Nicolas Mazziotta , Ph.D
Section 3 : Conceptualisations multiples
A coleta de dados empíricos para a realização desta pesquisa ocorreu de duas formas distintas: por meio da aplicação de questionários elaborados para a realização do estudo (ver seção 5 do Capítulo 3) e por meio da observação participante. Além disso, pensando em uma utilização futura, no contexto de outra pesquisa, foi realizado o registro audiovisual das aulas durante a aplicação da unidade didática.
Foram realizadas coletas de dados antes, através da aplicação de um questionário de múltipla escolha e de uma questão discursiva; logo após as aulas da intervenção, com outra questão discursiva; e cerca de oito meses depois, novamente com o mesmo questionário de múltipla escolha, atendendo aos critérios de validação interna discutidos por Méheut (2005), que possibilitam que os efeitos da unidade didática sejam analisados em relação aos objetivos assumidos em sua construção e aos percursos de aprendizagem dos alunos. A construção dos instrumentos utilizados para as coletas de dados, que ocorreu junto com a elaboração da unidade, contou também com a participação da professora da disciplina.
O questionário foi elaborado a partir de bases metodológicas fornecidas pelos trabalhos de Schreiner e Sjøberg (2004) e Pagan (2009), sendo formado por questões fechadas, respondidas através da marcação em uma escala de Likert. Esta escala é organizada através de um conjunto de afirmações, positivas e negativas, dirigidas ao objeto de atitudes que se busca conhecer, de modo que os respondentes, para cada
afirmativa, assinalam uma entre cinco alternativas: ‘discordo totalmente’, ‘discordo parcialmente’, ‘não concordo nem discordo’, ‘concordo parcialmente’ e ‘concordo totalmente’. Neste trabalho, o objeto de atitudes foi a crise ambiental atual, de forma que o questionário objetivou levantar dados sobre como os estudantes da disciplina na qual a investigação foi situada relatavam as suas atitudes e opiniões diante de questões relativas à atual crise ambiental, ao conhecimento científico referente a essa crise e ao funcionamento do planeta Terra.
Cada afirmação que constitui o instrumento, denominada “item Likert”, pode ser agrupada com outras. Cada pequeno grupo de afirmações pode se remeter a uma determinada dimensão do objeto de atitudes e essas dimensões que emergem de um grupo de itens Likert são denominadas “variáveis latentes” (UEBERSAX, 2006). No caso do instrumento utilizado no presente estudo, quatro variáveis latentes foram estabelecidas, conforme descritas na seção de resultados, e as afirmativas foram classificadas como pertencentes, cada qual, a algum desses grupos. A partir da classificação, as afirmativas foram reconstruídas, alteradas e arrumadas em uma ordem que objetivou que houvesse pouca influência de cada uma sobre as respostas das outras. Também foi levada em consideração a necessidade de um equilíbrio entre afirmativas positivas, que afirmam alguma atitude, opinião ou conhecimento, e negativas, que negam alguma atitude, opinião ou conhecimento. Nessa etapa, a participação do co- orientador, Acácio Pagan, foi particularmente fundamental, no que diz respeito à construção do instrumento e à sua avaliação crítica, desde a primeira versão.
As afirmativas foram elaboradas a partir da escolha de temas considerados como relevantes para o estudo e que seriam tratados na unidade didática, posteriormente, assim como com base em trabalhos semelhantes, que também utilizaram questionários para avaliar percepções, atitudes, opiniões etc. sobre questões ambientais, como Tantawi et al. (2007), Aragonés e Amérigo (1991) e Biaggio et al. (1999). Já as variáveis latentes foram construídas e organizadas a partir das afirmativas que a equipe de pesquisa considerou importantes para a sondagem.
Quanto aos aspectos que envolvem a complexa problemática ambiental, muitos outros, além daqueles considerados no instrumento que utilizamos, poderiam ser incluídos nas questões. Por isso, como costuma ocorrer com qualquer instrumento, o questionário utilizado apresenta limitações que devem ser consideradas na discussão dos
durante as aulas da unidade didática, ou seja, pretendeu-se que o instrumento mapeasse os conteúdos trabalhados na unidade. Além disso, foram considerados os momentos de discussão em sala de aula, previstos durante a unidade, em que poderiam ser colocadas as eventuais discordâncias dos estudantes em relação aos temas tratados.
Ressaltamos ainda que a proposta foi de trabalhar as questões ambientais no contexto da ecologia, e não da educação ambiental em si, pois a pesquisa se pauta na área do ensino de ciências, mais especificamente, no ensino de biologia.
Após a finalização da elaboração do instrumento e antes da aplicação em teste- piloto, solicitamos que três pesquisadores externos avaliassem o questionário, além da Profa. Dra. Iara Bravo, participante da pesquisa.
Um dos pesquisadores externos solicitados, o Prof. Dr. Carlos Frederico Loureiro, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, realizou a avaliação antes da primeira aplicação do questionário, trazendo uma avaliação bastante positiva sobre o instrumento. A Profa. Dra. Clarice Sumi Kawasaki, da Universidade de São Paulo, avaliou o instrumento pouco tempo depois de ter sido aplicado e suas considerações críticas sobre o mesmo também foram importantes, por terem norteado parte das análises dos resultados obtidos. Sua avaliação apontou, por exemplo, que seria mais adequada a realização de entrevistas com os estudantes, para que fossem questionados sobre as razões e justificativas das suas marcações no questionário. Certamente, ter acesso a essas informações enriqueceria enormemente as nossas análises, mas devido às limitações de tempo, principalmente, optamos pela metodologia aqui apresentada.
Além das instâncias de avaliação interna e externa, o questionário foi testado numa aplicação piloto, realizada no dia 20/10/2009, com 15 estudantes do curso de Ciências Biológicas da UFBA, de semestres variados, escolhidos aleatoriamente durante os momentos de intervalos entre as aulas. Este teste piloto teve como objetivo, principalmente, verificar se os estudantes compreendiam as afirmativas das questões, além de identificar quaisquer dificuldades em relação à marcação das respostas. Alguns estudantes acharam certas questões repetitivas e, por conta disso, duas sentenças foram retiradas do questionário. De modo geral, os estudantes disseram entender as afirmativas e não se queixaram da extensão do questionário. Assim, após as adequações, o instrumento foi aplicado no dia 27/10/2009, nas duas turmas envolvidas na pesquisa. O instrumento em sua versão final, usada no estudo, é apresentado no Apêndice A.
Antes do início das coletas de dados, a pesquisa foi explicada aos estudantes, com seus objetivos e suas etapas. Ao término das explicações, foi perguntado se eles
aceitavam participar e, em seguida, foi lido um termo de consentimento livre e esclarecido (Apêndice B), assinado por todos os estudantes que se dispuseram a participar.
Durante a aplicação do questionário, foi pedido aos estudantes que marcassem o seu grau de concordância com cada uma das 44 proposições incluídas no instrumento de coleta de dados, mas com a orientação de que deixassem algum item em branco, se assim o desejassem. Além disso, foi explicado que não havia respostas certas ou erradas para cada um dos itens, tendo sido solicitado que fossem tão sinceros quanto pudessem, já que é preciso ter na devida conta a questão do estereótipo do ‘estudante de biologia’, conforme aponta Pagan (2009). Ou seja, neste contexto, não podemos desconsiderar o estereótipo de que o estudante de biologia deve ter uma consciência ambiental bem desenvolvida e colocá-la em prática, que muito provavelmente afeta o modo como estudantes de biologia se situam em relação às atitudes e opiniões que consideram aceitáveis ou não.
Faz-se importante o reconhecimento das limitações do nosso instrumento de coleta de dados, principalmente no que diz respeito à dificuldade de distinguir quais seriam as respostas dadas a partir do ponto de vista da simples adesão às causas ambientais – já que o tema está em voga e as informações a seu respeito são disponíveis em todos os tipos de meios de comunicação, mobilizando o estereótipo de estudante de Biologia mencionado acima –, e quais seriam as respostas dadas a partir da real compreensão do problema e do envolvimento, conseqüentemente, mais aprofundado dos respondentes, de modo a refletir de modo mais confiável suas opiniões e atitudes.
A questão discursiva aplicada antes da intervenção foi, por sua vez, elaborada em conjunto com a professora da disciplina, Profa. Iara Bravo. A questão foi aplicada no dia 10/11/2009, também nas duas turmas participantes, com a seguinte forma: Explique os fatores que têm sido apontados como causas do aquecimento global e justifique sua resposta. A versão finalizada dessa questão, conforme foi aplicada, é apresentada no Apêndice C.
A coleta de dados realizada logo após as aulas propostas consistiu na aplicação de outra questão discursiva, com o intuito de avaliar a aprendizagem dos conteúdos científicos trabalhados durante a unidade didática. Isso aconteceu na aula subseqüente à intervenção, compondo a última avaliação da disciplina (a terceira prova), no dia
naturais, enquanto outros apontam causas antrópicas. Explique os argumentos utilizados na defesa de cada uma dessas visões, utilizando a visão sistêmica da Terra sempre que possível.
Cerca de oito meses após a realização da unidade didática, foi realizada mais uma coleta de dados, através da reaplicação do questionário de múltipla escolha. A opção pela repetição do questionário após ter passado tal intervalo de tempo se deveu à expectativa de que a unidade didática pudesse resultar em um processo de conscientização ambiental, sendo possível a mudança das atitudes cotidianas em situações que envolvem mais fortemente as questões ambientais, além de o instrumento também conter afirmativas que versam sobre o entendimento da crise ambiental em relação ao conhecimento científico trabalhado durante a unidade.
Com a reaplicação do questionário, para a análise dos resultados, devemos considerar o chamado “efeito do teste”, que diz respeito à possibilidade de que o desempenho dos estudantes na reaplicação se mostre melhor simplesmente porque estão respondendo pela segunda vez o mesmo instrumento. No entanto, como o questionário é composto de questões que visam levantar dados sobre os relatos das opiniões e atitudes dos estudantes, não existindo uma resposta certa para nenhum dos quesitos, acreditamos que o efeito do teste é minimizado por esta característica do instrumento, embora admitamos que o respondente esteja sujeito a refletir repetidas vezes sobre as questões, aprendendo também a partir do próprio envolvimento na busca de responder ao questionário. Em virtude desta última possibilidade, não repetimos a aplicação do instrumento logo após a intervenção, deixando para fazê-lo oito meses após a mesma, quando supomos que o efeito da reflexão anterior sobre as afirmativas colocadas no instrumento seria ainda mais diminuído, dado o longo intervalo de tempo. Assim, esperávamos capturar com o instrumento o que mais nos interessava, a possível mudança de atitudes dos estudantes por meio do envolvimento da unidade didática, e não somente na tentativa de responder o próprio instrumento.
Junto à segunda aplicação do questionário de múltipla escolha, foi pedido aos estudantes que respondessem a outro questionário, breve e também com questões de múltipla escolha, que possibilitou o traçado de um perfil socioeconômico das turmas trabalhadas (Apêndice D), além de investigar as fontes de informação a que os estudantes têm acesso, a partir de uma questão sobre os meios de comunicação que possuem em casa.
Devido à dificuldade de reunir os estudantes participantes da pesquisa para a aplicação dos dois questionários nessa última coleta de dados, optamos por enviá-los para cada um deles através de mensagem eletrônica (e-mail), para que respondessem individualmente e nos enviassem de volta. Esta opção surgiu a partir da dificuldade já mencionada e da avaliação de que, sendo no computador, os questionários poderiam ser mais atrativos para que os estudantes realmente os respondessem. As mensagens foram enviadas no dia 01/07/2010 e foram sendo respondidas ao longo de quase três meses.
Contudo, o retorno das respostas foi de apenas 50% do número alcançado na primeira aplicação. Atribuímos essa queda no retorno dos estudantes ao tempo transcorrido desde a realização da parte de campo da pesquisa e o conseqüente distanciamento daquele contexto, além da falta de um momento em que todos pudessem estar reunidos com o objetivo de responderem aos instrumentos. De qualquer modo, consideramos que o percentual de 50% das primeiras respostas – o que equivale a 23 questionários respondidos – ainda constituía uma quantidade suficiente para a realização das nossas análises.