanticamente, idem é o idêntico no sentido de extremamente parecido, e ipse é o

idêntico a si, no sentido de não estranho (RICOEUR, 1988b, p. 79). Para atestar isso, citamos Ricoeur (1988, p. 298):

Antes de assinalar a região em que a questão do si-próprio recobre a do mesmo, insistamos no corte não apenas gramatical, ou até mesmo epistemológico e lógico, mas francamente ontológico que separa idem e ipse. Estou aqui de acordo com Heidegger para dizer que a questão da

Selbstheit [ipseidade] pertence à esfera de

problemas que derivam da espécie de entidade que ele chama Dasein e que ele caracteriza pela capacidade de se interrogar sobre o seu próprio modo de ser e assim de se relacionar ao ser enquanto ser. À mesma esfera de problemas pertencem às noções tais como ser-no-mundo, cuidado, ser-com, etc. Neste sentido a Selbstheit é um dos existentialia que convêm ao modo de ser do Dasein, como as categorias, no sentido kantiano, convêm ao modo de ser das entidades que Heidegger caracteriza como Vorhanden e

Zuhanden. O corte entre ipse e idem exprime

finalmente o mais fundamental entre Dasein e

Vorhanden/Zuhanden. Só o Dasein é meu, e mais

geralmente um si-próprio. As coisas, sendo dadas e manipuladas, podem ser ditas minhas, no sentido de identidade-idem.

No entanto, Ricoeur não usa os termos cunhados por Heidegger como sendo sinônimos daqueles que ele emprega. Ele afirma que o si mesmo está na mesma esfera dos problemas pensados por Heidegger como encontrar-se desde sempre em-um-mundo, no qual se dá a lida com os entes à-mão, e o Dasein enquanto ser-com preocupa-se com o ente que também é Dasein, mas, no fundo, ambos têm pretensões distintas já anunciadas em Le conflits des interprétations, publicado em 1969. Assim como Heidegger, Ricoeur funda a hermenêutica na fenomenologia, e a propósito disto fala num enxerto da hermenêutica na fenomenologia, pois, segundo ele, deve-se procurar a objetivação das expressões da vida com vistas à busca por sentido, por significação, as quais possam sem retomadas e compreendidas pelos seres históricos de maneira coerente. Porém, tudo isso deve ser procurado na mediação pelos símbolos, pelos mitos, e conforme a tese da inovação semântica,

defendida no fim da década de 70 em diante, pela metáfora e pela narrativa.

Com efeito, somente com a publicação de Soi-même comme un autre, em 1990, Ricoeur começa a empregar o termo “pessoa” para expressar o mote de suas investigações acerca da individualidade, da ipseidade ou si mesmo. Ele insistirá, sobretudo, na dimensão temporal da pessoa e na capacidade dela agir, por conseguinte, ser responsabilizada sobre seus atos no contexto de uma vida ética com e para os outros, nas instituições justas. O si mesmo, a ipseidade, interroga pelo seu próprio ser, da mesma forma que o Dasein coloca a pergunta pelo sentido de ser, porém o si mesmo de Ricoeur não é posto sob o horizonte da analítica existencial com vistas à ontologia fundamental, que fundamenta todas as demais ontologias, como Heidegger afirma no § 4 de Ser e tempo. Na verdade, a pergunta pelo sentido do ser do ente que é o si mesmo é buscada ao se tentar descobrir 120 quem sou eu? por intermédio da configuração de uma trama narrativa, mas isso não quer dizer que essa pergunta será em algum momento respondida de maneira definitiva, porque a identidade pessoal como narrativa não é conclusiva e sem falhas. Antes de qualquer coisa, a pergunta quem sou eu? mantém-se sempre em aberto, sempre em busca de resposta, pois podemos, repetidamente, compor tramas diversas e até opostas acerca sobre os acontecimentos que se sucederam. Como o próprio Ricoeur expõe em uma entrevista concedida a Gabriel Aranzueque, em 1997, a ontologia sempre foi para ele uma interrogação colocada no horizonte de uma antropologia filosófica 121. Portanto, não há qualquer fundacionismo ontológico como há em Heidegger, mas se trata, na nossa interpretação, de um questionamento ôntico. Subsiste a busca por sentido, mas não é uma investigação colocada sobre o âmbito da pergunta pelo sentido de ser em geral.

120

Ver: RICOEUR, 1983, p. 439-448; TENGELYI, 2003, p. 6.

121

“La ontologìa sigue siendo para mì la cuestión última. No digo marginal, sino siempre interrogativa, al final de una investigación cuyo centro no es la ontología, sino lo que he llamado antropología filosófica, es decir, una interrogación sobre lo que constituye la humanidad del hombre. Voy a mostrarle cómo conduce esto a la ontología. Pongo cada vez más el acento en la noción de capacidad, de poder, en lo que el hombre puede hacer y también en lo que no puede hacer: poder hablar, poder actuar, poder ser responsable de sus actos, etc. Veo aquí el punto de partida de una posible reflexión ontológica en torno precisamente a la noción de poder. En este punto, se produce una intersección de la antropologìa y de la ontologìa” (RICOEUR, 1997, p. 424).

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