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passaremos a discorrer sobre o suposto núcleo central das Representações Sociais de abuso sexual infantil para as participantes, a partir dos dados do primeiro TALP. Já os elementos que fazem parte da periferia foram agrupados conforme indicam os tópicos a seguir: “5.1.2 Os professores diante do abuso sexual: revolta, medo e nojo”; “5.1.3 Sofrimento, trauma, mudança de comportamento, vergonha e perda da infância e da inocência: consequências para a vítima de abuso sexual”; “5.1.4 Quem é o agressor? É desumano, doente, que se aproveita da vulnerabilidade da criança e que, portanto, merece cadeia (o ato do abuso sexual é inaceitável, é uma injustiça)” e “5.1.5 Os outros diante do abuso sexual: família e negligência”.

5.1.1 Núcleo Central das Representações de Abuso Sexual na Educação Infantil: o abuso sexual é uma forma de violência global

O núcleo central, de acordo com a abordagem estrutural, é constituído pelos elementos mais fortes, resistentes e estáveis de uma representação. Além disso, os elementos periféricos lhe dão suporte. Justamente por conta desse suporte, o núcleo central não se modifica facilmente. Correspondendo ao suposto núcleo central das representações de abuso sexual na Educação Infantil, a palavra que atendeu ao duplo critério do qual já falamos (ter frequência superior ou igual a 13 e OMI inferior a 3,024) está localizada no primeiro quadrante do quadro de quatro casas, no lado superior esquerdo. Trata-se do quadrante cujas palavras tiveram maior frequência e foram consideradas as mais importantes pelas participantes da pesquisa.

Para as professoras participantes, o abuso sexual na Educação Infantil é uma forma de “Violência”. Tal expressão apareceu no primeiro teste de associação livre de palavras 20 vezes e obteve OMI 2,400, tendo sido a palavra escolhida como a mais importante por oito participantes da pesquisa. A violência foi compreendida pelas participantes de forma global, envolvendo os aspectos físico, psicológico e sexual da criança.

Conforme Ferreira et al (1999), a partir do Século XX, especificamente nos anos 1960, o tema dos Direitos Humanos e dos Direitos da Criança passou a integrar a agenda internacional. Foi ressaltada a preocupação com a violência contra a criança, suas diversas formas de apresentação e as estratégias para combatê-la. Tal violência é um tema complexo, especialmente em decorrência de sua múltipla determinação. Assim sendo, mesmo que a violência contra a criança seja um fenômeno bastante estudado, é ainda pouco conhecido. De acordo com Belsky (1993), a compreensão dos fatores relacionados à violência é essencial para fundamentar e implementar estratégias de prevenção e intervenção precoce. A violência é concebida,

nesse sentido, como resultado de vários fatores relacionados ao agressor e à criança, à família, à comunidade e à sociedade ou cultura.

A criança é considerada um ser vulnerável e que necessita de proteção do indivíduo adulto. Essa compreensão da violência evidenciada de maneira global pode ser percebida nas seguintes justificativas transcritas dos questionários: “O abuso sexual é uma forma de violência global contra um ser (no caso do abuso infantil) completamente vulnerável” (Questionário Nº 01). “Violência define exatamente o que é o abuso sexual infantil. Violência física, psicológica, sexual” (Questionário Nº 24).

A criança, nessa perspectiva, seria dotada de inocência e não teria capacidade de decidir sobre o ato sexual. Caberia à família protegê-la. Quando o abuso acontece, toda a família é afetada: “Existe a inocência da criança, ela não permitiu e não tem maturidade para isso. Quando se fere um membro, fere-se toda a família” (Questionário Nº 09).

Ainda que o termo “Família” não tenha aparecido dentre as palavras mais evocadas (tendo apresentado frequência igual a sete e figurado na zona de contraste do quadro de quatro casas), nas justificativas das participantes, esse elemento chama a atenção. De modo que a família, na percepção das professoras participantes da pesquisa, é considerada a principal responsável pela segurança e bem-estar da criança. Se a criança sofreu algum tipo de violência, seguindo esse raciocínio, de alguma forma, essa família que deveria protegê-la, falhou.

Esse tipo de violência global (o ASI) é considerado muito sério para toda a vida do ser humano. A pessoa que passa pela experiência de abuso na infância sofre consequências no seu desenvolvimento enquanto indivíduo: “Violência, porque traz consequências negativas para o desenvolvimento da vítima” (Questionário Nº 40). Além disso, conforme as participantes, a sua infância é roubada. A violência faria do abusado e do abusador menos humanos: o abusado tem o direito roubado e não é tratado como pessoa; o abusador, por outro lado, ao tratar o outro dessa forma, não age como um ser

humano. “Violação do corpo, do direito da criança de ter infância, estendo a violência a um processo de ‘desumanização’” (Questionário Nº 22).

As participantes da pesquisa ainda consideraram que o agressor também pode ter sido vítima de abuso sexual infantil. Ter sido abusado gera consequências na trajetória de vida da pessoa que foi vítima, principalmente psicológicas. Muitas vezes, para as participantes, existe uma propensão a tornar-se de abusado a abusador, conforme pode ser observado na justificativa a seguir:

Considerei a palavra mais importante “violência”, pois o que pratica o abuso sexual pode ser alguém que tenha sofrido a violência do ato, o que gera consequências para a vida dos indivíduos envolvidos, tanto perante a lei quanto psicologicamente (Questionário Nº 19).

O abusador, também, além de desumano e possível vítima na infância é considerado alguém extremamente violento, segundo as professoras participantes. “Porque é uma pessoa muito bruta que faz isso com uma criança sem defesa. É uma pessoa muito grossa. Aquela pedra bruta, ruim” (Questionário Nº 35). “A palavra que eu considero mais importante é violência, por se tratar de um ato extremamente violento, com uma criança totalmente inocente, que não tem condição alguma de defesa” (Questionário Nº 28).

Em resumo, o possível núcleo central das Representações Sociais de ASI traz o elemento “Violência”, compreendida de forma global, que afeta o indivíduo de forma efetiva e duradoura. A família é considerada, pelas professoras participantes da pesquisa, como responsável pela não proteção da criança que sofreu o ASI. O abusador também é um ser violento, mas pode ser também vítima. Nas representações das professoras participantes, o perpetrador pode ser um indivíduo que passou de abusado a abusador.

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