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Segundo alguns analistas políticos, a eleição para a presidência da Câmara dos Deputados em fevereiro de 2005 revelou um dos momentos de maior desarticulação interna do Partido dos Trabalhadores, onde a cúpula, acusada de autoritária, e a base não conseguiram chegar a um consenso mínimo capaz de indicar um candidato do governo para a disputa do cargo.

Entre os nomes indicados pela bancada do partido para concorrer à presidência da Casa, e submetidos à apreciação de seus membros, o mais votado foi o de Virgílio Guimarães, com 47 votos. Luiz Eduardo Greenhalgh foi o terceiro mais votado, com 39 votos. Embora o nome de Virgílio tenha recebido maior aceitação entre os deputados da base, a escolha do partido foi por Greenhalgh, que foi apresentado como candidato oficial.

Não satisfeita com a indicação, parte da base governista resolveu manter a candidatura de Virgílio Guimarães15, promovendo um momento inusitado na história da Câmara, onde dois candidatos do partido de maior bancada se apresentaram como concorrentes na disputa pelo cargo de Presidente da Casa.

A desarticulação interna do partido governista é um dos fatores apontados como responsáveis pela força adquirida pelas candidaturas avulsas, como a de Severino Cavalcanti, que até então era considerada inexpressiva.

Cinco candidatos participaram da disputa para a presidência: Luiz Eduardo Greenhalgh (PT), Vírgílio Guimarães (PT), Severino Cavalcanti (PP), José Carlos Aleluia (PFL) e Jair Bolsonaro (PFL). A força assumida pela candidatura de Severino Cavalcanti só foi percebida com o resultado da votação em primeiro turno, de onde saíram o seu nome e o de Luiz Eduardo Greenhalgh, com 124 e 207 votos respectivamente.

14Dados Revista Veja edições nº 08, 23 de fev. de 2005; nº 36, 07 de set. de 2005; nº 37, 14 de set. de

2005 e nº 39, 23 de set. de 2005; Folha Online 14 de fev. de 2005, disponível em:

http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u67177.shtml. Acesso em 12 de junho de 2005.

15Dados de uma pesquisa realizada pelo instituto Sensus em janeiro de 2005 já demonstravam que o

candidato oficial do governo Luiz Eduardo Greenhalgh, tinha desvantagem diante do candidato Virgílio Guimarães e aquele perderia para todos os candidatos, inclusive para Severino Cavalcanti (Fonte: Revista Veja nº 08, 23 de fev. de 2005).

Com o resultado “inesperado” do primeiro turno, iniciou-se uma intensa negociação tanto da ala do PT que apoiava a candidatura de Greenhalgh, quanto de Severino, ambos empenhados em angariar os votos dos deputados. Sem apoio expressivo dentro do próprio partido, Severino Cavalcanti foi pessoalmente responsável pelas negociações em favor de sua eleição.

No Partido dos Trabalhadores, parte da cúpula, incluindo vários ministros, se empenhou na vitória do candidato oficial, além deles, o Ex-Presidente da Câmara, João Paulo Cunha (PT-SP) assumiu a coordenação de campanha de Greenhalgh. Os esforços do governo não geraram os ganhos esperados.

Severino Cavalcanti foi eleito Presidente da Câmara com 300 votos contra 195 de Luiz Eduardo Greenhalgh, 12 votos a menos do que os obtidos no primeiro turno. Primeiro candidato independente eleito para a presidência da Câmara dos Deputados16, ele ganhou o poder de controlar as votações e a agenda da Casa17, além de ser o segundo homem a substituir o Presidente da República na sua ausência.

Com o resultado da eleição, o PT ficou sem representação na Mesa Diretora, cuja distribuição dos cargos entre os partidos pode ser observada no quadro abaixo:

Quadro 1 – Distribuição dos cargos da Mesa Diretora da Câmara dos Deputados, 2005

Cargo Deputado Partido

Presidente da Mesa Severino Cavalvanti PP

1º Vice-Presidente Thomaz Nono PFL

2º Vice-Presidente Ciro Nogueira PP

1º Secretário Inocêncio Oliveira PMDB

2º Secretário Eduardo Gomes PSDB

3º Secretário Nilton Capixaba PTB

4º secretário João Caldas PL

Fonte: site da câmara dos deputados:www.camara.gov.br

16 O anexo II apresenta um quadro sobre o perfil político de todos os presidentes da Câmara dos

Deputados ao longo do Império e da República.

A passagem de Severino pela presidência da Câmara foi rápida. Pouco mais de sete meses depois de assumir o cargo, o então Presidente renunciou, sob a denúncia de corrupção. Severino foi acusado de ter recebido propina do concessionário de um restaurante da Câmara, o empresário Sebastião Augusto Buani, entre os anos de 2002 e 2003, período em que exercia o cargo de primeiro-secretário. Estima-se que Buani tenha pago 120.000 reais pela prorrogação da autorização de funcionamento do seu restaurante até 2005.

A denúncia envolvendo o nome de Severino chegou a imprensa no início de setembro de 2005, e em menos de um mês ele renunciou ao cargo, que foi assumido interinamente pelo primeiro Vice-Presidente, o deputado José Thomas Nonô (PFL-AL). Como foi dito anteriormente, o Regimento Interno prevê que em caso de vacância do cargo, novas eleições devem ser convocadas em um prazo de cinco sessões, durante esse período o governo estabeleceu como prioridade a retomada do comando da Casa.

O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva se envolveu pessoalmente nas negociações em favor da eleição do candidato do governo Aldo Rebelo (PC do B-SP), a fim de evitar que a presidência da Câmara fosse ocupada pela oposição. O Palácio do Planalto promoveu uma grande mobilização de ministros, prefeitos e lideranças partidárias na articulação para angariar votos em favor de Aldo.

Às vésperas da nova eleição, o coordenador político do governo, Jaques Wagner, chegou a enviar Ministros de Estado ao Congresso Nacional, com o objetivo de negociar com suas respectivas bancadas, dentre eles: Walfrido Mares Guia (Turismo), do PTB; Márcio Fortes (Cidades), indicado pelo PP; e Alfredo Nascimento (Transportes), do PL.

Após uma disputa acirrada no segundo turno, o deputado Aldo Rebelo (PC do B- SP), tornou-se o 104º Presidente da Câmara dos Deputados ao derrotar o candidato da oposição, José Thomaz Nonô (PFL-AL), por 258 votos a 243.