Porque as Regras eram, por vezes, demasiado vagas, bem cedo, na Idade Média, apa- receu a necessidade de as completar e adaptar. Desde S. Bento de Aniano se sentiu essa necessidade de reunir tradições, usos e costumes. Nasceram, assim, as Consuetudines, ou Costumeiros, a descrever o modo de vida que se vivia nos mosteiros, no que toca à disci- plina e à liturgia.
327LECLERCQ, Jean – L’amour des lettres et le désir de Dieu. Initiation aux auteurs monastiques du Moyen Age. Paris: Cerf,
Por vezes, são classificados como Prescritivos, isto é, documentos normativos. É o caso da compilação do monge Bernardo, de Cluny, em 1060, os de Fruttuaria, século XII, na Itá- lia, de Fleury, século XIII, todo esse complexo conjunto de normas, quase necessárias para reger a vida dos mosteiros no seu dia a dia, e que CCM nos transmitem328.
Segundo este critério, temos de contar ainda com os Statuta, como os de Cluny, pro- mulgados por Pedro Venerável, em 1125, ou os Capítulos Gerais da Ordem de Cister.
Podem os costumeiros ser mais liberais, e reflectir o modo próprio de ordenar a vida num mosteiro, sem qualquer ideia de imposição a outros mosteiros. São então, opções aceitáveis, Costumeiros Descritivos ou Narrativos, com as práticas optativas, que consti- tuem as observâncias tradicionais dum mosteiro, e que podem ser transmitidas a outro mosteiro, caso dos Costumes de Udalrico de Cluny, no século XI, transmitidos ao Mosteiro de Hirsau329. Neste campo, é célebre o Costumeiro de Fleury, composto pelo monge Teo-
dorico (Thiérry).
É o caso dos costumes de Cluny transmitidos a Farfa (Liber Tramitis), ou dos «Eccle- siastica Officia» da Ordem Cisterciense. São adaptações da Regra, a mostrar que os costu- mes monásticos são uma realidade viva, que tem em conta os tempos e os homens, e que, portanto, são apenas descritivos, por mais que possam dirigir a observância dos monges e, até, transmitir-se a outros mosteiros. Neste caso, podemos apontar o célebre Costumeiro de Pombeiro, mosteiro do Entre Douro e Minho, Norte de Portugal, mas que veio de Espa- nha ou França e com influências de Cluny330.
Não raro, a literatura hagiográfica ou biográfica dos monges também nos transmite costumes praticados por eles ou nos seus mosteiros. Caso curioso é o de, em alguns mos- teiros, os monges, no fim das refeições, quase varrerem as mesas no seu lugar e apanharem as migalhas do pão. Tal costume parece derivar dum passo da vida de Santo Odão, †942, abade de Cluny331.
Conclusão
Foram, pois, os beneditinos cluniacenses e cistercienses e os restantes movimentos centrífugos, juntamente com os mosteiros femininos de observância cluniacense ou cister- ciense, que passaram da Idade Média até à reforma católica do Concílio de Trento (1545- -1563) e à descoberta dos Novos Mundos o testemunho vivencial do monaquismo na Igreja católica.
328DONNAT, Lin – Les coutumiers monastiques. Une nouvelle entrepriseet um territpoire nouveau. «Revue Mabillon», Nova
Série. III: 64 (1992), 5-21.
329Udalrici Consuetudinees Cluniacenses, «PL», CXLIX, 643-778.
330LENCART, Joana – O Costumeiro de Pombeiro. Uma Comunidade Beneditina no século XIII. Lisboa: Editorial Estampa,
1997. (Colecção «Histórias de Portugal», 35.)
É certo que houve uma crise do monaquismo beneditino entre o século XI-XIII332, com o aparecimento do «monaquismo novo», uma espécie de crise por concorrência, como manda a lei da vida, e não por degradação disciplinar. Mais tarde, entre os séculos XIII e XVI, a crise foi pior, sobretudo por causa das crises da Igreja e introdução da prática da Comenda ou dos Abades Comendatários. Alheios quase sempre à vida monástica, reti- nham 2/3 dos rendimentos da Mesa Abacial e deixavam os monges à míngua com o redu- zido terço da Mesa Conventual, o que acabou por arrastar o monaquismo para grave crise institucional e disciplinar.
O aparecimento das Ordens Mendicantes corresponderá a uma nova situação da sociedade, aberta às cidades, ao comércio e ao dinheiro, a exigir, portanto, uma nova ati- tude espiritual e, por consequência, uma resposta religiosa consentânea com o modo de viver urbano, que o monaquismo antigo já não podia dar.
Em Portugal, embora se discuta a anterioridade e primazia do mosteiro de Tarouca333 sobre Lafões, o que é absolutamente certo é que Alcobaça teve uma importância singular desde que D. Afonso Henriques, por carta de 8/IV/1153 passada a S. Bernardo, coutou o terreno para o novo mosteiro334. Chegou a ser grande e poderosa a Congregação de Santa Maria de Alcobaça, formada em 1567, englobando mosteiros masculinos e femininos cis- tercienses até à extinção das Ordens Religiosas em 1834335. Mas bem depressa chegaram também as Ordens Mendicantes, que assumiram um papel mais activo e motivador junto das populações das cidades e das vilas. O monaquismo continuará como carisma religioso dentro da sociedade cristã, mas sem aquela força motriz e influente que o tornara omni- presente na Idade Média Europeia.
332CANTOR, Norman F. – The crisis of Western Monasticism, 1050-1130. «American Historical Review». 66 (1960-61);
LECLERCQ, Jean – La crise du monachisme au XIèmeet XIIèmesiècles. «Bollettino dell’Istituto Storico Italiano per il Medioevo».
70 (1958), 19-41; VAN ENGEN, John èmeThe crisis of cenobitism – reconsidered . Benedictin monasticism in the years 1050-
-1150. «Speculum». 61 (1986), 269-304.
333DIAS, Geraldo J. A. Coelho (direcção científica) – Cister no vale do Douro. Porto: GEHVID/ Afrontamento, 1989; MAR-
QUES, Maria Alegria F. – A introdução da Ordem de Cister em Portugal; VÁRIOS AUTORES – La introducción del Cister en
España y Portugal. Burgos: Editorial La Olmeda, 1991, 163-193.
334GONÇALVES, Iria – O Património do Mosteiro de Alcobaça nos séculos XIV e XV. Lisboa: Universidade Nova, 1989. 335COCHERIL, D. Maur – Routier des Abbayes Cisterciennes du Portugal. Paris: Fundação Calouste Gulbenkian/Centro Cul-
Do século XIII ao século XVI, o monaquismo enfrentou graves dificuldades institu- cionais e uma dolorosa crise disciplinar. Por parte da Igreja Católica, nunca é demais lem- brar os problemas, as angústias e dificuldades causadas pelo Grande Cisma de Avinhão, a concorrência das Ordens Mendicantes, e as consequências que de tudo isso derivaram. Os monges referem ainda o estabelecimento da Comenda por parte dos Papas, isto é a entrega de igrejas, abadias ou mosteiros a senhores, reis, clérigos e leigos, que, a pretexto de defen- der os mosteiros postos sob a sua mão, se abocanhavam a si e aos seus familiares com os rendimentos dos mosteiros.
Todavia, muitas críticas se podiam fazer ao monaquismo. Martinho Lutero (1483- -1546) foi o porta-voz mais saliente das críticas severas ao monaquismo e à vida religiosa, no período anterior ao Concílio de Trento (1545-1562), apesar de ter professado como Eremita de Santo Agostinho, portanto, numa Ordem Mendicante. Inicialmente, mesmo depois da Confissão de Augsburgo (1517), ainda manteve uma atitude positiva em face da vida religiosa e monástica. Num sermão de 1519 sobre o Baptismo ainda recomendava a vida religiosa consagrada. Pouco a pouco, porém, foi mudando a sua perspectiva teológica, conhecedor, como era, aliás, da disputa entre Franciscanos «Observantes» e «Conven- tuais», quando estes temiam os excessos da ascese e do rigorismo dos Observantes.
Os Franciscanos viveram em divisões, até que o Papa Leão X (1513-1521) pela Bula «Ite et vos» (1517), pôs fim às querelas da ordem e, afirmando a unidade da mesma, dis- tinguiu Conventuais, o ramo mais antigo, e Observantes. Todavia, só em 1897, o Papa Leão