Quem media o conhecimento é um ser humano especial, iluminado. Tem ele nas mãos o poder de lidar com outras pessoas que também sentem, refletem e buscam o conhecimento. Lidar diretamente com a transformação e, neste fazer, ter sua vida transformada todos os dias, é a rotina do professor formador. Defendo neste trabalho e na minha prática docente, à luz dos
teóricos que me inspiram e respaldam minhas convicções, o ensino, reflexivo, indagador e libertador. O ensino como preparação para a vida, como prática social que ameniza as reações interpessoais, que redimensionam o pensamento para uma visão de mundo menos tecnicista e artificial. Como podemos apreender das OCEM (2006),
Nesse sentido, o foco do ensino não pode estar, ao menos de modo exclusivo e predominante, na preparação para o trabalho ou para a superação de provas seletivas, como o vestibular. [...] Tampouco pode reduzir-se a um conjunto de atos de fala aplicáveis às diferentes situações de comunicação pelas quais um indivíduo pode passar, como também se chegou a pensar em algum momento de aplicação mais radical do enfoque comunicativo [...]. Por outro lado, ter consciência, entender e aceitar esses novos valores e crenças presentes em diferentes grupos sociais, distintos dos nossos em muitos aspectos, é imprescindível para que se efetive o que se vem chamando de comunicação intercultural (BRASIL, 2006, p.147-148).
A comunicação intercultural é o sentido que se atribui ao ensino que perpassa as questões de cunho político que regem os programas educacionais. A abordagem intercultural redimensiona a educação no sentido de moldar a prática, já que, “tal perspectiva configura uma proposta de ‘educação para a alteridade’, aos direitos do outro, à igualdade de dignidade e de oportunidades” (FLEURY, 2003, p. 17). Ainda de acordo com as OCEM (2006, p. 49),
Para que o ensino da língua estrangeira adquira sua verdadeira função social e contribua para a construção da cidadania, é preciso, pois, que se considere que a formação ou a modificação de atitudes também pode ocorrer – como de fato ocorre – a partir do contato ou do conhecimento com/sobre o estrangeiro, o que nos leva, de maneira clara e direta, a pensar o ensino do Espanhol, antes de mais nada, como um conjunto de valores e de relações interculturais (BRASIL, 2006, p. 49).
Este conjunto de valores e relações interculturais que envolve o ensino de uma LE, conforme apontado acima, indica que a prática de ensinar usufrui certo prestígio dentro do quadro sistemático de ensino. Isso se considerarmos a condição pedagógica que, naturalmente, é dada a nós, professores, de passearmos por múltiplas áreas do conhecimento. Ensinar espanhol, por exemplo, nos coloca em uma situação privilegiada, uma vez que nos possibilita a liberdade de tratar temas que vão muito além dos conhecimentos linguísticos ou gramaticais, como os conhecimentos históricos, geográficos, políticos, sócios culturais, entre outros.
Portanto, é muito importante, na verdade, imprescindível, que o professor esteja seguro do seu papel “pois é ele quem conduz o processo e orienta as experiências do uso da língua desenvolvidas em sala de aula” (MENDES 2008, p.59). Na verdade, esta é uma
questão clara no que concerne o ensino, uma vez que é o professor quem rege a ação, e, por isso, espera-se dele a preocupação para que a prática esteja voltada para o viés de uma educação que circule pelas diversas áreas do conhecimento e que neste passear, leve os alunos a refletir sobre o diferente, o estrangeiro, o “outro” e sobre si mesmo. Como reafirma Mendes (2008, p.59),
Qualquer abordagem de ensino, desse modo, convive com essa tensão entre o que desejamos e planejamos e o que conseguimos na prática realizar. A busca pelo equilíbrio entre teoria e prática, entre desejo e realização, entre o ideal e o factível tem sido a principal meta daqueles imbuídos na tarefa de ensinar línguas.
Essa disposição em refletir e repensar o ensino de LE é típico dos professores que já se encontram em processo de conscientização do que significa ser um profissional docente, dentro dos parâmetros que englobam a responsabilidade da própria formação e, mais ainda, ser um professor intercultural, a partir do que entendemos por esta prática e o que rege a epistemologia desta abordagem. Em ambos os casos, estamos envolvidos em um processo de extrema importância social, e como não pode deixar de ser, também pessoal, que representa um pensar e um penar, um constante “ir e voltar” nas reflexões que envolvem o lugar do “outro”, o respeito às diferenças e o trato com o “estranho”, como já sinalizei anteriormente.
Contudo, apesar da importância do discurso na defesa do ensino intercultural, é comum no âmbito escolar, entre colegas professores, o desgastado discurso, que muitos insistem em repetir, da incredulidade na educação e o descaso com o ensino. Importam a culpa de todos os problemas para o governo, instituição, família e sociedade e se esquivam de qualquer responsabilidade quanto à sua função de educar. Ao contrário disso, o professor intercultural, ainda que esteja ciente de todos os percalços que permeiam a educação, neste caso, linguística, e se empenhe na política por melhorias, acredita que pode fazer a diferença a partir do modelo de ensino que defende, porque não é uma ação forçada, é sua formação consciente que lhe dá segurança para ministrar um ensino onde está em jogo a formação intelectual e crítica de outra pessoa. Ou seja, o professor que, de fato, se compreende como intercultural, tem uma visão muito mais ampla do que significa ensinar e aprender.
Finda esta parte do trabalho, passo agora para o capítulo da pesquisa propriamente dita, onde, inicialmente, me dedico a falar um pouco mais sobre a estruturação e histórico do ENEM e, em seguida, procedo com as análises das entrevistas, das observações das aulas e das provas de espanhol aplicadas nos últimos cinco anos de execução do Exame.