• Aucun résultat trouvé

O método de Vickers baseia-se conceptualmente na visão clássica do estudo da tomada de decisão, o qual a autora associa sob o ponto de vista metodológico, teorias pedagógicas, sobretudo ao nível da pedagogia da formação do treinador.

A formação na tomada de decisão tem como base as mudanças que decorrem da aprendizagem motora e cognitiva (Vickers, 2003).

Fruto do trabalho com os treinadores, Vickers chegou à conclusão de que existiam questões que necessitavam de resposta para se poder favorecer o desenvolvimento da competência de decidir dos atletas e encontrou dois problemas: 1) Os resultados dos estudos sobre a prática variada e aleatória não convenciam os treinadores sobre a sua utilidade e importância; 2) O que a investigação demonstrava sobre o uso do feedback e o que os treinadores realizavam nos treinos, intervenções e expressões, era contraditório. Para que os cenários de treino possam ser fiéis, quanto possível, exigem processamento cognitivo similar ao exigido em competição.

Desde 1994 que a formação na tomada de decisões integra a preparação de treinadores no Instituto Nacional de Formação de Treinadores de Calgary. Mais de setenta treinadores e trinta treinadores chefe já utilizaram esta proposta em mais de quinze desportos diferentes (Vickers, 2003).

A metodologia proposta por Vickers (2000, 2002, 2003; Vickers, Livington, Umeris, & Holden, 1999; Vickers, Reeves, Chambers, & Martell, 2004; Brunelle, 2005; Pérez & Gabilondo, 2005), pode ajudar os treinadores a passar de um modo de ensino centrado no controlo do comportamento, para um ensino por problemas a resolver.

Este método desenvolve a inteligência estratégica dos atletas, baseado num modelo de intervenção, que segundo Brunelle (2005) integra os melhores aspectos da investigação científica realizada até ao momento nesta área.

Treino da tomada de decisão do treinador: Análise da influência dos constrangimentos metadecisionais 47

Os treinadores dispõem de instrumentos para formar os seus atletas tornando-os mais auto-reflexivos, procurando eles próprios as decisões, a serem mais autónomos, como consequência, passam a estar melhor preparados para se treinarem nas decisões necessárias ao bom desempenho.

Com este método, os treinadores poderão preparar treinos diários que favoreçam o desenvolvimento da percepção, da atenção, da resolução de problemas e de outras habilidades cognitivas necessárias à obtenção de desempenhos de alto nível, paralelamente ao desenvolvimento de aspectos fisiológicos, biomecânicos e psicológicos do desporto (Vickers, 2000).

4.3.1. Fundamentos científicos do treino da decisão

Pretende-se que o atleta seja induzido a tomar decisões críticas a partir de situações imprevisíveis como as que se depara em competição. A formação, na tomada de decisões, deve fazer parte diária do treino. Esta abordagem assenta no princípio de que a eficácia da tomada de decisão pode ser ensinada no quadro das sessões de treino, ao mesmo tempo que as habilidades técnicas e tácticas (Vickers, 2003).

O treino da tomada de decisão combina o treino fisiológico, biomecânico e psicológico (Vickers, 2000). Ao nível fisiológico, o treinador procura ajudar o atleta a sentir-se mais forte, a ter melhores hábitos de vida, a ficar melhor fisicamente. Ao nível de treino técnico-biomecânico, o treinador ajuda o atleta a obter um rendimento máximo com um esforço mínimo, a tornar-se mais eficaz tecnicamente. Com o treino da tomada de decisão, o treinador ajuda o atleta a desenvolver as habilidades necessárias para procurar as melhores acções a realizar numa situação stressante de competição e a escolher criteriosamente do ponto de vista estratégico (Vickers, 2002).

A decisão táctica (individual e colectiva), em desportos colectivos, tende a exigir que todos os componentes de uma equipa participem no mesmo modelo conceptual de jogo, de uma estratégia global corrente e de um conjunto de tácticas comuns.

Esta abordagem adquiriu a reputação de ser um meio construtivo para melhorar a confiança dos inúmeros treinadores que encorajam instintivamente os seus atletas a pensarem por eles mesmos (Vickers, 2003).

Constatam-se resultados positivos associados à implementação deste método, não apenas na melhoria do desempenho dos atletas mas também no contexto do treino. Tem-se procurado dotar o treinador de meios que o possam ajudar a criar contextos de treino mais dinâmicos e efectivos.

Treino da tomada de decisão do treinador: Análise da influência dos constrangimentos metadecisionais 48 4.3.2. Transição entre o treino do comportamento e o treino da decisão

A transição entre o treino do comportamento e o treino da decisão verifica-se desde o final dos anos 90, quando as investigações começaram a demarcar uma similitude nos resultados de três áreas de estudo: a concepção de treino/efeito da prática, o feedback e o ensino/instrução (Vickers, 2000, 2002; Vickers et al. 1999, 2004; Pérez & Gabilondo, 2005).

As investigações demonstram uma diminuição no desempenho a longo prazo quando o treino está centrado no comportamento. Os atletas sujeitos a este método têm dificuldade em manter alto nível de desempenho a longo prazo. Outra das dificuldades reside da capacidade, limitada, de transferir habilidades perante situações novas e inabituais. Ao contrário, com a utilização do treino da decisão, a progressão, de início, é mais lenta mas melhora com o tempo.

Vickers (2003) procura colocar em evidência o contraste existente entre a abordagem tradicional e a formação na tomada de decisão, acentuando o treino de habilidades e capacidades necessárias ao desempenho que encorajam o atleta a pensar e a ser capaz de agir de forma independente.

Brunelle (2005) evidencia uma ruptura nos métodos quando confronta o treino em bloco (usado tradicionalmente) e o treino da decisão. Quando os feedbacks são imediatos, em tarefas onde se repetem muitas vezes as mesmas acções, as tarefas não exigem os mesmos processos cognitivos que se exigiriam na competição, logo, não simulam as condições da mesma. Para Pérez e Gabilondo (2005), o treino da decisão deve promover a transferência, simular as condições de jogo e de competição.

4.3.3. O processo de planificação e as três etapas do treino da decisão

Este método tem um processo de planificação que se centra em três etapas e uma aplicação que radica em sete ferramentas que permitem ao treinador a operacionalização do programa (Vickers, 2000, 2003; Vickers et al., 2004; Brunelle, 2005).

Na 1ª etapa, o treinador define as decisões que os atletas devem tomar em competição e quando. Essas decisões devem ser próprias do desporto, com as suas situações específicas. Devem definir as habilidades cognitivas necessárias para realizar desempenhos elevados (e.g., prestar atenção a um indicador informativo, a antecipação de uma situação particular, encontrar a solução apropriada entre varias alternativas, reconhecer um modelo estratégico específico, resolver um problema, poder ser criativo para se adaptar e explorar todas as condições encontradas em competição).

Treino da tomada de decisão do treinador: Análise da influência dos constrangimentos metadecisionais 49

As decisões são objecto da formação proveniente de várias vias, como a aprendizagem motora e a necessidade do controlo que definem os constrangimentos cognitivos, temporais e espaciais a que se submetem todos os atletas em competição, (e.g., tempos de reacção auditivo, visual e sensorial). Esta etapa é difícil de realizar, já que obriga o treinador a saber como o atleta pensa em situação de desempenho.

Na 2ª etapa, o treinador deve identificar e descrever o exercício ou a actividade que permita treinar melhor a decisão a tomar definitiva na etapa 1. O exercício retido deverá aproximar-se o mais possível das exigências da situação em competição. Cada exercício deve ser seguro e apropriado ao nível de desenvolvimento do atleta. Escolhe- se um exercício ou uma série de exercícios que permitam formar o atleta a tomar decisões em situação de desempenho simulado. Esta etapa é vista como mais fácil pelos treinadores, já que podem adaptar os exercícios e as actividades existentes ou criar novas actividades que melhorem a formação em decisões particulares.

Na 3ª etapa, o treinador escolhe um ou vários dos sete instrumentos que favoreçam o melhor treino da decisão durante o exercício praticado.

4.3.4. As ferramentas do treino da decisão

A combinação das ferramentas permite conceber treinos com exercícios que contêm as situações onde o atleta deve tomar decisões específicas e identificar os melhores indicadores a seguir. As ferramentas (prática variada, prática aleatória, feedback, questionamento, feedback vídeo, ensino táctico “informação complexa” e modelação) baseiam-se na investigação e oferecem um fundamento sólido para o método, que favorece um nível de enquadramento cognitivo importante a ser utilizado no treino e a mantê-lo num nível elevado de desempenho sobre o plano fisiológico, técnico e táctico (Vickers, 2000).