1 Introduction
1.2 Glossary
Há, portanto, em Oliver Twist e Infância, alguns aspectos que as tornam semelhantes, razão pela qual as escolhemos para ser objeto de estudo de nosso trabalho: ambas denunciam e descrevem os maltratos das sociedades em que viveram, ambas são tentativas de “apagar” os monstros que povoam as mentes de seus autores, ambas são relatos de memórias, são romances realistas, à medida que esfacelam e dividem com seus leitores, através de suas escritas em capítulos, os problemas das sociedades em que viveram, nos séculos XIX e XX, respectivamente.
Sabemos que cada autor, na maioria das vezes, se utiliza de fatores internos e externos para escrever sua obra. Esses aspectos ocorrem naturalmente na escrita e são necessários. Portanto, há que existir uma relação criador-receptor para que esse processo de escrita se estabeleça de forma contínua. Vemos, portanto, que o escritor funciona como uma espécie de porta-voz, o indivíduo competente que expressa suas leituras de mundo com originalidade. O escritor é, portanto, aquele que desempenha um papel social de destaque, que vem a ocupar uma posição expoente em relação ao seu grupo profissional e atende às expectativas de um determinado grupo de sociedade, de leitores. O conteúdo e a forma de sua obra dependerão, em parte, das tensões entre a criação e as relações oriundas da convivência com o meio, caracterizando, assim, um processo constante, dialético entre o público que lê a obra e seu fiel criador.
Como se vê, há um processo de movimento contínuo na produção literária, entendendo, portanto, a literatura como um meio de comunicação, um meio de ligação entre o escritor e a sociedade que o lê. Esse é o papel social do escritor: o de corresponder às expectativas de seus leitores. Surge aí a ideia de que o autor tem como principal papel o de determinar a criação literária.
Oliver Twist e Infância cumpriram esse importante papel na
sociedade de suas épocas. São obras que estabelecem um diálogo de suas sociedades consigo mesmas, reproduziram as imagens sociais
que mais serviam de registro do dia-a-dia de vários aspectos de uma sociedade que, por vezes, não se perceberiam sem um processo narrativo empenhado. É o que faz Dickens ao elaborar Oliver Twist. Nessa obra, ele descreve, em riqueza de detalhes, as workhouses, que como sabemos, eram asilos que mais serviam de recrutamento de miseráveis como mão de obra escrava.
Oliver Twist foi escrito como resposta a uma das mais severas
leis criadas na Inglaterra, no Século XIX - The New Poor Law of 1834
(ver apêndice). Essa lei foi criada com o objetivo de delegar ao Estado
o dever de “cuidar” dos mais pobres, “incentivando-os” a morarem em instituições, que mais pareciam prisões, chamadas de workhouses. Tal fato, provocou a divisão de famílias, submetendo os seus moradores a condições repugnantes e miseráveis de vida e de trabalho. Num dos trechos de Oliver Twist, as workhouses são descritas dentre os vários “monumentos” públicos que enobrecem as cidades inglesas a que pertencem. Na realidade, os asilos eram meios “nobres” de promover a assistência social, anunciavam-se como ajuda aos mais necessitados quando na verdade elas somente serviam para disfarçar a corrupção, receber ajuda do governo e entregar pouco à população. Era uma “mazela social” institucionalizada comum à maior parte das cidades inglesas, independentemente de seu porte. Esses asilos foram vulgarmente narrados por Dickens como “asilo da mendicidade”.
Nesse momento histórico, quando os pais não podiam sustentar suas famílias, punham seus filhos nas ruas como pedintes e o governo, por sua vez, impunha o recolhimento dessas crianças que eram levadas para essas workhouses. Nestas casas, as crianças passavam a ser “aprendizes de ofícios”. As crianças quase nunca se rebelavam aos maus tratos e descasos que os seus dirigentes realizavam. Uma vez apreendidas, essas crianças eram destituídas de suas famílias, jamais voltariam a conviver com seus pais e irmãos. Tornavam-se, de fato, escravos pois eram obrigados a “aprender um ofício” e trabalhar por míseros 6 shillings (centavos), por semana, e viviam em condições desumanas, em que, a título de exemplo, cerca de 20 delas teriam que
dividir a mesma cama. A expectativa de vida, dessas crianças, passava a ser de apenas 17 anos de idade, em média.
Infância, como não poderia ser diferente, também determinou a
criação literária de sua época. Escrito quase na segunda metade do Século XX, foi perfeito na escolha de palavras e de construções dos ritmos e dos fatos. Ramos, munido de misericórdia, assim como Dickens, escreveu esse livro de memórias na tentativa de acabar com sua própria memória, pois é rememorando que se esquece. E, portanto, benéfico à literatura esse movimento pendular entre lembrar e esquecer. Os autores fazem questão de demonstrar esse desejo latente em rememorar para esquecer, característica ímpar dos textos de memória.
Dickens é um escritor que leu, quando criança e, por inúmeras vezes, As mil e uma noites. E Ramos, a nosso ver, é provável que tenha lido o primeiro, Dickens, tamanhas são as semelhanças nas suas escritas. Entre essas semelhanças, comecemos por esclarecer que os personagens eram, forçosamente, diminuídos de suas capacidades humanas, eram personagens marginalizados e, de alguma forma, excluídos do sistema socioeconômico das épocas referidas. Personagens cujos nomes e apelidos eram, por si só, o retrato de suas desventuras.
Em Oliver Twist, vimos no item 5 de nosso trabalho, que os nomes dados as crianças que eram, de alguma forma, entregues ao Estado para serem cuidadas, eram nomes puramente degradantes, e que só ressaltavam más características dos indivíduos. Eram nomes dos “Criadores” para os “protegidos”. Fica claro, portanto, no romance do Século XIX, o prazer em retratar o ser diminuído, sofrido, desprotegido, abandonado, caricaturado, desesperado, prostituído, faminto, tipos humanos abundantes em sociedades tão desiguais. Esse é o significado melodramático que Dickens dá à sua obra. O perfil humorístico de suas obras faz com que o seu trabalho seja atemporal, coloca-o no patamar universal. Os leitores se livram do tédio característico da atmosfera britânica e a hipocrisia do código britânico é derrotada pelo riso.
Bruto, pessoa comum que exala odor de suor, de sangue, de fumo, pessoa vagabunda, intratável, resmungona, malcriada, enfim. São alguns dos nomes que Ramos dá aos seus personagens. Em Graciliano, os bichos são elevados à categoria de pessoas. O ser humano é constantemente diminuído, subjugado pela opressão, explorado, violentado pela vida. A figura humana é miniaturizada à tendência fatalista da decadência do ser, o esvaziamento psíquico dos personagens, a ausência de referências às crianças. Os próprios nomes que as crianças recebiam em seus batismos eram insígnias de “maus agouros”, traziam desde o berço e no próprio nome a marca de derrotas vindouras, subjugados pela opressão, pela seca, pela migração, pela fome e sede, pela falta de esperança na própria vida.
Essas “decomposições” dos seres, típica de Infância, em que os bichos se tronavam personas e vice-versa, em que pessoas eram reduzidas a fragmentos de gente, numa figuração metonímica. Essa exploração desenfreada do ser humano por outros seres humanos e suas consequências é um viés importante das duas principais obras que estudamos.
Dickens é um escritor estritamente associado a uma cidade e a uma época concreta. Apesar de não ser nascido em Londres propriamente, ele cresceu, desde a sua primeira infância, na capital inglesa. Cidade que ele amava e tantas vezes viu renascer, assim como, nada nela lhe era alheio. Dickens foi e ainda é até hoje, o seu melhor narrador-personagem. Ele foi agente e testemunha de muitas transformações da paisagem urbana inglesa como um todo. Uma das mais significativas que podemos citar é a Inglaterra que drasticamente mudou suas paisagens de uma nação agrícola para uma sociedade mecanizada, da máquina a vapor, da Revolução Industrial. Seus próprios textos são verdadeiros documentos desses processos evolutivos da época, inclusive seus contemporâneos o liam avidamente para terem acesso a esses registros, pois eram registros probatórios das injustiças sociais. Por citar, invariavelmente, a primeira Revolução Industrial, os descasos trabalhistas eram sempre delatados por Dickens, como vimos em nosso percurso contra as crianças e contra as
mulheres. Muitas delas chegavam a morrer de fadiga por terem trabalhado horas a fio, sem qualquer momento de descanso, refeições dignas e condições mínimas de trabalho.
Portanto, se algo moveu esses dois escritores, que desfrutaram de imensa popularidade e prestígio ao longo de quase toda a vida, foi precisamente o ideal de Justiça, a polifonia denunciativa das mazelas sociais: corrupção política, corrupções financeiras, desigualdades sociais, exploração infantil. De tal modo essa era uma característica intrínseca a eles, que Dickens tem o reconhecimento desse caráter denunciativo em sua lápide, na Abadia de W estminter, (entre Shakespeare e Fielding) onde se lê o epitáfio anônimo que o descreve: “Amou o pobre, o miserável e o oprimido”.
Dickens não lutava contra o seu país, contra a própria Inglaterra, mas estava sim em guerra permanente contra os maus ingleses, contra os atos de injustiça, contra as desigualdades sociais, as formas de opressão e de violência. Ele percorreu todo o Reino Unido e o retratou. Primeiramente, na imprensa e, depois, em volumes que foram sendo sucessivamente reimpressos. Nesses retratos, as classes trabalhadoras e suas miseráveis condições de vida foram denunciadas por ele.
Karl Marx reconheceu em seus escritos uma latente e iminente revolução proletária. Dickens e Marx escreviam na mesma época, na mesma cidade a respeito das mesmas consequências do capitalismo, da injustiça e das violências resultantes do sistema.
Através das narrativas de Dickens temos a demonstração das relações de poder nas obras A Christimas Carol, Oliver Twist, Great
Expectations e Hard Times, por exemplo. Esse universo social é
descrito por Dickens e teorizado por Karl Marx, especialmente no clássico O Capital. Ambos estudaram e refletiram sobre os defeitos e doenças do sistema capitalista, o sofrimento das classes inferiores de uma Europa em processo de industrialização.
Observando a figura de Scrooge e de Oliver Twist, Dickens com a sua sensibilidade artística consegue retratar fielmente o século XIX inglês através de seus enredos, enquanto que Marx expôs as razões
econômicas e sociais para o desmoronamento do sonho capitalista que terminou levando à alienação das massas.
Nunca outro escritor teve a recepção que Dickens gozou por toda a Europa e Estados Unidos. Neste país, por exemplo, várias vezes, não dispunham de um local que comportasse todos os que desejavam escutá-lo nas leituras de seus textos ou em suas palestras. Era um viajante incansável. Atravessou duas vezes o Atlântico para palestras nos Estados Unidos.
Em Dickens não ocorre uma elaboração das personagens, eles são, apenas são ou estão. Essas personagens, na verdade, são meros elementos a serviço das narrativas e Dickens apenas os reproduz como “figuras”, como meios para os percursos narrativos, são mitigados à mera figuração mecânica – ao contrário do que ocorre em Dostoiévski e Balzac, nos quais os personagens “funcionam” como seres “animados” e em Dickens como seres estáticos e figurativos.
Suas obras e as tragédias da sua vida são a explicação de seu sucesso, de público e crítica.
Enfim, Dickens e Ramos apresentam o macro e o micro, as tensões existentes nas interações dos “destinos” pessoais e de questões sociais, as “convulsões sociais” e as “convulsões pessoais”, os conflitos entre essas duas forças e seus antagonismos. O leitor é induzido a sentir todas as sensações dolorosas que as pressões e as forças sociais exercem sobre indivíduos, e como estes reagem e interagem a essas forças.
As mais diversas formas de opressão, de violência, de desprezo, de humilhações públicas foram, em vários momentos, desferidas a todos os personagens, inclusive contra as crianças, contra os nossos pequenos protagonistas. Vimos que muito comumente a infância era sempre tratada como um momento silenciado ou mesmo não percebido, como se as crianças fossem consideradas seres “menores”: O próprio Oliver Twist – e as demais crianças dos asilos de Londres à época - era tratado como uma mercadoria, um produto vendável. E Dickens demonstrou muito bem o uso das crianças como mão de obra, em fábricas da Londres recém industrializada. Entre tantas situações
vexatórias, lembremos da humilhação de comer “os restos que se puseram de lado para dar ao cão” e Oliver comia com avidez, além de dormir “entre caixões de defunto”.
Um traço muito forte em Ramos e Dickens são os nomes que os personagens recebem. Em Dickens, os nomes que eram dados às crianças pobres que chegavam ao asilo obedeciam a um protocolo de nomeação dos “enjeitados”. São nomes demasiadamente populares e como vimos nunca elevavam as crianças, ao contrário hiperbolizavam características más de cada um.
Em Ramos, os nomes atribuídos às crianças por batismo ou alcunha, denotavam relações de opressão e desvalia social ou de faculdades pouco desenvolvidas da psiquê de cada um. Para os dois autores, os nomes dados aos personagens ressaltavam reiteradamente uma característica que se quereria apagar ou deixar intocada. Vale dizer que a opressão se revelava desde um mínimo detalhe e passava a representar um personagem por si só. Esse recurso é validado pelos dois romancistas: reduzir as personagens a fragmentos de gente, uma transfiguração metonímica da parte pelo todo é o ponto de destaque de nosso estudo.
Como vimos, a opressão e a exploração diminuem os personagens constantemente na literatura desses dois escritores. Os personagens são esvaziados, exauridos no pouco que têm. As sucessivas situações opressivas vão tornando as figuras humanas em figuras miniaturizadas. Elas (as opressões) promovem uma gradual decadência dos seres: degradação física, moral ou psicológica, esvaziamento psíquico dos personagens, a ausência de referências para as crianças, enfim. Os indivíduos são levados a uma inconsciência de si mesmos. Daí o uso de personagens infantis ou infantilizados, nas obras dos dois autores, pois como já vimos, a criança se diverte com isso, ela esquece e rememora
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