CHAPITRE 3 DÉMARCHE DE CONCEPTION DU LOGICIEL
3.2 Problématiques de conception
3.2.10 Conception de l’aspect dégressif du SPhone
Em nosso cotidiano temos a tendência de querer viver em um mundo de certezas e de solidez. Adotamos cotidianamente a crença de que as coisas são exatamente como as vemos. E para alguns, somente há uma alternativa correta, uma perspectiva de visão verdadeira. Mas, como conhecemos o que conhecemos?
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Maturana e Varela pensaram sobre esta questão em seu clássico A Árvore do
Conhecimento, livro em que defendem a tese que o mundo não nos é pré-existente,
nós o criamos à medida que interagimos com o mundo de forma coletiva. Os autores argumentam que não se pode tomar o fenômeno do conhecer como se houvesse „fatos‟ ou
objetos lá fora, que alguém capta e introduz na cabeça. A experiência de qualquer coisa lá fora é validada de uma maneira particular pela estrutura humana, que torna possível „a coisa‟ que surge na descrição. (MATURANA & VARELA, 2001, p. 31).
O conhecer depende da estrutura do sujeito que conhece, e o modo de conhecer se enraíza no ser, em função de sua organização. Embora os seres vivos sejam diferentes em suas estruturas, são iguais em temos de sua organização
autopoiética, que os caracterizam como seres autônomos. O que é peculiar para os
seres vivos, afirmam eles, é sua organização ser tal que seu único produto são eles mesmos.
Donde se conclui que não há separação entre produtor e produto. O ser e o fazer de uma unidade autopoiética são inseparáveis, e isso constitui seu modo específico de organização. (MATURANA
& VARELA, 2001, p. 57).
Uma Teoria do conhecer para os autores deveria ser aquela em que o próprio fenômeno do conhecer gera a pergunta que leva a conhecer. A Teoria de
Santiago, como ficou conhecida a tese de Maturana e Varela, dispensa ponto fixo ou
qualquer ancoragem para afirmações de validade. Os autores explicam que não é possível entender o funcionamento do nosso sistema em sua dinâmica estrutural quando supomos, simplesmente, que há um mundo fixo e objetivo. Por outro lado, quando não afirmamos a objetividade do mundo corrremos o risco do puro relativismo, e fica complicado compreender como a nossa experiência se acopla ao mundo.
Os biológos chilenos se afastam tanto do idealismo como do objetivismo, afirmando a regularidade do mundo sem quaisquer referências independente de nós mesmos, que forneçam garantias de estabilidade absoluta. Para eles o mundo que construimos cotidianamente é uma mistura de regularidade e mutabilidade, típico da experiência humana. Segundo afirmam, o conhecer não se dispõe como uma árvore como
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um ponto de partida sólido, que cresce gradualmente até esgotar tudo o que há para conhecer. Assemelha-se mais à situação do rapaz na „Galeria dos Quadros de Escher‟9, que reproduzo
abaixo:
2 - Galeria de Quadros, de M. C. Escher
Se abrimos mão da atitude de simplesmente aceitar nossa capacidade de conhecer como algo dado a priori, e nos perguntamos como isso é possível, então adentramos na possibilidade ou não das explicações sobre a experiência. É o que propõem Maturana e Varela. Para eles o conhecimento do conhecimento nos obriga a abrir mão das certezas e da crença de que elas são provas de verdade obrigando-nos a pensar o mundo que cada um vê, como um mundo, e não, como o mundo.
Habitualmente nos acostumamos a traduzir a percepção como capacidade de captarmos uma realidade externa a nós, mediante um processo representacional. Em geral, tanto a neurologia como a psicologia conotam a percepção como a
9 Maurits Cornelis Escher nasceu no final do século XIX e foi um artista gráfico holandês e era conhecido pela
execução de transformações geométricas (isometrias) nas suas obras e por suas xilogravuras, litografias e meios- tons que tendem a representar construções impossíveis, preenchimento regular do plano, explorações do infinito e as metamorfoses - padrões geométricos entrecruzados que se transformam gradualmente para formas completamente diferentes. (Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Maurits_Cornelis_Escher.).
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capacidade do sistema nervoso de um organismo computar objetos externos, a partir da captação de informações por seus órgãos sensoriais, em sua interação com o meio. Para Maturana esse modo de compreender a percepção, para além de um valor metafórico ou didático, revela uma postura epistemológica implícita com alguns pressupostos. Primeiro, a existência de uma realidade externa e independente do organismo; segundo, o observador é capaz de conhecer essa realidade como resultado de suas interações com ela; e terceiro, as categorias descritivas utilizadas em suas explicações, tais como: objetos, relações, estrutura, pertencem a essa realidade, e não ao que o observador faz ou diz.
Ocorre que se alteramos a biologia do organismo, se alteramos a sua estrutura, também alteramos a sua percepção. Daí é que Maturana se pergunta: se a
captação de informação depende do instrumento, que base temos para afirmar que aquilo que o instrumento mostra é algo que podemos dizer ser uma característica de um objeto independente desse mesmo instrumento? (MATURANA, 1999, p. 69). Para Maturana o operar de um
sistema nervoso capaz de captar informações e formar uma representação do meio revela um paradigma explicativo inadequado em termos biológicos e epistemológicos, porque pressupõe que as mudanças sofridas por um organismo em sua interação com o meio são determinadas pelo meio.
Segundo afirma Maturana, o meio não especifica o que acontece em um sistema vivo, e sim, desencadeia, em sua estrutura, mudanças determinadas por sua própria estrutura. Há uma congruência estrutural do organismo com o meio, de cuja conservação depende a própria vida do organismo. Ora, se o organismo é um sistema determinado estruturalmente, então, é o próprio organismo quem determina qual configuração estrutural do meio desencadeia ou não, em si próprio, alguma mudança estrutural, em sua interação com o meio. Portanto, é impossível para um observador caracterizar tal configuração estrutural, independentemente, ao que se passa ao organismo, em consequência de sua interação com o meio. Um observador somente pode caracterizar alguma contingência como sendo algum objeto para o organismo, isto é, algo independente dele, através das mudanças de
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condutas que ocorre em função de alguma perturbação. Para Maturana, a palavra percepção consiste na configuração que o observador faz de objetos perceptivos, mediante a
distinção de cortes operacionais na conduta do organismo, ao descrever as interações desse organismo no fluir de sua correspondência estrutural com o meio. (MATURANA, 1999, p.
72).
Há uma harmonia entre o organismo e o meio configurada no fluir de mudanças estruturais do organismo na conservação de sua adaptação, da qual depende essa correspondência estrutural organismo-meio. Esse fluir se aplica também a nós humanos! Para Maturana a explicação da percepção no contexto do
determinismo estrutural dos sistemas vivos invalida qualquer tentativa de dar conta do fenômeno da cognição (incluindo a linguagem) com noções que implicam a denotação ou conotação do domínio da realidade independente das distinções do observador. (MATURANA, 1999, p. 67).
Por fim, Maturana nos apresenta algumas implicações dessa noção de percepção em termos epistemológicos. A primeira é a impossibilidade da distinção que comumente fazemos sobre ilusão e percepção. Se concebemos a percepção como capacidade de captar a realidade fora e independente do observador, decorre disso, que a ilusão seria uma experiência que se vive como se fosse uma percepção decorrente de uma conexão inadequada com a realidade externa. Ocorre que, constitutivamente, não há essa captação. A distinção entre ilusão e percepção se dá somente em referência a uma outra experiência, diferente da que se qualifica com essa distinção, argumenta Maturana.
Na verdade, a segunda implicação disso, é que o mundo dos objetos perceptivos que flui na convivência dos organismos, incluindo o próprio observador, somente são objetos perceptivos quando são configurados pelas condutas dos organismos, quando operam conservando sua correspondência estrutural mútua. Tanto é assim, argumenta o biólogo, que o mundo em comum surge na e pela comunidade do viver. Esse mundo de objetos perceptivos se configura em função da linguagem, que por sua vez, implica em um modo de viver na recursividade de coordenações de condutas, próprias da comunidade do viver.
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Em função disso é que Maturana afirma que o mundo das descrições e explicações do
observador é um mundo de modos de convivência gerador de objetos perceptivos, o qual o observador surge como um deles ao surgir na linguagem. (MATURANA, 1999, p. 73).
E por fim, ainda, o biólogo esclarece que o fato de cotidianamente manejarmos na linguagem objetos como sendo entidades estruturalmente independentes do observador, não contradiz essa explicação dada à percepção. Isso porque os objetos surgem com a linguagem, e em função disso, consistem em coordenações de ações em uma comunidade de observadores, configurando uma espontaneidade do fluir das nossas experiências em sua coerência operacional intrínseca. Nestas circunstâncias, esclarece ele, o determinismo estrutural que respeitamos e
utilizamos em nossa explicação pertence ao operar com objetos perceptivos como expressão das coordenações operacionais da experiência do observador, e não viola as condições epistemológicas de nossa explicação, nem valida um acesso a uma realidade independente. (MATURANA, 1999,
p. 74).
Para responder à pergunta “como é que conhecemos?” é preciso, pois reconhecer
que nós humanos somos o que somos, ao sermos seres humanos, argumenta Maturana (2009). Ora se aceitamos que nossa capacidade de conhecer não é algo dado a priori, então, precisamos de uma explicação. Explicar implica propor uma reformulação da experiência que queremos explicar de forma aceitável para o nosso interlocutor. É o que nos diz o autor acrescentando que nenhuma proposição explicativa é uma explicação em si, mas depende da aceitação do observador, que pode aceitar ou rejeitar uma explicação.
Com essas argumentações Maturana busca separar duas atitudes em relação ao observador e sua capacidade de conhecer, que para ele, se mostram como dois caminhos de reflexão, bem como, dois caminhos de relação humana. Diz ele, se não
nos fazemos a pergunta pela origem das capacidades do observador, nos comportamos, na verdade como se tivéssemos a capacidade de fazer referência a entes independentes de nós, porque não
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dependem do que fazemos.(MATURANA, 2009, p. 42). A este caminho explicativo, o
chileno chama de Caminho da objetividade-sem-parênteses.
Por outro lado, quando aceitamos a pergunta pelas origens da possibilidade de conhecer estamos, no caso, aceitando as perguntas: como é que posso, como
observador, fazer as afirmações que faço? Como é que posso dar-me conta, se é que me dou conta, do que realmente é, e também equivocar-me? Maturana esclarece que ao aceitarmos tais
perguntas, reconhecemos que se alteramos a nossa biologia, também alteramos nossa capacidade cognitiva de conhecer. Em sua explanação do assunto o biólogo distingue o erro da mentira. Quando dizemos: cometi um erro, no momento em que afirmei o que agora considero um erro, aceitava a afirmação honestamente como válida, algo que agora reconheço que não é assim. Dessa forma, o erro ou o equívoco, são sempre a posteriori. Isso ocorre porque o erro é, na verdade, uma experiência desvalorizada em função de outra que se considera, indubitavelmente, válida.
Nesta altura Maturana se pergunta como se dá o erro. Essa é uma questão interessante em função da hipótese de se considerar que temos a capacidade de acesso a uma realidade independente de nós, na observação ou reflexão. O biólogo argumenta que não é possível para nós distinguirmos entre ilusão e percepção na experiência. Diz ele, Ilusão e erro são qualificativos que desvalorizam uma experiência a
posteriori por referência a outra experiência que se aceita como válida: a pessoa não se equivoca quando se equivoca. (MATURANA, 2009, p. 44). E se assim o é, a questão sobre o
que conotamos quando falamos de conhecer, se torna premente.
Com essa indicação da impossibilidade de distinguirmos entre erro e ilusão na experiência humana Maturana nos convida a colocarmos a objetividade entre parênteses no processo de explicar. Com isso ele apresenta um segundo caminho, distinto do primeiro – a objetividade-sem-parêntese. Neste caminho explicativo operamos na aceitação que existe uma realidade independente de nós que valida
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nosso conhecer e nosso explicar, e que fundamenta a universalidade e objetividade do conhecimento.
No caminho explicativo da objetividade-sem-parêntese sou sempre irresponsável na negação do outro, pois é „a realidade‟ que o nega, não eu; no caminho explicativo da objetividade- entre-parêntese ninguém está intrinsecamente equivocado por operar num domínio de realidade distinto do que eu prefiro. Se outro ser humano opera num domínio de realidade que não me agrada, posso opor-me a ele ou ela, posso inclusive fazer algo para destruí-lo ou destruí-la, mas o farei não porque o mundo que ele ou ela traz consigo esteja equivocado num sentido absoluto ou transcendente, mas porque este mundo não me agrada. (MATURANA, 2009, p. 50).
Quando, ou talvez seja melhor, se operamos no caminho explicativo da
objetividade-entre-parêntese não há verdades absolutas, nem verdades relativas, e muitas
verdades convivem em domínios distintos. Contudo, isso instala desconforto ao destituir-nos a posse de um saber como verdade objetiva irrefutável. E retorno ao comentário do professor Diatahy em sala de aula sobre a ciência quando afirmava que “o que institui o saber é um ato de poder”. Ao comentário, poderíamos acrescentar:
um ato de poder que se firma em suposta posse da verdade. O professor fala de instituição de saber, cujo condicionante é a “posse” da verdade que será sempre uma suposta posse. Neste ponto, a postura epistemológica em coerência com o seu fazer, é imprescindível para um agir ético. Para o biólogo o fato de saber que sabemos nos leva a uma ética, cujo ponto central é:
(...) assumir a estrutura biológica e social do ser humano equivale a colocar no centro a reflexão sobre aquilo de que ele é capaz e que o distingue. Equivale a buscar as circunstâncias que permitem tomar consciência da situação em que se está – qualquer que seja ela – e olha-la a partir de uma perspectiva mais abrangente, a partir de uma certa distância. Se sabemos que nosso mundo é sempre o que construímos com os outros, cada vez que nos encontrarmos em contradição ou oposição com outro ser humano com o qual desejamos conviver, nossa atitude não poderá ser reafirmar o que vemos do nosso próprio ponto de vista. Ela consistirá em apreciar que nosso ponto de vista é o resultado de um
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acoplamento estrutural de domínio experiencial, tão válido quando o de nosso oponente, mesmo que o dele nos pareça menos desejável. Caberá, pois a busca de uma perspectiva mais abrangente, de um domínio experiencial em que o outro também tenha lugar e o qual possamos construir um mundo juntamente com ele. (MATURANA & VARELA, 2001,
p. 267-268).
O fazer científico é uma atividade humana exigente, não somente em termos cognitivos, mas em termos sócio-afetivos porque se trata não só de construir, elaborar, criar algo, mas também envolve se deparar com perguntas do tipo, por que faço, para quem faço, em benefício do quê, ou de quem, faço.
Maturana nos apresenta ricas ideias sobre o conhecimento e sua possibilidade em termos da nossa biologia argumentando que o mundo que temos resulta de uma cocriação, em que o ser e o fazer, em função de nossa organização autopoiética, são inseparáveis porque se fazem em acoplamento estrutural entre o nosso organismo e o meio em que vivemos. Logo, o conhecimento não tem nenhum ponto de partida sólido que se expande e se acumula. Maturana nos trouxe valiosas contribuições para nos compreendermos como humanos no processo de construir conhecimento, mas o que dizer deste mundo que co-criamos? Como compreender um mundo em que não nos separamos dele? Como conceber a realidade de maneira a não fragmenta-la nos separando dela? Não se trata como vimos de negar a objetividade do conhecimento, tampouco, cair no relativismo.