Chapitre 5 : DIMENSIONNEMENT ET CHOIX DES COMPOSANTS
5.1. Hypothèses de calcul
Diante do ASII, o primeiro eixo ressaltou uma Afetividade Negativada, sendo apontadas palavras que sinalizaram para afetos densos e de diferentes matizes, como medo e ódio, tristeza e perplexidade, impotência e ignorância, inconcebível, podridão, desespero, desumano, vergonhoso. Com um número de recorrências muito inferior (09) foram indicadas expressões como amor, respeito, diálogo, valorização humana, cuja interpretação é desses elementos ausentes ou insuficientes. O número de palavras associadas revela sua importância, cujos significados foram aprofundados na 2ª fase da pesquisa.
Quadro 7:1º Eixo do ASII – Afetividade negativada
GRUPOS DE PALAVRAS N°
Medo (6) / Desamor (4) / Desrespeito (4) /Sofrimento (3) / Covardia (3) / Escandaloso / Indignação (2) / Inconcebível (2) / Inadmissível / Vergonhoso / Vergonha/ Absurdo (2) / Desprezível / Revolta / Ódio / Horrível (2) / Monstruoso / Monstruosidade / Difícil / Arrasador / Perplexidade / Ódio, por ser alguém que deveria cuidar / Ato de efeito avassalador / Desumano / Agonia / Tristeza (2) / Desespero / Podridão / Pior / Ainda mais grave / Dor (2) / Dor física / Insegurança / Solidão / Exclusão / Sem amor / Falta de afetividade / Falta de respeito / Impotência /
Ignorância (2) / Intolerância / Estupidez / Arrogância 65
Amor (3) / Respeito (3) / Valorização humana / Diálogo / Coragem 09 Nota: 74 palavras
Nas entrevistas, a tonalidade afetiva tensionada atravessou todas as falas, expressa nas pausas prolongadas, nas hesitações, no tom de voz trêmulo e angustiado, nos sorrisos tristes, nos distanciamentos e mudança de assunto, além dos conteúdos dos relatos. Os sujeitos demonstraram sofrimento significativo, não só pelas crianças vítimas do ASII, mas por eles próprios, tanto pelo impacto que o fenômeno causa neles (educadores), como pela impotência diante do que percebem e do que não conseguem fazer.
Os sujeitos ao se reportaram aos casos de ASII ora se implicavam, ora se distanciavam. Nesse sentido, as ambiguidades e contradições estiveram presentes em todos os discursos. Uma professora repetiu angustiada a dificuldade em suspeitar de abuso, parecendo desconhecer os diversos casos relatados por ela própria. Outra docente, com 22 anos de ensino, ao mesmo tempo em que se referiu ao ASII como “[...] uma coisa que acontece muito” e que a escola deveria ser um espaço para reunir os pais e debater o assunto, comentou que nunca teve conhecimento de nenhum caso. Porém, em seguida, passou a narrar, com evidente dificuldade, a passagem abaixo:
Não, primeiro que você fica... quando você sabe, assim, de algum caso... quando você sabe de algum caso... aqui, né, porque eu trabalho [também] na escola do Estado ... Mas isso faz tempo. Então, assim, tinha lá uns alunos... corria o boato, parece que eles... parece que eles, era... contaram a algum professor ou alguém que o pai... quer dizer, já mocinhas, né? Aqui eu nunca soube nada, aqui na escola se houve... Eu não sei nem como... Na época eu perguntei... [Interrompe a fala e a
pesquisadora pede para esclarecer] Não sei na época, assim, se a diretora chegou a
conversar com alguém, que faz algum tempo, lá na outra escola. Aqui na escola eu nunca soube nada, não. Mas você sente uma... vamos dizer, a possibilidade disso acontecer na família. Você acha uma coisa, assim, como que... Meu Deus!... e eu pensava que isso era impossível, a gente imagina que isso era impossível. Então você fica assim abismada, pensando assim “Meu Deus, essa família, quais são os valores?” “O que é que o pessoal não entende o que é ser pai, o que é ser mãe, o que é ser tio...” Então, você fica assim meio perdida, não é, quando sabe de uma situação dessa, horrorizada! Horrorizada diante de uma situação, não é? E você fica sem entender como pode acontecer, né, como pode acontecer... (Eulália)3.
O impacto diante do tema mostrou-se tão intenso que atropelou a expressão verbal da docente. Fragmentos de lembranças, fugas no esquecimento, reminiscências perdidas de um tempo distante e a tentativa de se distanciar projetando para algo incerto e sem nome: a possibilidade disso acontecer na família.
Consideramos que o ASII pareceu abalar as crenças na família sacralizada. Ora negando ora admitindo, os sujeitos buscaram preservar o modelo de família harmônica, demonstrando dificuldade em contrapor-se ao sentido hegemônico que a concebe como espaço de amor e proteção.
A raiz sócio-histórica dessa concepção de família remonta à Modernidade que salientou a função afetiva e alterou o modo de relacionamento de seus integrantes, com cuidados especiais dirigidos à criança, conforme menciona Ariès (2006).
Por outro lado, as docentes entrevistadas expressaram sentimentos de desamparo, por não saber o que fazer e a quem recorrer. A angústia apareceu por acreditarem que não ajudaram ou que fizeram pouco, ao mesmo tempo em que externaram o medo pelas repercussões da denúncia. Mesmo sem muita clareza sobre o que fazer, as professoras percebiam o distanciamento entre o compromisso ético que as impelia para uma tomada de decisão mais efetiva e a prática real, em que buscaram justificar seu comportamento de omissão devido ao temor de sofrer possíveis retaliações. A profª Augusta, por exemplo, ao rememorar sua vivência diante de um relato de abuso repetia diversas vezes a pergunta: “O que é que eu vou fazer?”. Diante de suas lembranças, a profª Hilda reiterava angustiada: “Eu não ajudei, eu não fiz nada”. As contradições e tensionamentos, entremeados de sofrimento, emergiram com facilidade, como vemos nos trechos selecionados:
3
Foi muito difícil pra mim. Meu Deus do céu, eu não posso ser indiferente a uma situação dessa, mas ao mesmo tempo eu também tenho medo, entendeu? [...] De qualquer forma tô envolvida porque ela me procurou. Segundo ela, ela não tinha contado pra ninguém. Então vê a situação, né, que eu fiquei... O que é que eu vou fazer? (Augusta).
Sentimentos... [pausa] Nossa!... Um sentimento... de desestrutura, né? A gente fica totalmente abalada. A gente aqui trabalha com crianças... Então a gente fica totalmente desestruturada. É, é... Realmente, é um tema muito forte, né, muito forte. Então nem sei te dizer, não sei te dizer. Espero não ter nenhum caso [riso
tenso], me aposentar e não ter nenhum. Assim, espero! (Diná, tem menos de 1 ano
de exercício docente).
[Senti-me] impotente. Eu acho que não fiz nada... achava que tinha alguma coisa estranha, me desesperei e não fiz nada, porque... o percurso que eu tomei, não levou a nada. E eu, depois de tudo isso, cruzei os braços e não fui adiante. Então, não fiz nada. Eu própria não fiz nada! [tom de voz mais alto e angustiado] (Hilda). Eu acho que passa um pouco pela impotência que a gente tem, né, diante do fato. Tem coisas que você... [...] Eu não fico omissa não, entende? Não é do meu feitio ficar omissa, não. [...] Agora, a gente se sente impotente, né? Quando você não pode fazer nada... Você sozinha não pode. É complicadíssimo, e diante da violência que a gente tá vivendo atualmente. [...] Eu acho que é... é até perigoso!
[riso nervoso] Porque eu conheço professores aqui que já foram ameaçados de
morte... nem por isso, por outra coisa bem menor, entende? É muito complicado essa coisa aí... de.. esse... esse problema social é muito sério, sabe? (Gilda).
Compreendemos que na ausência de um preparo técnico e pessoal, esses sentimentos podem influenciar negativamente na atuação frente aos casos de ASII, por não favorecer a tomada de decisão e o enfrentamento corretos da problemática, acarretando sofrimento ao docente e a permanência da criança na situação abusiva. Furniss (2002) salienta o impacto que a suspeita e/ou revelação do ASII provoca nos profissionais que trabalham com a criança. Bassols et al. (2011) relatam experiência de atendimento a vítimas de ASII e suas famílias no Rio Grande do Sul e abordam a importância de um trabalho interdisciplinar e intersetorial com reuniões conjuntas e elaboração de estratégias para definição das ações. Segundo esses pesquisadores, lidar com a própria reação ao ASII é um dos principais desafios do profissional, porque
Os sentimentos mobilizados são intensos, e vão desde intensa raiva do abusador até sentimentos de impotência frente ao caso; desde incerteza quanto ao abuso nos casos suspeitos e sentimentos de medo por ameaças feitas pelo abusador até raiva da família, por não acreditar na criança e não oferecer proteção adequada (BASSOLS et al., 2011, p. 73).
Enquanto comentavam a respeito do ASII na interface com a área educacional, a maioria dos sujeitos ressaltou a falta de apoio e de valorização social da função docente. Uma educadora expressou sinais significativos de desconforto emocional pela sobrecarga de
atribuições, que, em algumas situações, é ainda acrescida pela necessidade de atuação diante do ASII. O discurso desta professora foi semelhante ao de muitos educadores presentes em um evento de apresentação do PEVS-Recife, no qual a pesquisadora esteve presente e fez registros no diário de campo. Vejamos um trecho da entrevista:
A gente responde pelos níveis de alfabetização do país. E é a nossa... é da nossa competência, é o nosso trabalho. Mas o nosso trabalho esbarra num desajuste, e a criança deixa de frequentar a aula. Então, nós somos cobrados pela presença dessa criança... Como eu vou atrás dessa criança? Então eu aciono o Conselho Tutelar... e a criança não volta. Mas eu continuo respondendo por isso. Então eu sou acusada de não motivar o meu aluno pra estar em sala de aula. Eu sou acusada por não alcançar o nível de alfabetização e letramento. Por não capacitar esse aluno para a vida, pra exercer sua cidadania... [...] Eu não tenho condição! [voz embargada, tom
angustiado e mais alto, como se fosse chorar].
Eu tenho... essa turma em especial que eu estou acompanhando este ano, quase que eu procuro terapia. Assim, se eu não me cuidar, eu vou pirar. Cem por cento são repetentes... Fora as crianças que têm necessidades especiais. [...] Na minha sala tem criança usuária de droga. É... Nesta sala eu recebi alunos não alfabetizados. Alguns com idade muito avançada. [...] E eu me senti muito impotente. Eu não podia dar conta do meu aluno que é envolvido com droga. Dar conta do menino que eu achava que estava passando por abuso. Dar conta da criança que é abandonada pela mãe, que a mãe se manda, tá sendo perseguida porque é traficante e tal. Dar conta do meu aluno que é especial e precisa. [pausa] Eu não dou conta de tudo isso. E eu querendo, sabe...? Eu tenho, eu tenho que, eu tenho, tenho, tenho... [...] No dia que eu ia prá sessão [acompanhamento na área de saúde], eu só fazia chorar [balança a
cabeça em desalento]. [...] É muita coisa pra gente dar conta. Não dá! (Hilda).
Esse recorte ilustra um quadro que se convencionou chamar de mal-estar docente. Dourado (2001, p. 51) define-o como sendo “[...] resultante dos efeitos das condições psicológicas e sociais, nas quais a docência é assumida englobando questões como formação, prática, identidade e carreira profissional, dentre outras”, podendo gerar absenteísmo, desejo ou efetivo abandono da profissão, pouco envolvimento com a ação pedagógica e/ou repercussões negativas sobre a saúde dos profissionais.
Entendemos que esse quadro mantém imbricações com referenciais socioculturais e políticos que são importantes para sua contextualização. Sabe-se que a situação dos professores no Brasil, principalmente os do ensino básico, é caracterizada, entre outros aspectos, pelo exercício de uma função de pouco prestígio social, com baixos salários e condições de trabalho precárias. Além disso, a ruptura do pacto social, que atinge a sociedade brasileira como um todo, afeta também a escola, colocando em xeque a autoridade do professor, assim como a função da escola, ora vista como indispensável, ora desvalorizada (CRUZ; SANTOS, 2009). Ao mesmo tempo, a insuficiente apropriação dos professores quanto ao conhecimento e reflexão dos aspectos sociopolíticos e econômicos que permeiam a educação dificulta concebê-la como espaço de transformação social (GIROUX; MCLAREN,
2009; PARO, 2001) e o estranhamento diante da diversidade cultural dos alunos (CORTESÃO, 2005; RESENDE, 1998) agudizam as dificuldades sentidas pelos docentes na sua prática profissional. Além disso, a escalada da violência, que Almeida (2006) denomina como “violência difusa”, vem espraiando-se em todo o tecido social, ameaçando a todos pela imprevisibilidade das formas de expressão, local, alvo e fonte, sendo outro elemento importante para a compreensão do quadro descrito acima.
Nesse sentido, a abordagem do ASII no contexto educacional é sentido pelos professores não só como uma sobrecarga de atribuições, mas principalmente acarretando um enorme impacto emocional em um campo já bastante tensionado.
Na formação das representações sociais, Joffe (1995) ressalta o papel do afeto, argumentando que as respostas emocionais não são produzidas por indivíduos isolados, mas engendradas coletivamente. Fenômenos sociais que impactam os grupos possibilitam a criação de representações sociais, posto que “objetos sociais estranhos evocam medo, porque eles ameaçam o sentido de ordem das pessoas e sua sensação de controle sobre o mundo” (JOFFE, 1995, p. 298).
Nesse caso, diante da afronta à interdição histórica do incesto e considerando as questões discutidas anteriormente, para os sujeitos, o ASII provoca uma fissura na ordem do mundo social, emergindo sentimentos e sensações como medo, indignação, perplexidade, dor e insegurança, impulsionando-os a buscarem uma explicação, construindo e compartilhando significados para que possam nomear e agir sobre essa realidade.
Assim, a partir desses resultados, podemos dizer que a representação social do ASII pelos professores foi associada aos afetos negativados que expressam a dor pela violência sofrida pela criança, assim como expressa os sentimentos de desamparo que assolam os docentes, uma vez que estes se sentem impotentes para reagir. Com isso, parece eclodir um sentimento de culpa dos docentes por não se perceberem protegendo essas crianças, o que pode contribuir para a intensidade com que projetam ou atribuem o ASII ao descaso das famílias pobres que, de acordo com os sujeitos, vivem em um meio social permeado por violência, desatenção e promiscuidade.
6.2.2 Culpabilização
O 2º eixo do campo semântico teve 130 recorrências que apontaram para um sentido de culpabilização, com os sujeitos destacando o ASII como uma manifestação da violência, associado a um tipo de família caracterizada como desestruturada, pertencente principalmente
às camadas pobres. Além disso, requisitaram instrumentos legais para punir os responsáveis e apoio do setor da educação, políticas públicas e sociedade civil para coibir o fenômeno, como aparece no Quadro 8.
Quadro 8:2º Eixo do ASII – Culpabilização
GRUPOS DE PALAVRAS N°
Desestruturação familiar (4) / Descaso (3) / Desestrutura / Falta de estrutura familiar / Muitos filhos / Valores familiares (estrutura) / Inversão de valores, princípios (agressor) / Rua (sem limites) / Muita troca de companheiro / Promiscuidade (ambiente familiar) / Abandono / Ausência materna / Ausência dos responsáveis / Irresponsabilidade / Perda de referência / Falta de Deus / Falta de religião/ Desproteção / Falta de atenção/ Quebra da confiança /Traição /A pessoa se prevalece do amor do outro/ Falta de relação familiar sadia / Não reconhecem a importância do fato / Falta de confiança / Segredo / Velado / Abaixo das suspeitas/ Família / Os membros familiares envolvidos / Convivência da família / Pai(s) (2) / Tios / Avós / Irmãos (2) / Padrastos / Outros familiares / Sem caráter /
Falta de princípios éticos e morais / Sempre acontece com os parentes femininos ou masculinos
47
Violência (14) / Violência sexual dentro de casa / Crime (6) / Criminoso / Agressão (2) / Violência praticado por parentes / Crime praticado por familiares / Abuso (alguém próximo) / Abuso dos pais / Abuso por vizinhos / Abuso por irmãos / Transgressão / Brutalidade / Crueldade / Aproveitadores da criança dentro da família / Incesto / Exploração / Necessidade de destruir o outro / Abuso de poder /Opressão /Poder / Ato de subjulgar para se satisfazer / Perda da infância (2) / Perda
44
Punição para a família (mãe/pai) /Punição mais severa / Punição severa / Sem punição /
Impunidade (2) / Acomodação / Falta de leis mais severas / Injustiça / Descobrir / DPCA / Estado / Justiça / Solução / Alguém tem que tomar providência / Envolvimento de todos / Apoio do governo / Apoio da sociedade / Assegurar a vítima, distância do agressor / Crianças precisam ser cuidadas / O direito da criança e do adolescente precisa ser exercido / Pais: precisam de acompanhamento
22
Camadas populares de baixa renda / Recursos financeiros / Realidade /Comunidade / Amigos, colegas / Acontece com mais frequência em famílias desfavorecidas/ Políticas públicas e escolas não preparadas/ Existe em nossa comunidade / Falta de acompanhamento das políticas sociais
09
Educação (3) / Informação / Informação (educação) / Falta de educação / Desinformação / Mídia (complemento à educação)
08 Nota: 130 palavras
Ao relacionarem o ASII à desestruturação familiar, os professores buscaram apoio nas explicações relativas às uniões instáveis, ao número elevado de filhos e à ausência de familiares que se responsabilizem pelos cuidados das crianças. Além disso, eles atribuíram um sentido de promiscuidade, apontando que nessas famílias há muita troca de companheiro, ocasionando falta de cumprimento das obrigações familiares pelo descaso e abandono. Os sujeitos sinalizaram, ainda, os vínculos familiares entre quem abusa e a vítima: membros familiares envolvidos, pais, padrastos, tios, avós e irmãos, reforçando a noção de ASII como uma violência encoberta, de difícil identificação e intervenção por se constituir como um segredo, velado, abaixo das suspeitas.
Nas entrevistas, foi possível aprofundar a compreensão desses significados. As docentes contextualizaram o ASII em um cenário de relações familiares marcado pela violência, desproteção e perdas de referência, contrapondo-o à família e à infância idealizadas. Elas destacaram, ainda, a ausência de responsabilidade, de compromisso e de
respeito às crianças por parte dos genitores, a falta de noção do que é ser pai e ser mãe, abordando que os familiares não acompanham o desenvolvimento dos filhos e não alicerçam vínculos afetivos positivos.
Essa crença é abordada por Cruz e Santos (2008) que confirmam que no senso comum e nas práticas desenvolvidas na escola há um sentido naturalizado de que a família na atualidade não se envolve com a vida escolar e pessoal das crianças, trazendo repercussões negativas nas áreas cognitivas e socioafetivas.
A contextualização das relações família-escola a partir dos referenciais sócio- históricos e político-econômicos, considerando que o âmbito educacional se constitui, por excelência, um campo de forças contraditórias (GIROUX; MCLAREN, 2009; PARO, 2001; SAVIANI, 2000), permite analisar as inter-relações entre essas instituições sem adotar uma perspectiva unilateral (CARVALHO, 2000; CRUZ; SANTOS, 2008), seja de culpabilização à família ou à escola.
Nesta pesquisa, importa compreender como as representações pelos docentes vêm fomentando as práticas, entendendo este movimento como dinâmico e de mão dupla. Como afirma Santos, Novelino e Nascimento (2001, p. 274): “[...] entre a prática cotidiana e as representações existe uma dinâmica de interinfluência”.
Desestrutura familiar:
Embora duas professoras tenham enfatizado que a desestrutura familiar não se reportava à configuração nuclear, na fala de mais da metade dos entrevistados esta referência apareceu ora de forma explícita ora de forma indireta. Outros sujeitos não se ativeram a essa configuração, mas valorizaram o critério de conjugalidade estável, ou seja, com pouca ou sem trocas de parceiros. Tal perspectiva parece assinalar a idealização dessas formas de organização familiar, considerados como os ambientes mais protegidos para a criança.
Vejamos trechos das entrevistas que evidenciaram a culpabilização da família desestruturada:
A desestrutura familiar, né, que a gente... que se for uma família bem estruturada, assim, pai, mãe com filhos, então... é difícil, a gente imagina ser difícil. E desamor, porque também às vezes existe uma desestrutura familiar, mas existe amor, não é? (Eulália).
Quando se fala do abuso é a desestrutura. Eu vou te dizer uma coisa... a desestrutura e a violência eu acho que elas são bem... bem juntinho, mas eu acho a desestrutura a mais importante. A desestrutura... aquela que causa todos os outros problemas. Eu entendo que a família é o sustentáculo, a família é a base. Essa família é uma instituição falida e por isso a gente vai ter... a gente vai ter não, a gente tá tendo tantos problemas! (Flora).
Uma coisa que eu não vejo é a desestrutura familiar como uma questão de abuso sexual. [...] Porque a impressão que dá é que falta um pai, falta uma mãe, né? Não, falta ali uma unidade dos valores familiares. A desestrutura familiar nesse sentido, sabe? Não é apenas da configuração familiar, daquela família nuclear que sempre se busca. Mas eu acho que é a questão mesmo do desamor, do desrespeito entre as pessoas (Belisa).
Sabemos com Ariès (2006) e Neder (1994) que a partir da Modernidade houve o fortalecimento da família nuclear no mundo ocidental. Não obstante, ao longo desses séculos, outras formas de organização familiar coexistiram, porém com menor visibilidade pela força hegemônica daquele modelo. A permanência de tal padrão como ideal de família a ser buscado corrobora as preocupações de Neder que assinala a importância dos profissionais da educação considerarem a construção sócio-histórica e político-ideológica para a compreensão das demais formas de organização das famílias no Brasil, especialmente as de grupos pobres e de diferentes características étnicoculturais, diante dos quais ainda persistem concepções que não valorizam tais contextos. A esse respeito, Neder (1994, p. 44) argumenta a “[...] necessidade de valorização das famílias, enquanto lócus de produção de identidade social básica para qualquer criança, tendo em vista a formação de uma cidadania ativa”.
Nas entrevistas, foi comum os sujeitos se reportarem aos próprios valores e experiências familiares, geralmente fazendo o contraponto com as famílias de seus alunos, transparecendo mais uma vez o distanciamento cultural entre “nós” e os “outros”. Sarti (2007) comenta a dificuldade dos profissionais de quebrar o modelo idealizado e naturalizado sobre família e de se permitir o estranhamento diante das próprias referências, o que inibe a