Imaginário é uma força atuante no mundo das idéias e da representação mental das imagens e parte do pressuposto de que todo pensamento humano é representação que passa pela mediação simbólica. Neste sentido, o imaginário constitui uma energia que se formaliza individual e coletivamente, materializando-se em ações informadas por imagens e símbolos. Portanto, desvendá-lo significa revelar o substrato simbólico das ações concretas dos atores sociais, tanto no tempo como no espaço, ou seja, a conexão do imaginário e do simbólico se faz também no território (CASTRO, 1997).
Para BOURDIEU (1989), língua, dialeto ou sotaque são objetos de representações mentais que, juntamente com a cultura, constituem o poder simbólico, e este, por sua vez, permite a criação do imaginário social. O poder simbólico dos atores sociais impõe legitimidade de reconhecimento do território por meio da objetivação das representações do mundo social e da produção cultural ou ideológica. Na procura dos critérios objetivos de
92 identidade regional ou territorial, não se deve esquecer que na prática social estes critérios (a língua, o dialeto ou o sotaque) são objetos de representação mental de atos de percepção, de apreciação, de conhecimento e de reconhecimento; também devem-se considerar as representações objetais em coisas (emblemas, bandeiras, insígnias, templos, a própria natureza, etc.) em que os atores sociais investem os seus interesses ou estratégias interessadas de manipulação simbólica, que têm em vista determinar a representação mental para a busca do imaginário social objetivado (BOURDIEU, 1989).
Impor a legitimidade de reconhecimento do território, necessariamente, perpassa pela objetivação65 do discurso regionalista ou territorial. BOURDIEU (1989) considera que o poder simbólico contribui para o discurso dos rituais institucionais e que seu peso no processo decisório e nas diferenciações sociais e espaciais é algo evidente. Portanto, qualquer enunciado sobre território funciona como um argumento que contribui favorecendo ou não sua existência e reconhecimento, e este reconhecimento se manifesta com maior intensidade com a consolidação do imaginário social. Há de se destacar a relevância do discurso regionalista performativo66 nesta leitura geográfica do território. Para evidenciar este raciocínio, tem-se a formação do território da Amazônia Legal, que se configura geograficamente por um discurso regionalista que visava a reconhecer o seu território e construiu uma territorialidade chamada Amazônia Legal. Os lemas “Marcha para o Oeste”, “Integrar para não Entregar” e “Terra sem homens para homens sem terra” representam uma das dimensões deste discurso regionalista performativo. Em outras palavras, pode-se dizer que este discurso é forjado por um governo com forte preocupação com a geopolítica do território brasileiro e, neste contexto, a construção do “espaço geográfico instrumentalizado” da microrregião de Rondonópolis-MT constitui um reflexo deste discurso.
O discurso regionalista e territorial é um discurso performativo que tem em vista impor como legítima a definição das fronteiras e dar a conhecer e fazer reconhecer o território, instituindo assim uma identidade territorial. Esse discurso performativo é um instrumento que enuncia os interesses culturais, políticos e ideológicos dos atores sociais para o reconhecimento de um determinado espaço geográfico enquanto região ou território propriamente dito. Mas o efeito de conhecimento exercido pela objetivação no discurso não depende apenas do reconhecimento consentido por aquele que o detém; ele depende também
65 Nas correntes dialéticas contemporâneas, o processo pelo qual a subjetividade ou consciência humana se
corporifica em produtos avaliáveis para ela e para os outros como elementos de um mundo comum.
66 Performativo: em que há performance (espetáculo); diz-se de verbo cujo emprego numa sentença cria uma
força ilocucionária pela qual a enunciação da sentença em questão representa o ato descrito no verbo ( ex.: declarar, solicitar, prometer). Raiz etimológica: performative (1950-1955), to perform ‘executar, realizar, levar a cabo; desempenhar (como ator, como jogador, músico, dançarino etc.)’.
93 do grau em que o discurso anuncia à comunidade territorial a sua identidade, o qual deve estar fundamentado na objetividade dos atores sociais a que ele se dirige (BOURDIEU, 1989).
As representações mentais e objetais proporcionam a construção do imaginário social por intermédio do discurso, que pode ser tanto político como ideológico. Se o imaginário social se evidencia por um discurso político67, é coerente afirmar que o imaginário social se desdobra em imaginário político e ambos em sua matriz territorial, por serem construídos pelas informações da Geografia dos Lugares. O imaginário social como força instituidora do imaginário político tem o território como locus por excelência de sua materialização, observa CASTRO (1997).
Neste particular, a dimensão política é o meio de controle das paixões humanas e, na política68, quando paixões transformam-se em interesses, a relação afetiva com o espaço também participa desta mudança. O espaço contém símbolos do imaginário social e é um componente deste imaginário, tanto em sua dimensão emocional como material. Por isso, um campo de disputa entre interesses privados ou de atores sociais no território no qual há evidência do espaço como referente da ação política, pelos conteúdos materiais e simbólicos, tem papel relevante nas decisões políticas. O elo afetivo entre a pessoa e o lugar como componente do imaginário social e das paixões constitui relações sociais e estas, por sua vez, são territorializadas. Neste contexto, pode-se considerar imaginário político e território como termos que possam articular-se coerentemente, quando a política é considerada como controle das paixões humanas e o território como suporte material para a convivência (CASTRO, 1997).
Quando se trata da idéia de imaginário político no território, convém lembrar que o imaginário político e a natureza encontram-se entrelaçados em situações concretas, o que explica questões-chave tanto da representação territorial da política como do sentido dos seus discursos e das bandeiras regionalistas ou territoriais. A relação entre a natureza e o imaginário político busca compreender formas possíveis de utilização da natureza na construção do imaginário coletivo de uma sociedade e visa à instrumentalização deste imaginário para ações de base política no seu território. Tornar a natureza um recurso político supõe não apenas sua utilidade, mas a forma como ela é percebida coletivamente. Na Geografia, há forte consciência do poder simbólico do território, estabelecido pelos seus
67 COSTA (1992) afirma que, atualmente, as nacionalidades modernas tendem a transformar valores culturais em
movimentos políticos.
68 Para WEBER (2002, p. 60), política é o conjunto de esforços feitos visando a participar do poder ou a
influenciar a divisão do poder, seja entre Estados, seja no interior de um único Estado. A busca da simpatia do adversário é a tentativa de articular forças políticas em prol da construção de um empreendimento, significa fazer política.
94 conteúdos materiais, pela sua natureza, todos portadores de significados, algumas vezes múltiplos e identificáveis pelos utilizadores dos lugares. Desse modo, o local se torna lugar porque o imaginário político se torna imaginário territorial, e este se alimenta do imaginário político-geográfico. CASTRO (1997) ressalta que há neste processo, portanto, uma forte interdependência socioespacial objetivada no imaginário social de conteúdo político e territorial.
A relação entre o imaginário político e o territorial, ao longo da história, tem assumido diferentes formas de racionalidade e de objetivação, como por exemplo os recursos disponíveis no espaço geográfico como suporte para a sobrevivência ou para o processo de desenvolvimento econômico e, mais especificamente, para o crescimento econômico, como é o caso do cerrado da microrregião de Rondonópolis-MT. Para a objetivação do imaginário, as imagens do espaço geográfico são relevantes, e elas são construídas socialmente sobre os recursos ambientais, que constituem a base fundamental do imaginário social e recurso para a retórica ou para a ação política no território. Neste aspecto, convém lembrar que as visões particulares da natureza, seja o possibilismo lablachiano ou as correntes deterministas da Geografia como a ratzeliana, sempre alimentaram concepções políticas e deram importante contribuição aos seus discursos (CASTRO, 1997).
A natureza como recurso político torna-se um capital político que, é na verdade, uma forma de capital simbólico (BOURDIEU, 1989), firmado na crença e no reconhecimento coletivo de um dado território ou, pelo menos, o capital político e simbólico que se fixa territorialmente, numa determinada porção do espaço geográfico, num dado período histórico.
O caso do clima semi-árido nordestino tem sido visto como a causa principal dos problemas da região e utilizado nos discursos das elites locais para obter maiores benefícios junto ao governo federal, afirma CASTRO (1997). Essa idéia de clima semi-árido faz parte de um imaginário regional e até nacional que revela uma percepção na qual o determinismo da natureza está implícito: trata-se de um território condenado à pobreza pela sua natureza difícil de ser domada. No caso da microrregião de Rondonópolis-MT foi diferente: o discurso político-ideológico das elites locais (“burguesia do agronegócio”) direcionou-se no sentido de tornar o potencial econômico do cerrado “domesticado” e mecanizado da região um recurso político para a retórica e ação política como instrumento para a busca do crescimento e desenvolvimento econômico. Com esse discurso, as elites locais procuram construir um imaginário social a partir da ideologia desenvolvimentista, colocando em pauta que a nova fronteira agrícola mecanizada no cerrado, indiscutivelmente, proporcionará o desenvolvimento e o crescimento econômico da microrregião.
95 Nos últimos anos, criou-se na microrregião de Rondonópolis um imaginário de região do progresso, principalmente em relação à cidade de Rondonópolis, considerada a “cidade rainha do capital do agronegócio nacional”. Os meios de comunicação constituem instrumentos eficazes na condução e criação deste imaginário, conforme demonstra reportagem veiculada em 08/10/2004 pela Rede Globo de Televisão, transcrita a seguir.
“Há 30 anos, quem falava em plantar soja no Mato Grosso era tido como louco”, lembra Dario Minoro Hiromoto, diretor da Fundação Mato Grosso. Loucura é o que se vê de cima. Tudo o que se planta na região de Rondonópolis, em Mato Grosso, dá e multiplica. As lavouras verdinhas de soja e as de algodão, que estão em época de colheita. Um Brasil gigante, que conquistou o mundo. Rondonópolis é a cidade de Mato Grosso que virou a capital do agronegócio. Para lá, vai gente dos quatro cantos do país. Na região, a prosperidade brota da terra. Além da soja, tem as lavouras de algodão, que são as mais produtivas do país. As fazendas foram transformadas em grandes empresas rurais. Só uma propriedade emprega 260 pessoas. “A gente vê que aqui as oportunidades são bem maiores e os salários giram em torno de R$ 7 mil. Temos casa, transporte e alimentação de graça”, conta o engenheiro agrônomo Élcio Cardoso de Oliveira. "Ganho cerca de R$ 1 mil por mês. Tenho carteira assinada e, quando posso, faço hora extra”, diz o operador de máquinas José Maurício Araújo. “Sei que cerca de 80% do algodão que eu colho vão para o exterior. Para os Estados Unidos, Austrália, esse mundão aí", comenta ele. O que transformou o cerrado das árvores tortas em um grande celeiro para o mundo foi a pesquisa. A busca por eficiência no campo fez com que a Associação dos Produtores de Sementes de Mato Grosso (Aprosmat) montasse um laboratório, que já é o maior da América Latina em volume de análises. No centro são analisadas 7 milhões de sacas de soja por safra e são selecionadas as melhores sementes, que vão gerar lavouras produtivas e colheitas recordes. "Aprendi como fazer nascer a soja, o arroz, o algodão. Estava desempregada há uns setes meses. Consegui passar no treinamento e ficar. Por isso, o serviço está sendo muito gratificante. Acho que também vai abrir portas futuramente”, avalia a funcionária Maria Divina dos Santos. "As distâncias hoje se encurtaram. Sinto falta dos grandes centros, mas ela é compensada em função da comunicação rápida. Estamos em um mundo online", ressalta o gerente de recursos humanos Nereu Bavaresco. Um novo mundo no coração do Brasil. Rondonópolis já tem 170 mil habitantes. Cidade com cara de futuro. (Texto do site www.globo.com/globoreporter, baixado em 28 de abril de 2005 e exibido na edição de 08/10/2004)
Para GOETTERT (2000), em Rondonópolis-MT, a partir dos anos 70, criou-se um imaginário social do desenvolvimento e do crescimento econômico de uma região de prosperidade, do futuro, que tem por finalidade explícita inculcar o reconhecimento da ideologia desenvolvimentista como um dos parâmetros para a definição do seu território. Uma das hipóteses deste trabalho pressupõe que a formação do território da microrregião de Rondonópolis-MT pode ser explicada a partir da materialização deste imaginário social. Um dos ingredientes que proporcionou a criação deste imaginário social é o sotaque sulino, que tem importante contribuição na formação territorial e é um traço cultural forte no estado, principalmente nas cidades de intensa imigração sulina como Campo Verde e Primavera do Leste, além de Rondonópolis.
96 Seguindo essa linha de raciocínio, o regionalismo ou o nacionalismo é uma das particularidades das lutas propriamente simbólicas em que os agentes estão envolvidos, quer individualmente e em estado de dispersão, quer coletivamente e em estado de organização; o que está em jogo é a conservação ou a transformação das relações de forças simbólicas ligadas às manifestações simbólicas (objetivas ou intencionais) da identidade social, segundo BOURDIEU (1989). Não se deve esquecer que estas relações de forças simbólicas estão inseridas num contexto maior juntamente com as relações sociais, e estas, por sua vez, pressupõem relações de poder, que não se encerram somente no poder simbólico, mas no poder político, econômico e ideológico. Além do mais, inquestionavelmente, não se pode negar a contribuição das relações sociais de produção no processo de territorialização, o qual é consubstanciado pelas relações sociais, como querem os marxistas, mas, querendo ou não, essas relações sociais são constituídas de elementos ideológicos, políticos, econômicos e simbólicos.
Percebe-se ainda que por detrás deste imaginário social está implícita a idéia de determinismo geográfico, o qual está inserido nos discursos das elites, como é o caso referido da seca do Nordeste. Dentre outras correntes geográficas pode-se destacar o economicismo, que procura não reconhecer outras determinantes da ação social a não ser as que estão visivelmente inscritas nas condições materiais de existência. É preciso romper com o economicismo marxista ou qualquer outro, que reduz o processo de regionalização ou o processo de territorialização apenas aos fatores econômicos e não reconhece a contribuição que o poder simbólico tem na formação territorial. Explicar a realidade por meio das relações de produção econômica ignorando os diferentes campos e subcampos, sobretudo as relações de produção cultural territorial, parece constituir uma postura teórico-metodológica reducionista da realidade concreta.
Por outro lado, não se pode negar que os poderes simbólicos e político-ideológicos são cristalizados no acontecer das relações sociais, pois o indivíduo é um ser social e, como tal, está inserido num meio social em que o poder se evidencia nas relações sociais. O próprio Karl MARX contribui para a compreensão deste raciocínio quando afirma que a materialidade social faz parte de uma ideologia que é uma das formas da práxis social, aquela que, partindo da experiência imediata dos dados da vida social, constrói abstratamente um sistema de idéias
ou representações sobre a realidade (CHAUÍ, 1984).
Do ponto de vista da sociedade tecnológica ou do conhecimento, como diz DRUCKER (1998), no conceito de social há que incluir a dimensão cultural-simbólica que tem a ver com significados, sentidos e representações de caráter social, quando se trata do desenvolvimento
97 de uma prática direcionada à difusão/adoção da tecnologia. Esta difusão acaba se materializando socialmente, mesmo quando os agentes não tenham consciência dela. No simbólico, encontra-se o núcleo mais importante de mudanças (aceitação ou resistência) derivadas da introdução ou adoção de novas tecnologias. Mas estas novas tecnologias sempre trazem mudanças no meio social, impondo sua própria racionalidade, porque a sua racionalidade é mais forte do que a racionalidade da cultura popular, pelos menos temporariamente. Nestas circunstâncias, as tecnologias instituem valores que se desdobram em ingredientes simbólicos ligados ao valorativo, àquilo que reputa como bom ou como mau, que tem caráter normativo da conduta social, portanto, as tecnologias interferem na formação do universo do simbólico (VILELA et al., 1995).
Trazendo esta discussão para a área em estudo, percebe-se que a difusão e adoção de novas tecnologias em Rondonópolis é algo muito cristalino nas feiras tecnológicas, as quais fazem com que, cada vez mais, o produtor se torne dependente dessas tecnologias. A “burguesia do agronegócio” vê na tecnologia um símbolo do progresso. No fundo, a tecnologia condiciona a formação de valores sociais como, por exemplo, a troca do machado pelo trator, a troca da enxada de carpir pelos herbicidas (substância empregada na destruição de ervas daninhas).
Diante do exposto acima, conclui-se que os atores e agentes sociais que detêm o domínio do território se apropriam das condições naturais como atributo político para se reproduzirem socialmente. Mas esta afirmação é um pressuposto ratzeliano em que as condições naturais do meio aparecem como um dos fatores do progresso e potencializam a geopolítica territorial de um povo, de um Estado.
Para melhor visualizar o exposto acima, veja-se o fluxograma no 04 a seguir. O fluxograma representa as etapas do processo de territorialização desde as representações mentais e objetais do imaginário social ao imaginário territorial-político.
98 Fluxograma no 04. Etapas das representações mentais e objetais ao imaginário político- territorial.
Organizado pelo autor.