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Compte rendu des conventions hors subvention

O FA! nasceu a partir da proposta do SOS Corpo de uma formação política feminista com mulheres jovens e estudantes, e posteriormente, quando a organização anunciou que o processo educativo iria se encerrar, o grupo tentou seguir de forma autônoma. Baseado numa concepção político-pedagógica com foco na educação popular e no feminismo, o instituto defende a construção da autonomia nos seus processos educativos. Porém, isso não é algo simples, tendo em vista que as relações de poder envolvidas nas práticas pedagógicas feministas atuam em forma de rede na relação entre educandas, educadora e instituição (LOURO, 1997).

Na época em que o FA! estava em atividade algumas pessoas do movimento feminista nos chamavam de “as crias do SOS” e houve também quem nos chamasse de “as meninas de Carmen”. A companheira Bocão fala sobre seu incômodo diante disso:

Eu me lembro que era uma birra que eu tinha muito grande que era com o fato de muita gente achar limpeza a gente ser chamada das "meninas de Carmen". [...] Aí eu me lembro que a gente discutia muito sobre isso, né, sobre, eu dizia "meu irmão, a gente pode muito bem fazer os encontros sem necessariamente Carmen tá aqui mediando".

Bocão diz que nunca se sentiu uma “cria do SOS”, pois quando era mais jovem e estava entrando no feminismo vivenciou conflitos com a instituição em relação à questão geracional. Há algum tempo, porém, a coletiva48 da qual ela faz parte, a Marcha das Vadias

Recife, vem realizando várias parcerias com o SOS Corpo.

48 Alguns grupos feministas têm utilizado o termo “coletiva” ao invés de coletivo, para usar a linguagem no feminino.

As interlocutoras Iracema e Ventania trouxeram a reflexão sobre como a mediação no processo educativo do FA! pode ter afetado a construção da autonomia do grupo. Iracema afirma o seguinte:

Eu acho que a gente não precisava se confrontar com as nossas desigualdades e diferenças porque existia uma mediação. Então, eu acho que a gente falava de vários lugares diferentes, [...] mas a gente não precisava se confrontar com as nossas disputas, que são disputas também.

A fala de Ventania vai à mesma direção: “Tanto é importante a mediação, mas que, de certa forma, ela prejudica a autonomia. [...] Sem a mediação essa desigualdade surge e a gente não consegue dialogar, porque não construiu isso antecipadamente. Não foi um processo, foi tipo ‘txoma!’49”. As falas das companheiras remetem às dificuldades que vivenciamos no

processo de autonomização do FA!, quando tivemos que lidar com nossas diferenças, desigualdades, disputas e divergências sem ter construído um diálogo sobre isso anteriormente.

Carmen reconhece o seu lugar de poder na formação com o FA!, afirmando que esse é um elemento que não deve ser escamoteado, e sim enfrentado assertivamente:

Eu estava no grupo com uma condição de poder diferenciada. Quer dizer, eu era uma educadora, não uma educadora qualquer, mas uma educadora do SOS Corpo, que eu reconheço como uma instituição que tem bastante poder no interior do movimento feminista localmente, e que era reconhecido como esse lugar, e eu tinha uma, vamos dizer assim, determinada experiência e uma determinada conformação teórico-política que transcendia aquele espaço do grupo, né. Que as pessoas que participavam do grupo me conheciam de outros espaços que não são o espaço do grupo. Então esse é um lugar de poder, quer dizer, a relação pedagógica, por mais dialógica que ela possa ser, e de construção coletiva, ela pressupõe uma relação de poder.

Carmen fala sobre o lugar do SOS Corpo como “uma instituição que tem bastante poder no interior do movimento feminista localmente”, porém não é exagero afirmar que o instituto tem grande influência nos níveis regional, nacional e internacional. A questão do financiamento do projeto Cirandas também foi discutida nos grupos, porém numa dimensão mais micro, em relação, por exemplo, à ajuda de custo que recebíamos em cada encontro para o almoço, ou ao apoio financeiro que alguns coletivos tiveram, ou que nós mesmas do FA! tivemos para realizar ações nossas. Essa questão financeira muitas vezes foi motivo de questionamentos e tensões entre nós, devido a posicionamentos distintos. Sonia Alvarez (2014) traz observações sobre as contradições com as quais as ONGs lidam em suas práticas.

49 Gíria que reinventa a palavra “toma” (verbo “tomar” no imperativo). Utilizada com vários sentidos, nesse caso, está falando de algo brusco, abrupto.

Essas instituições se tornaram esteios e nós articuladores dos movimentos, devido ao nível de organização e capacidade maior ou menor de acesso a financiamentos.

Carmen avalia que em alguns momentos teve que lançar mão de seu lugar de poder enquanto educadora para reduzir o peso de poderes internos no grupo, já em outros se utilizou de técnicas para facilitar o processo de expressão de integrantes que tinham mais dificuldade. Ela relata que ocorreu também de ter que se abster de liderar processos de apoio a ações coletivas para preservar o protagonismo das participantes. No entanto, a sua presença foi muito forte durante todo o processo, inclusive na mediação de conflitos envolvendo diferentes coletivos. A sua presença é bastante marcante também na elaboração deste meu trabalho, seja através das referências a suas produções escritas, de seus depoimentos na entrevista ou nos vários auxílios que dela obtive para pensar e realizar o projeto. Ressalto que me utilizo também de referências teóricas de outras integrantes do SOS Corpo, como Silvia Camurça, Maria Betânia Ávila e Verônica Ferreira.

Os depoimentos das interlocutoras indicam os desafios que vivenciamos para a construção de autonomia no contexto da experiência do FA!. Para Paulo Freire (2006), a autonomia diz respeito a como o ser humano encontra a possibilidade de direcionar o rumo de sua própria história, a partir da consciência crítica das opressões. Autonomia é também a capacidade de aprendermos a dizer a nossa própria palavra, de assumirmos quem somos, sendo o oposto da heteronomia, ou seja, da dependência, da subserviência e da negação de si mesmx.

Uma reflexão que surgiu nos grupos focais, ligada à construção da autonomia em relação a instituições, foi a noção de que é importante firmarmos vínculos e alianças em campos que confiamos politicamente, mantendo a nossa liberdade de opinião e ação. Apesar de a formação com o FA! não ter tido, por parte do SOS Corpo, um direcionamento em relação à participação das educandas para as articulações que o insitituto faz parte, muitas de nós fomos nos envolvendo com esses espaços políticos. Se por um lado a formação não tinha esse direcionamento, por outro, éramos apresentadas e convidadas a participar de ações desses movimentos. Algumas de nós foram se identificando com as propostas e começaram, de fato, a participar desses espaços. Esta questão aponta para o poder de influência que essa formação promovida pelo SOS Corpo representa dentro do campo feminista.

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