• Aucun résultat trouvé

Arte não é adorno, palavra não é absoluta, som não é ruído, e as imagens falam, convencem e dominam. A estes três Poderes – Palavra, Som e Imagem – não podemos renunciar, sob pena de renunciarmos a nossa condição humana (BOAL, 2009, p. 22).

Após todo esse percurso a pesquisadora se vê povoada por várias visões a respeito do teatro. Ah! Para os leigos, teatro sempre foi uma coisa de artista, dom, algo que nasce pronto, há muita fantasia e desconhecimento em torno da arte, referindo-me aqui a arte teatral, o espectador então desconhece todo o processo e o

27 (AMARANTE; LIMA, 2008) - Projeto Loucos pela Diversidade – Relatório da Oficina Nacional de

Políticas Públicas Culturais para pessoas com sofrimento mental e em situações de risco social.

Disponível em:

http://semanaculturaviva.cultura.gov.br/linhadotempo/pdf/publicacoes/SID/Loucos_Diversidade_Relat orio_2008.pdf. Acesso em: 04 set. 2017

que envolve esta arte. O espectador vê o Teatro apenas no sentido físico, como palco, e depois como apenas um espetáculo, fantasia, lugar de muito brilho, fama e sucesso, muitas vezes sem fazer a associação com a vida real, e sem perceber todo o trabalho que existe para além da peça teatral.

Mas, e se a vida também é feita de cena, palco, plateia e até espetáculo... mesmo que raramente tenhamos pensado que o teatro possa interpretar a vida real, revelar talvez, transver, multiplicar a história real, qualquer um de nós poder passar a ser artistas, como Augusto Boal (2009), tão bem sabe estimular. Ele bem nos assinala que o ator acredita que o personagem entra nele, e ressalta "o personagem não entra em nós, não existe personagem, o personagem sai de você, o personagem é uma potencialidade da sua personalidade"28. Então o que se dá no teatro é o estimular

dessas potencialidades, essa descoberta das personagens, do que cada um pode vir a ser e fazer, facetas de nós mesmos e de outros tantos que conhecemos, admiramos, e até gostaríamos de ser.

Para Boal (2005) o teatro é uma atividade política, porque o homem é um ser político, uma arma e deve-se lutar por ele, transformar e não se deixar manipular. Segundo Santos (2016), aprendemos o Teatro Essencial com Boal que, em seu último pronunciamento público, em Paris, na sede da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura - UNESCO quando foi nomeado Embaixador Mundial do Teatro, em março de 2009, afirma:

Todas as sociedades humanas são espetaculares no seu cotidiano e produzem espetáculos em momentos especiais. São espetaculares como forma de organização social, e produzem espetáculos como este que vocês vieram ver. Mesmo quando inconscientes, as relações humanas são estruturadas em forma teatral: o uso do espaço, a linguagem do corpo, a escolha das palavras e a modulação das vozes, o confronto de ideias e paixões, tudo que fazemos no palco fazemos sempre em nossas vidas: nós somos teatro! Não só casamentos e funerais são espetáculos, mas também os rituais cotidianos que, por sua familiaridade, não nos chegam à consciência. Não só pompas, mas também os cafés da manhã e os bons dias, tímidos namoros e grandes conflitos passionais, uma sessão no Senado ou uma reunião diplomática – tudo é teatro. Uma das principais funções de nossa arte é tornar conscientes esses espetáculos da vida diária, onde os atores são os próprios espectadores, o palco é a plateia, e a plateia, palco. Somos todos artistas: fazendo teatro, aprendemos a ver aquilo que nos salta aos olhos, mas que somos incapazes de ver tão habituados estamos apenas a olhar... (SANTOS, 2016, p. 162).

28 Augusto Boal e o Teatro do Oprimido (Vídeo) Depoimento disponível em:

No texto “O teatro como vida e a vida como teatro”, Boal (2003) reflete que o teatro se emaranha com a vida ao falar do livro sobre “Performance”, de Richard Schechner. Para ele, o que diferencia nossas cenas cotidianas do teatro, cenas e “rituais profanos”, como chamam no Teatro do Oprimido, é que os atores a fazem conscientemente. Para o autor, na interpretação de várias pessoas, o ato teatral é pura arte, pois não se repete. Uma peça é sempre um novo peça, teatro é vida. Para outros, a vida não tem nada de original, estamos sempre repetindo as mesmas cenas, palavras, textos, muitas vezes para as mesmas pessoas. Na vida social estamos emaranhados nestas cenas. Acreditamos ter consciência e até muitas certezas do que vivenciamos, fazemos, produzimos no nosso presente, às vezes, de forma intensa, violenta e desmedida (IDEM, 2003).

Para Boal (2003) o teatro convencional acaba por estratificar as forças e as violências vivenciadas por nós no nosso dia a dia.

Em seu livro As imagens de um teatro, Julián Boal escreve que, quando uma realidade é apresentada no teatro - sendo o fenômeno teatral uma realidade em si mesma —, a violência que existe nesta realidade é reproduzida no palco e continua existindo na sua representação teatral, porém, transubstanciada. No espetáculo intransitivo não interativo, essa violência é multiplicada pela violência que o próprio ato teatral instaura ao imobilizar os espectadores em suas poltronas ou assentos de pau, ao torná-los apenas receptores passivos das imagens que lhe são apresentadas. Inativos espectadores da vida que flui... Julián Boal conclui que o sucesso do Teatro do Oprimido em todo o mundo se deve justamente ao fato de que, ao apresentar imagens da realidade —imagens que podem ser transformadas, recriadas em outras imagens desejadas — o Teatro do Oprimido retira destas representações a violência estratificada que elas contêm: congela o rio, permitindo, de forma serena, o exercício da inteligência da criatividade dos espectadores que são chamados a inventar realidades possíveis, libertando-se da condição de meras testemunhas de rituais aceitos. Os espectadores tornam-se protagonistas, inventores! (BOAL, 2003, p. 76).

Queremos experienciar, vivenciar essa possibilidade de transformar, de inventar, realidades e correlações de forças que foram patologizadas, cristalizadas no estatuto de doente mental, no texto que estamos sempre repetindo do fulano que surtou sem motivo algum aparente. Na violência não dita, nas vozes não reconhecidas na cena, no olhar e no julgamento sentido que se transformou em paranoia, raiva, passagem ao ato. Queremos mapear, fazer um traçado destas cenas reais para a linguagem teatral e perceber, entender, narrar o que elas podem operar de transformação. Esta é a concepção de teatro que vamos adotar e que estamos aprendendo nas próximas linhas com o Teatro e com o Teatro do Oprimido.

Conhecer para transformar é uma das características desta pesquisa, interveir na realidade, a pesquisa bibliográfica teve foco para conhecer como se tem trabalhado com Teatro e Teatro do Oprimido na Saúde Mental, que repercussões alcançaram e coisas em comum que as experiências guardam.

Foi realizada pesquisa bibliográfica no período de janeiro de 2017 à junho de 2017 realizando busca nas seguintes bases de dados: Portal de Periódicos da CAPES, Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações – BDTD, Portal Regional da Biblioteca Virtual de Saúde, Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES e Google Acadêmico. Privilegiamos os descritores teatro, saúde mental e oficinas utilizados com o operador booleano AND. Os livros de Augusto Boal sobre a metodologia do Teatro do Oprimido já eram de conhecimento da pesquisadora, assim como o livro de Bárbara Santos e a Revista Metaxis – informativo do Centro de Teatro do Oprimido – RJ, esta mais especificamente o número 07, número especial dedicado à saúde mental.

O Google Acadêmico e o Google foram fontes de busca complementares, uma vez que as buscas nas bases de dados relacionadas com os descritores mostraram poucos resultados sobre os grupos de teatro. Foram realizadas também algumas buscas no Google pelo nome do grupo, uma vez que são grupos já conhecidos pela pesquisadora, assim como autores pertencentes a estes grupos (Ueinzz e Peter Pál Pelbart, Pirei na Cenna). A seguir será disponibilizado no quadro com a especificação, das bases onde foram encontrados os artigos, teses e dissertações.

Critérios de inclusão utilizados nas buscas: a) artigos em português; b) período de 1990 a 2017, c) artigos, teses e dissertações na interface teatro, Teatro do Oprimido e saúde mental, com foco nas experiências de Companhias e Grupos de Teatro e Teatro do Oprimido na saúde mental realizados na RAPS e/ou paralela a ela. O foco das experiências são com pessoas em acompanhamento pela saúde mental; d) experiências de teatro com repercussão social, apresentações teatrais e/ou que constituíram grupos de teatro.

Critérios de Exclusão utilizados nas buscas: a) não foram considerados estudos apenas teóricos; c) não foram considerados estudos com focos de oficina sem continuidade.

Quadro 1 - Busca nos portais

Base de dados Descritores Resultado da busca

Selecionados Repetidos outras bases Portal dos Periódicos da

CAPES

Teatro do Oprimido AND saúde

mental AND CAPS 317 1

Catálogo de Teses e

Dissertações da CAPES teatro AND saúde mental 194 16 Banco Digital de Teses

e Dissertações teatro AND saúde mental 136

11 Repetidos - 9 Portal Regional BVS Teatro AND saúde mental 31 7

Google acadêmico Teatro AND saúde mental AND

oficinas 5.240

30 16 repetidos Fonte: a autora (2018).

A seguir apresentamos quadros com a produção científicaencontrada na forma de artigos, dissertações e teses. Realizamos o quadro 2 que mostra os artigos científicos sobre alguns grupos ou Companhias de Teatro e Teatro do Oprimido na Saúde Mental. Os quadros 3 e 4 apresentam o panorama das dissertações e teses que enfocam o Teatro e o Teatro do Oprimido na Saúde Mental. Estes dados serão utilizados a seguir na seção 3.3 Percursos da loucura com o Teatro, servindo de fonte para a escrita sobre os grupos de Teatro e Teatro do Oprimido na Saúde Mental. Foi rico constatar a quantidade de textos, dissertações e tese a respeito de como se tem trabalhado com Teatro na Saúde Mental.

Quadro 2 - Artigos sobre grupos teatrais da saúde mental

Quadro 3 - Dissertações sobre teatro na interface com a saúde mental

No Quadros 3 e 4, as dissertações e tese tratam desde o processo de constituição dos grupos, a questão corporal, a clínica ampliada e várias visões sobre o caráter terapêutico da arte, a formação e aperfeiçoamento e cuidado de trabalhadores. Podemos inclusive, pontuar as contribuições importantes que estas práticas trazem para o cenário político da saúde mental, além de difundir a construção do campo artístico cultural na saúde mental .

Quadro 4 - Dissertações e Tese sobre Teatro do Oprimido na saúde mental

Fonte: a autora (2018).

É significativa a contribuição que a pesquisa cientifica pode oferecer à saúde mental, aproximando campos de saberes diferenciados em torno da produção artística das pessoas com sofrimento psíquico, desmistificando conceitos e formas de olhar a loucura, potencializando o fazer e a expressão das pessoas.

Documents relatifs