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Complexes semi-quadratiques

Dans le document CONGRUENCES DE NORMALES (Page 37-47)

Ele.

7 Como és bela, como és graciosa, Amor, filha de delícias.

8 Esta tua estatura é como uma palmeira, E teus seios, como os cachos

9 Digo: “Preciso subir na palmeira, Tenho que apanhar seus cachos”

Que teus seios sejam qual cachos de videira [...]

Ela.

11 Eu sou de meu querido e seu anelo sou eu 12 Vem, querido meu, vamos ao campo[...] 13 Lá te darei minhas carícias.

(Ct 7, 7-9.11-13)

Este excerto de grande riqueza lírica faz parte do Cântico dos Cânticos, um dos textos do Antigo Testamento. Apesar de se inserir em uma obra sagrada, transbordam, no trecho acima, indicações de que se desenrola um discurso amoroso, que poderia muito bem ser tido como erótico – afinal, é tão poético. Quem sabe até possa ser acusado de pornográfico, se a pretensão de tal acusação for enfatizar o choque provocado pela leitura desta narrativa na Bíblia8. Tudo dependeria do sentido subjetivamente visado pelo emissor da opinião. De todo modo, causa certa surpresa encontrá-lo ali e tentamos achar uma explicação plausível.

A necessidade de se reinterpretar continuamente os textos sagrados constitui o fulcro de toda religião de salvação (WEBER, 2010), cuja pretensão consiste em promover a destruição ou a conversão de outros povos ao amor fraterno da comunidade religiosa com vistas a atender a certas demandas sociais. Dessa forma, uma constante exegese da Bíblia, própria do Cristianismo, fez com que o Cântico dos Cânticos se tornasse uma alegoria do amor sagrado entre Deus e o povo de Israel, ao invés de um laudatório do amor carnal – e, portanto, profano – entre

8Curiosamente, na página de internet “Paraíso Lolicon”, o artigo “Pedofilia nas histórias bíblicas” menciona vários trechos de apologia a essa perversão sexual. (notícia publicada em 03/09/2012)

homem e mulher. Porém, como da controvérsia surgem novas interpretações, alguns intérpretes defendem que o texto expressa a ideia da complementaridade do masculino e feminino, efetivado por meio do casamento e da conjunção carnal legítima aos olhos de Deus (BÍBLIA,1995). A carne só deveria ser o instrumento para o homem cumprir com presteza a ordem divina: “frutificai e multiplicai-vos e encheis a terra” (Gn. 1,28).

No afã de cristianizar todos os povos europeus, os pais da Igreja tentaram eliminar os cultos pagãos que poderiam rivalizar com a fé cristã, mas neste empreendimento cristianizador, ante a impossibilidade de matar todos os outros deuses, houve uma reinterpretação desses mitos exógenos segundo as tradições bíblicas. Por exemplo, no Cântico dos Cânticos, a personagem Ela, a amante em cuja língua “há leite e mel”, se descreve nos seguintes termos: sou negra, mas formosa (Nigra Sum, Sed Formosa). Dentro do campo de estudos da mariologia medieval, as madonas negras são consideradas elementos ambíguos da religiosidade cristã (FRANCO JR, 1996), porque são, ao mesmo tempo, representações da Virgem Maria e de deusas pagãs, resultado de um verdadeiro “sincretismo de divindades”. Embora a efígie consagrada de Maria seja a de uma mulher branca9 – cor que ressaltaria a pureza –, em muitas igrejas datadas da época medieval, as imagens carregam a tez negra tal como a personagem feminina dos Cânticos. Nas observações junguianas sobre o inconsciente coletivo, as madonas negras seriam provas da existência dos arquétipos do pensamento humano10, por estarem vinculadas aos mitos da Mãe-Terra cuja crença não se restringiria apenas à Europa. O negro simbolizaria o solo fértil, capaz de prover a vida, tal como a mulher que gera uma criança. Em Suma, este desenvolvimento do culto à Virgem Maria data do século XII como uma versão cristã das antigas deusas-mãe.

Esta sacralização do profano estende-se à Renascença, quando Nigra Sum consolidou-se como tema clássico para composições

9A imagem recorrente é a de uma Maria com cabelos e olhos castanhos, rosto de traços caucasianos. A exceção brasileira fica por conta da madona negra das águas: Nossa Senhora Aparecida

10“O arquétipo é uma espécie de aptidão para reproduzir constantemente as mesmas ideias míticas; se não as mesmas, pelo menos parecidas” (JUNG, 2011, p. 110). Nessa perspectiva, a ideia de Deus e a própria moral são vistas como funções psicológicas naturais da psiquê. Claramente, uma tentativa junguiana de restaurar a função social da religião, cada vez mais escorchada com o avançar da racionalidade e da ciência.

religiosas. Palestrina, um dos maiores compositores da época, transformou Nigra Sum em cantus firmus11de uma missa – uma estratégia de sucesso em um mundo social dominado pela religião. Também musicou outros trechos do Cântico dos Cânticos em motetos, composições polifônicas de estrutura flexíveis, passíveis de transgressões na forma, embora ainda atreladas a textos religiosos.

Esta rígida separação entre sagrado e profano se mostra mais questionável ao observamos como a música sacra renascentista era feita longe dos olhos do Papa. Fora de Roma, floresciam escolas que compunham missas e outras formas musicais aparentemente sacras, mas que utilizavam canções populares bastante picantes como inspiração melódica. Um processo semelhante ao que poderia ocorrer numa situação em que os fiéis resolvessem louvar o Senhor utilizando a melodia (e, algumas vezes, até a letra), de músicas populares de carga erótica. O profano absorvido pela grandiosidade do sagrado. Para exemplificar, vejamos esta canção do compositor Clemens Non Papa, chamada Entre Vous Filles, utilizada na missa homônima do compositor flamengo Orlando de Lassus.

Vocês, garotas de 15 anos, Não venham mais à fonte

Porque seus olhos são tão radiantes Os mamilos tão pontudos

Bocas sorridentes Pequenas e quentes....

Coração mais alegre do que um sonho Vocês garotas de 15 anos

Não venham mais à fonte12

Como se percebe, a canção renascentista faz um alerta indecoro para que garotas de quinze anos evitem se banhar na fonte para não suscitar o desejo masculino. Interessante notar que a idade em questão é 15 anos, e podemos questionar se a puberdade feminina começava antes

11Base melódica

12Tradução aproximada do original em francês antigo: Entre vous filles de XV ans/ Ne venes plus a la fontaine/ Car trop aves les yeulx frians/ Tetin poignant/ Bouche riant/ Connin mouflant / Le cueur plus gay qu' une mistaine / Entre vous filles de XV ans / Ne venes plus a la fontaine. Cf. WAGNER, Peter (1913)

ou depois dessa delimitação etária13. Mesmo um pouco mais velhas para os padrões consagrados do lolicon, as garotas da canção talvez fossem parte integrante do imaginário sexual da Renascença de uma forma similar a da Lolita de Nabokov ou das garotas em duas dimensões nos mangás lolicons. Clemens Non Papa poderia até ter sido um loli lover se aplicarmos a esta canção a definição de um fã brasileiro de lolicon postada em um fórum de discussão internet: “é adulto com adolescente, então é loli!” 14. Na verdade, surpreende que haja menção à idade, porque essa preocupação com uma delimitação clara entre infância, adolescência e vida adulta somente apareceu no Ocidente em um período ulterior15. Especialmente para as mulheres, as “idades da vida” demoraram a serem estabelecidas porque a grande maioria das meninas não tinha acesso à educação. Além disso, o casamento precoce persistiu como uma prática social legítima por mais alguns séculos até o reconhecimento da particularidade da infância e a necessidade de resguardar as crianças de ambos os sexos dos perigos do mundo, até que elas estivessem prontas para enfrentá-lo.

Gostaria de antecipar que a imagem evocada por esta canção, “meninas tomando banho”, compõe uma das situações mais recorrentes no lolicon. De modo semelhante ao alheamento das garotas na cena da fonte, a menina no mangá solicita inocentemente ao personagem mais velho que lhe ajude a tomar banho. A fonte então se transforma em uma banheira, ou melhor, em um ofurô, instalação típica de casas japonesas. Em alguns casos, a inocência revela-se puro simulacro; mas em outros, a personagem, de fato, se mostra surpresa ao notar a excitação do personagem masculino. Esta situação vista sob esta dicotomia sagrado/profano mostra que o banho simbolicamente representa um ritual de purificação que, aos olhos de certos espectadores, nada mais é do que um convite à conspurcação. Nesse jogo, o puro e o impuro não são dois âmbitos totalmente distintos; consistem em duas variedades de um mesmo gênero, que podemos dizer, é demasiado humano.

13A puberdade começa cada vez mais cedo, o que leva a supor que a menarca era mais tardia nas meninas nesse período.

14Fora do Japão, o lolicon stricto sensu se torna lato sensu. Existe uma grande confusão em torno da delimitação de uma faixa etária das lolitas, como veremos em outro momento.

15 “O período da segunda infância-adolescência foi distinguido graças ao estabelecimento progressivo e tardio de uma relação entre a idade e a classe escolar. Durante muito tempo, no século XVI e até mesmo no século XVII, essa relação foi muito incerta” (ARIÈS, p.115,2012)

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