E. Sur la procédure
5. En ce qui concerne la communication du dossier pénal
Mario Vargas Llosa estreou na literatura com o volume de contos Los jefes (tradução Os Chefes) justamente quando um fato histórico marca a literatura hispano-americana: a Revolução Cubana. De acordo com Lídia do Valle Santos,
O prêmio Biblioteca Breve de 1962, atribuído ao primeiro romance de Vargas Llosa – Batismo de fogo (do original La ciudad y los perros) -, incorpora nosso autor ao grupo de escritores que afirmam sua carreira posteriormente à Revolução Cubana e vão ganhando, por sua proximidade histórica com ela, o epíteto sartreano de escritores “engajados”, tão em moda na época, empenhados em “denunciar” a realidade do continente, sua contribuição, como intelectuais, à revolução dessa realidade (SANTOS, 1983 [1985], p. 160).
Dono de extensa obra literária9, sem mencionar as publicações dos livros de ensaios e teatro, Vargas Llosa foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura em 2010, além de ter recebido inúmeros prêmios literários. No ano de 2016, publicou seu mais recente livro, Cinco esquinas, onde contextualiza o período em que Alberto Fujimori governou o Peru, com suas medidas antidemocráticas (1990-2000).
A crítica considera Mario Vargas Llosa um expoente do realismo, um dos grandes nomes da literatura hispano-americana e atualmente da literatura mundial. Por suas publicações ensaísticas, é considerado um intelectual renomado, convidado para participar de diversos eventos nos quais pouco fala de sua literatura, mas sim de temas recorrentes na atualidade, como a democracia.
Um de seus romances mais populares possui como pano de fundo o Brasil: A
Guerra do fim do mundo (1981) ficcionaliza a Guerra de Canudos (1896-1897)
ocorrida no interior da Bahia, sendo este romance uma espécie de homenagem ao livro Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha. Já o romance Conversa na Catedral (1969) é ambientado na ditadura peruana do governo Odría (1948-1956). A preocupação de Vargas Llosa com o resgate ficcional de períodos ditatoriais da
9 Os Chefes (1959); La ciudad y los perros (1963; traduzido no Brasil como Batismo de fogo); A Casa Verde (1966); Os Filhotes (1967); Conversa na catedral (1969); Pantaleão e as visitadoras (1973); Tia Júlia e o Escrevinhador (1977); A Guerra do Fim do Mundo (1981); História de Mayta (1984); Quem matou Palomino Molero? (1986); O falador (1987); Elogio da madrasta (1988); Lituma nos Andes
(1993); Os cadernos de Dom Rigoberto (1997); A Festa do Bode (2000); O paraíso na outra esquina (2003); Travessuras da menina má (2006); O sonho do celta (2010); O herói discreto (2013) e Cinco
América Latina sempre o acompanhou, inclusive o corpus da dissertação, o romance
A Festa do Bode (2000) é ambientado, no eixo narrativo de Trujillo e dos
conspiradores, na Era Trujillo (1930-1961), nome pelo qual ficou conhecida a ditadura dominicana. A técnica de intercalar eixos narrativos utilizada no romance A
Festa do Bode já fora utilizada anteriormente por Vargas Llosa:
Batismo de fogo, que ainda possui um encadeamento linear, já traz na
linguagem a marca desse novo realismo: fluxo de consciência, flashback, multiplicidade de pontos de vista, já configuram o autor capaz, como em
Conversa na Catedral, de superpor diálogos de mais de dez personagens a
um só tempo, ou de aventurar-se na ambiguidade fantástica como em A
casa verde. Ou ainda de incorporar falas diversas no corpo estático da
narrativa, sem notações gráficas, como na novela Os cachorros (1967) (SANTOS, 1983 [1985], p. 160).
Lanis ressalta que apesar de A Festa do Bode não ter sido escrito na mesma época que Vargas Llosa visitou a República Dominicana, era um projeto que o perseguia, pois
Entre 1997 e 1999, dedicou-se a um novo projeto romanesco, ambientado na República Dominicana: La Fiesta del Chivo. O projeto teve seu início em 1975, quando esteve no país, filmando a versão cinematográfica de
Pantaléon y las visitadoras (LANIS, 2005, p. 13-14).
Sabe-se que enquanto esteve na República Dominicana, Vargas Llosa realizou diversas pesquisas históricas acerca da Era Trujillo, que serviram como material para a composição do romance. Embora publicado no ano 2000, quando a ditadura já não era um dos principais temas da literatura hispano-americana, Figueiredo (2003) aponta que “a autocracia de Trujillo reconstruída na obra simboliza todas as ditaduras que já fizeram parte da história da América Hispânica e que ainda podem se manifestar, ainda que de forma escamoteada” (p. 25).
Em 1990, Vargas Llosa concorreu à presidência do Peru e perdeu a eleição no segundo turno para Alberto Fujimori. É na literatura, portanto, o campo no qual possui reconhecimento mundial. Suas principais obras, de modo geral, sejam as que foram feitas a partir de suas próprias memórias, ou as que foram produzidas por pesquisas, tematizam os contextos autoritários que ocorreram na América Latina.
No artigo “Literatura e história: os discursos da memória”, Rosani Ketzer Umbach menciona uma fala de Vargas Llosa para comentar sobre as ditaduras e suas consequências:
O escritor peruano Mario Vargas Llosa (1988) explicitou sua visão acerca das diferenças entre os sistemas políticos ditatoriais e democráticos existentes à época em várias partes do planeta: a democracia seria um sistema no qual verdades contraditórias coexistem lado a lado, ao contrário de sistemas de uma verdade única, como os fascistas [...] (UMBACH, 2010, p. 13).
Em entrevista concedida a Isabel Vieira, jornalista brasileira, o escritor afirma que
A literatura nos traz o que não aparece nas manifestações como a história, a sociologia, as descrições objetivas da realidade. Ela é aquilo que não temos e que queremos ter, e que, como não temos, inventamos. Os livros, essas fantasias e mentiras, expressam verdades profundas, que são as dos nossos desejos, ambições, sonhos, frustrações, nosso anseio por um mundo diferente (LLOSA, 2001, p. 02).
Para Vargas Llosa, como o trecho acima demonstra, a literatura deixa transparecer aquilo que as outras áreas do conhecimento não permitem ver. É por meio da literatura que ele firmou-se como figura pública, de renome mundial. E será através de uma publicação de Vargas Llosa – A Festa do Bode – que perceberemos o poder da literatura em recriar ficcionalmente a dor e a impossibilidade de esquecer um momento limite como foi o da ditadura dominicana.