CHAPITRE IV : CONVENTIONS AVEC LES ENTREPRISES PHARMACEUTIQUES Article 11 : Le cadre conventionnel
ANNEXE 5 COMPOSITION DU COMITE
O fantástico e o maravilhoso são gêneros muito próximos. Todorov (2007) coloca o primeiro como a narrativa da incerteza, aquela que nos faz provar o fel da dúvida: não sabemos exatamente se determinada cena poderia acontecer na vida real, apesar de improvável pelo insólito e estranheza que nos causa.
Diferentemente do maravilhoso, destinado mais às crianças e que temos certeza absoluta de não existir na realidade, é precisamente a natureza incerta do fantástico que nos atrai, adultos
e crianças, e nos dá medo, medo de que possa existir, quem sabe, em algum mundo não tão distante do nosso, onde o sobrenatural convive com o natural, naturalmente.
O elemento fantástico, encontrado nos contos amazônicos, cumpre seu objetivo, que é trazer aos enredos um outro mundo, com habitantes “do fundo”, de uma outra dimensão, obedecendo a leis diferentes das nossas do mundo real. É a tora de árvore do mundo real que se transforma em serpente e devora o braço de Seu Leal. Estranha-nos o fato de uma cobra devorar apenas um braço, pois isto seria mais típico de outro tipo de animal, como o jacaré. São as lendas sobre tesouros escondidos no tempo da Cabanagem como a dos três pretinhos da gruta, ou “A História do Pau Roxo” com a visagem de um homem alto em cima de uma bicicleta velha e barulhenta segurando uma tocha na mão. É Maria afeiçoada e encantada por uma cobra; é a Matintaperera encantando os peixes a morderem o anzol do pescador panema e fazer com que conseguisse muitos peixes.
É o menino que fora levado por seres sobrenaturais; é o osso do braço de alguém já falecido no Dia de Finados; é a Galinha Choca que, estranhamente, aparece nas noites de luar em Colares, acompanhada de seus filhotes e depois desaparece; é o pescador (alma penada) cumprido penitência e que surge para assombrar os outros, carregando o corpo da esposa assassinada por ele (outra versão é “A Lenda do Retetem”).
É “O Tarrafiador”, pescador de altura descomunal a lançar sua enorme tarrafa sobre aqueles que passavam embaixo da mangueira (mas depois que a cortaram, ele não foi mais encontrado) e castigar aquele que passa tarde da noite quando a cidade dorme.
É o pescador que acredita que vê um estranho Cavalo Branco nas ruas de Colares (outra versão é a do “Cavalo Encantado” que flutuava e que seria na verdade uma sereia). O Cavalo Branco que desapareceu depois de instalarem a energia elétrica na cidade (versões próximas destas duas lendas são citas por Orico em seu Vocabulário de Crendices Amazônicas, já em 1937). É a lenda do Cavalo Marinho: razoavelmente parecida com duas lendas de Colares: a “Lenda do Cavalo Branco” e a do “Cavalo Encantado” (Orico, 1937).
Marie-Louise von Franz (1985) considera o equino dessa lenda um elemento arquetípico, por encontrar-se no folclore de todo o mundo. Para ela, esse Cavalo é fruto da fantasia da psique humana e vive como um fantasma a pastar em qualquer país do mundo, com poucos detalhes diferentes mas sempre sobrenatural, atraente e terrível. Por aí é possível explicar a atração e repulsão simultâneas que muitas pessoas sentem por essas histórias maravilhosas.
É o peixe Sarapó o qual dizem ser encantado. Ele puniu a mulher que desafiou o que diziam os pajés; é o caçador que desrespeitava tanto a natureza e judiava dos animais e que, um dia, deparou-se com um lobo revoltado (embora não houvesse lobos em Colares) como querendo lhe dar uma lição; são os gemidos, risadas e gritos terríveis de “O Terror das Profundezas” que surgem do fundo do mar na Ilha das Sombras (que se transformou depois na ilha de Colares), fazendo misteriosamente desaparecer as pessoas.
É a menina que engravidou de uma cobra coral com apenas dez anos de idade e que ficou encantada na “Lenda do Olho do Fundo do Mar”; é o Carneirinho de São João que maravilhou o narrador a ponto de fazê-lo esquecer o tempo e que desapareceu em frente à igreja matriz – conta-se, em Colares, que a igreja tem um São João Batista que carrega no ombro um carneirinho, o qual sai às noites de luar para passear.
É a criança esquisita, pálida e magra que não brincava com ninguém, que se transformava em um lobisomem peludo, com orelhas grandes e atacava as pessoas nas noites de quintas e sextas-feiras; o cachorro grande que se transformava na Matintaperera; o homem que inchou, inchou até explodir por causa do pum da Matintaperera; o caso do pescador que morreu afogado e fazia visagem, gemendo de frio por causa de suas calças molhadas que faziam barulho na época em que não havia energia elétrica em Colares.
A irreverência da xula (peixe) ao arremedar Nossa Senhora e ser amaldiçoada com a boca torta; é Maria que, encantada pelo Boto, foi ficando pálida, triste e inchada; o Campo Encantado a que é preciso pedir permissão para entrar; a “mãe do mato” (Curupira) que engravidou o pescador que ofendeu a lei da natureza – a narradora afirma ser uma caso verídico um caçador ter parido “pelo ânus” uma criatura “metade homem, metade bicho” – (Carvalho, 2006, p. 46); o pescador que teve uma visão por volta de meia noite: um navio encantado cheio de pessoas de branco como se estivessem numa festa.
Enfim, o “Fogo Fapo” (fogo-fátuo) que estalava durante a meia noite e que, mesmo belo, apavorou o narrador da última história e que o fez desistir de caçar à noite. O fogo-fátuo é confundido com o boitatá, segundo Orico (1937). O termo vem da língua geral “Embáe-tatá”, o fogo-nada. Em praticamente todos os lugares do mundo o fenômeno existe e tem designação variada, em Portugal eram almas do outro mundo os fogos de Santelmo dos quais até Camões falou (J. L. de Vasconcellos, 1882). Aqui não é diferente e há muitos relatos e crenças com um vastíssimo número de contos a ponto de se criar um ciclo do boitatá e do fogo fátuo.