Pois um acontecimento vivido é finito, ou pelo menos encerrado na esfera do vivido, ao passo que o acontecimento lembrado é sem limites, porque é apenas uma chave para tudo o que veio antes e depois (BENJAMIN, 1987, p. 37).
Ao analisar a trajetória da Escola Estadual Professor José Leme do Prado, foi possível compreender uma história multifacetada, e que terá seguramente outros desdobramentos, em análises e reflexões futuras. O percurso histórico da instituição e as memórias dos ex-alunos foram o fio condutor para a apreensão das dimensões educativas, sociais, culturais e simbólicas dos seus usos e apropriações. Essas dimensões marcadas por conflitos e relações de poder permitiram o embasamento no aporte teórico-metodológico da História Cultural. “E na Escola, sobretudo, há um campo aberto de possibilidades para a construção do conhecimento histórico, de uma história que dialogue com diferentes temporalidades. E, mais especificamente, no contexto histórico-educacional” (HADLER, 2007, p. 268).
A leitura dos periódicos, a análise das fotografias, a observação das plantas arquitetônicas e o diálogo com pessoas que viveram e estudaram em Valinhos estimularam a compor novas formas de olhar para a escola pública, à escolarização e à sociedade, bem como para escrever uma versão da história da instituição.
Nesse sentido, a existência de diferentes formas de apropriação do espaço escolar ao longo de sua trajetória, mostra indícios de que múltiplos fragmentos podem integrar a constituição histórica da instituição de ensino, sendo que cada um desses fragmentos pode ser o resultado de diferentes experiências vividas, formando diversas narrativas.
O entrelaçamento da dimensão física, ou seja, o espaço, o contexto e a estrutura arquitetônica do edifício estavam materializados na composição e nas preocupações sociais e políticas da época. Como também, da dimensão humana: os agentes, a relação entre professores, alunos, funcionários, as relações de poder, a participação da comunidade. Assim, uma instituição educativa vista como totalidade a ser construída, compõe sua própria identidade.
Para além da materialidade, a escola é um lugar de memória não apenas nos aspectos físicos e arquitetônicos. Embora estes aspectos fossem importantes, a
pesquisa abarcou as relações que as pessoas estabeleceram com a escola, bem como aquilo que ela representou na vida dos ex-alunos.
A par dessa busca, reportei-me aos periódicos locais. Considerei que tais publicações potencializaram e contribuíram para o entendimento de como a educação do munícipio era veiculada. Ainda, observei que esse tipo de impresso era marcado por uma espécie de propaganda do poder público da elite local. No transcorrer da pesquisa notei vários artigos cujo temas estavam relacionados à modernização urbana, ao comércio local, as indústrias, a política, a educação, a escolarização e a formação para o trabalho. Diante disso, os jornais se revelaram ferramentas importantes na investigação de um determinado tempo e contexto social, carregando em suas páginas indícios de práticas e modos de pensar relevantes.
Através de um breve estudo sobre cenário nacional nas questões relativas a política, como as implicações na implantação do regime militar e o controle do Executivo sobre os demais poderes. Bem como na educação, no que se refere a legislação educacional brasileira, que em consequência interfere nos estados e municípios, tendo como objetivo apreender possíveis particularidades locais.
Foi possível observar que as produções dos memorialistas analisadas a partir do entrecruzamento de vários aspectos que envolvem a realidade brasileira e italiana. Ao focalizar a importância da imigração, podemos perceber que o binômio desenvolvimento e progresso estava baseado na narrativa da vinda de imigrantes.
Nesse período, as construções escolares ficaram a cargo do governo estadual pelo IPESP, houve algumas transformações na concepção estrutural dos prédios escolares, mediante a um projeto gerido em meio ao fim do Convênio Escolar e a criação do FECE, arquitetado na elaboração de um plano de ação. O processo de planejamento, convênio com o estado, confecção das plantas arquitetônicas, leis, atos e decretos foram feitos pelas autoridades da cidade de Valinhos e do estado de São Paulo. No encalço dessas contribuições o Segundo GE de Valinhos foi projetado, construído e inaugurado na década de 1960, tornando evidente a relação entre a lógica política, econômica e educacional.
Analisar a história da escola a partir de fotografias pressupõe indícios para refletir sobre como as práticas foram se constituindo na escola estabelecendo novos comportamentos e percepções sociais. A fotografia na temática escolar envolve a imagem produzida pela escola e sobre a escola, abrange as atividades ali
desenvolvidas, mas fundamentalmente estabelecem uma relação de identificação entre o aluno e a instituição.
Atentei para as imagens como representações, testemunhas de uma época e documento histórico quando revela valores, costumes, sentimentos de um certo período, especialmente a fotografia na área da educação, que permite a leitura dos vestígios.
Ao tratar da escola, os ex-alunos localizam nessa instituição práticas que valorizavam um conhecimento não somente acadêmico, pautado pela memorização verbal e rigidez pelo conteúdo ensinado, haviam práticas relacionadas a vida cotidiana como, por exemplo, educar, trabalhar e produzir. Pois, a escola teria como mote a instrução e a formação de cidadãos “conscientes” de seus muitos deveres.
No entanto, eles recordam também de professores que desenvolviam de práticas diferenciadas, como as aulas de teatro, que os incentivavam a adentrar em um ambiente de muita leitura e interpretação, dando um novo significado ao aprendizado.
O relacionamento com os professores era visto pela maior parte dos ex- alunos como de amizade e comprometimento, embora eles percebiam estar vivendo em um período em que algumas coisas ficavam sem dizer, havia de certa forma uma resistência, pois estavam conscientes das grandes questões educacionais e eram influenciados pela família a terminarem os estudos. Muitos concluíram o ensino médio e o superior.
A pesquisa evidencia, ainda, a multiplicidade de fatores envolvidos no contexto escolar e social. Os relatos sugerem as condições sociais que atuaram, nas constituições educacionais singulares sobre a época em que viveram, amigos que tiveram, episódios acidentais ou não, interações pessoais, sucesso escolar, papel da família, entre outros.
Dessa forma, a escola é o espaço onde os estudantes podem não apenas aprender, mas ter uma formação, despertar seus interesses, socializar, desenvolver habilidades, relacionadas à cultura. Em outras palavras, a escolarização é um processo construção.
Acreditar na possibilidade que o modelo de escola possa desaparecer é uma realidade, pois ela está sendo ameaçada de muitas maneiras. Não os edifícios escolares que foram construídos, nem mesmo as novas construções, mas o engessamento das concepções. De fato, quase todas as pessoas ainda frequentam a
escola. Os problemas estão as vistas, muitas escolas estão superlotadas, há falta de vagas e de políticas públicas efetivamente voltadas para o interesse da maioria da população, como também faltam professores nas salas de aula, materiais didáticos e estruturas físicas adequadas. Além disso, certamente, em razão dos problemas apontados, a instituição de ensino, parece estar constantemente sob ameaça.
E, mesmo assim, esses ataques não são novos, ao longo da história, a escola tem sido confrontada com as tentativas de subjuga-la, porém, os esforços são mais perigosos hoje do que no passado. Portanto, é necessário resistir e lutar contra essas estratégias e táticas que atingem o projeto da escola pública. Defendê-la e, por conseguinte, melhorá-la é primordial.