Seguindo a mesma linha de raciocínio das noções comuns, o filósofo traça o caminho da produção do conhecimento, fazendo-se importante aqui colocar que Espinosa argumenta
contra o “empirismo dogmático latente no idealismo cartesiano” (Chauí,1970:06 apêndice) invertendo a ordem “duvido, penso, portanto sou” de Descartes, para quem a existência emana dos atos de afirmar ou negar. Já para Espinosa, a existência funda os atos de afirmar ou negar, o que exclui a dúvida, pois esta requer existência para se manifestar. Dessa forma, deixa-se de ir do conhecimento ao ser, do sujeito ao objeto, movimentando-se em direção oposta do ser ao conhecimento, do objeto ao sujeito (Chauí, 1970).
No escólio 2 da proposição 40 do livro dois da Ética, Espinosa apresenta três formas de conhecimento que podem coexistir num mesmo sujeito:
♦ 1o gênero de conhecimento: imaginação15;
♦ 2o gênero de conhecimento: razão;
♦ 3o gênero de conhecimento: intuição.
O primeiro gênero de conhecimento é o mais baixo dos três, e a grande maioria das nossas ideias opera neste nível. O processo prático de Espinosa de produção do conhecimento consiste em passar do primeiro gênero para o segundo, e deste para o terceiro, de maneira progressiva.
A imaginação, depende de uma causa externa, sendo essa forma de conhecimento
composta pelo encadeamento de ideias inadequadas e dos “afetos-paixão”16 que delas
derivam. As imagens são produto de nossos órgãos sensoriais, o efeito de causas externas sobre nós: elementos sonoros produzem em nós imagens sonoras; coisas odoríferas produzem em nós imagens olfativas, os sabores imagens do nosso paladar; coisas luminosas, imagens visuais etc. Assim, a imaginação indica o estado do nosso corpo, nossa capacidade momentânea de perceber, de ser afetado e não a natureza do corpo afetante. A imaginação é a ideia da imagem.
As ideias imaginativas são verdadeiras quando as imagens são consideradas como imagens, como impressões de nossos órgãos dos sentidos e são falsas (inadequadas), fonte de erro e de ilusões quando são consideradas ideias reflexivas (adequadas). As ideias imaginativas não são falsas em si mesmas, pois correspondem à maneira como os corpos exteriores nos afetam, oferecendo-nos assim indícios de sua origem, de sua causa. O que nos permite, por meio de um esforço interpretativo/reflexivo, operar a transformação dessas imagens formadas em nós em ideias adequadas, ou seja, nos permitem conhecer a gênese dos
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Capítulo 4: Alguns elementos do pensamento espinosano 94
afetos que deram origem às nossas ideias cognitivas e, portanto, nos possibilita conhecer a ordem e conexão das coisas em questão. Lembrando, que para Espinosa, o que nos move é o desejo de vivenciar alegrias (EIII, prop 28) e que pensamos e agimos em função de nossos afetos (emoções, sentimentos, motivações pulsões…).
Dizer que um afeto passivo pode ser transformado em afeto ativo por meio de uma noção comum é o mesmo que dizer que a passagem da imaginação à razão dá-se por meio de noções comuns, conforme anteriormente referido. Desse modo, razão e imaginação estão articuladas em um “continuum como diferentes estágios e planos no processo de constituição intelectual” (Hardt, 1996: 161).
Para Espinosa, o terceiro gênero de conhecimento, intuição ou beatitude é a plenitude, a própria felicidade suprema é quando nos apropriamos plena e formalmente de nossa potência, quando os “afetos–sentimentos” ativos gerados são alegrias e amores muito especiais, quando passamos a nos relacionar de forma ativa e não reativa com todas as coisas. Segundo o filósofo, o sábio é aquele que atingiu esse gênero de conhecimento.
Embora de forma contingente e flutuante, a imaginação nos fornece uma indicação real do estado dos corpos e das relações presentes. Enquanto a imaginação apresenta as coisas como contingentes, a razão e a intuição as apresentam como necessárias.
Assim, contingência e necessidade, imaginação e razão não são opostos excludentes mas sim “platôs articulados num continuum produtivo pelo próprio processo de constituição” (Hardt, 1996: 163).
A partir do acima exposto, entendemos que a noção comum é uma espécie de elo de ligação entre imaginação e razão, pois parte-se da imaginação e por meio de noções comuns chega-se à razão, o que constitui um diferencial da epistemologia espinosana. Não se atinge o próximo gênero de conhecimento negando o estágio presente, mas sim realizando uma composição a partir dele.
Desse modo, Espinosa admite que todas as pessoas têm a possibilidade de pensar adequadamente a partir de um esforço reflexivo sobre seus afetos/ideias e alcançar a felicidade – a alegria proveniente da capacidade de pensar e agir por si próprio, o que constitui-se como liberdade, como possibilidade de expressar/afirmar sua potência de agir ou sua força de existir.
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Dessa maneira, o filósofo possibilita a democratização da produção de conhecimento, pois considera que qualquer pessoa pode produzi-lo a partir do estágio em que se encontra, coisa que tira das mãos dos iluminados e intelectualizados a exclusividade do poder de pensar o mundo e, consequentemente, de elaborar suas regras.
“A posição potencialmente democrática do Tratado Político é afirmar que, embora advindos da plebe, os homens podem facilmente adquirir, à força da experiência, um profundo e vasto conhecimento dos negócios públicos e participar plenamente do direito de decidir. Se se constata que ‘não exista na plebe nenhuma verdade ou juízo’ é justamente porque se lhe interdita a familiarização com os negócios públicos!17 Pois mesmo aquele ‘de engenho particularmente rude’, sublinha Spinoza, ‘é contudo certo que cada um é suficientemente hábil e astuto nos negócios a que se dedica com grande afeto’, e assim eles serão ‘aptos o suficiente para poderem dar conselhos no respeitante às suas coisas, principalmente se em coisas de maior gravidade se lhes der tempo para meditarem’18” (Bove, 2011:153).