A picada dos flebótomos pode causar reacções cutâneas provocadas pela injúria do corte ou pela saliva do insecto. A intensidade das reacções observadas (dor ou aparição de uma pápula ou escara hemorrágica) varia em função da sensibilidade individual da pessoa picada. Alguns indivíduos podem sensibilizar-se progressivamente ou apresentar reacções anafiláticas, mais ou menos violentas, com prurido, edemas ou exantemas (na face, em particular), ou afecções gerais (febre, náuseas, problemas no ritmo cardíaco). Na manipulação dos flebótomos, os indivíduos que fazem capturas com aspiradores de boca, podem ter reacções alérgicas ao pó que cobre o corpo dos insectos e desenvolver alergias respiratórias (Léger & Depaquit, 2007).
Contudo, a importância médica dos flebótomos deve-se essencialmente aos agentes etiológicos por eles transmitidos.
Os flebótomos dos géneros Lutzomyia (Novo Mundo) e Phlebotomus (Velho Mundo) são vectores de protozoários, bactérias e vírus. As patologias mais importantes transmitidas por flebótomos são a leishmaniose e a febre transmitida por flebótomos (Quadro 8).
Os agentes patogénicos com maior importância médica (e também veterinária), transmitidos pelos flebótomos, são os protozoários do género Leishmania (Trypanosomatidae) dos quais estes insectos são os vectores exclusivos. As leishmanias são o agente etiológico da leishmaniose cutânea, mucocutânea, cutânea difusa e visceral. A forma cutânea manifesta-se por pequenas úlceras auto-limitadas que saram lentamente. Quando existe destruição das mucosas orais ou nasais, e doença denomina-
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se mucocutânea. A forma cutânea difusa acontece quando existe disseminação de pápulas ou nódulos por todo o corpo. Quando os parasitas invadem as células do baço, medula óssea e fígado, causando um envolvimento visceral, a doença é designada por leishmaniose visceral (Goddard, 2003; Munstermann, 2005).
Quadro 8- Exemplos de patologias transmitidas por flebótomos (adaptado de Rutledge & Gupta, 2002).
Doença Agente Distribuição geográfica Vector
Leishmaniose cutânea (Novo
Mundo)
e.g. Leishmania amazonensisab, L.
brasiliensisb, L. guyanensisab, L. panamensisb, L. peruviana
(Protozoários)
Regiões Tropicais e subtropicais das Américas
Central e do Sul, México, EUA (Texas)
Lutzomyia spp
Leishmaniose cutânea (Velho
Mundo)
E.g. L. aethiopica, L. majorb ,
L.tropicaa (Protozoários) Europa, Ásia e África P. spp
Leishmaniose visceral (Novo
Mundo)
L. chagasi (Protozoários)
Regiões tropicais e subtropicais das Américas
Central e do Sul Lutzomyia spp Leishmaniose Visceral (Velho Mundo) L. archibaldi, L. donovanibc , L. infantumbc (Protozoários) Regiões tropicais e subtropicais da Europa, Ásia
e África
P. spp
Bartonelose Bartonella bacilliformis (Bactéria) Colômbia, Equador, Peru
Lutzomyia verrucarum, Lutzomyia columbiana
Estomatite vesicular
Vírus da estomatite vesicular: Alagoas, Indiana, serótipos de New
Jersey (vesiculovírus)
Américas do Norte e do Sul, regiões tropicais subtropicais
e temperadas
Lutzomyia shannoni, Lutzomyia trapidoi, Lutzomyia ylephiletor
Doença do vírus de
Chandipura Vírus Chandipura (vesiculovírus) Índia, Oeste de África P. papatasi? Febre por
flebótomos (Novo Mundo)
Vírus Alenquer, Candiru, Chagres,
Punta Toro (flebovírus) Panamá, Colômbia
Lutzomyia trapidoi, Lutzomyia ylephiletor
Febre por flebótomos (Velho
Mundo)
Vírus Nápoles, Sicília, Toscana (flebovírus)
Europa tropical e subtropical, Ásia, Norte de
África
Phlebotomus papatasi, P. perfiliewi,
P. perniciosus
a também pode provocar infecções viscerais; b também pode provocar infecções mucocutâneas;c também
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Os flebótomos também transmitem as bactérias da espécie Bartonella
bacilliformis, agente da febre de Oroya ou doença de Carrion (fase aguda da infecção) ou
da verruga peruana (fase crónica da infecção) no Peru, Colômbia e Equador.
A fase aguda da doença é causada pela infecção maciça da bactéria nos glóbulos vermelhos que tem como consequência febre e anemia hemolítica. Se a infecção não for tratada a taxa de mortalidade varia entre os 40% e os 85%.
A fase crónica é caracterizada por lesões benignas eruptivas que causam prurido e sangram, assim como por outros sintomas tais como dores osteoarticulares (Maguiña
et al., 2000, 2001 Munstermann, 2005; Léger & Depaquit, 2007).
No que diz respeito aos vírus, já foram detectados, em flebótomos, os géneros
Orbivirus, Vesiculovirus, Phlebovirus e Flavivirus.
Existem 12 espécies do género Orbivirus (família Reoviridae) transmitidas por flebótomos nas Américas, pertencentes ao grupo do vírus Changuinola. No entanto, a transmissão de orbivírus ao Homem é excepcional. A infecção humana parece resultar apenas em sintomas gripais ligeiros, embora esteja ainda pouco documentada (Polly, 2007).
Entre as nove espécies do género Vesiculovirus (família Rhabdoviridae) o vírus Chandipura é considerado de grande importância médica. Este vírus é endémico na Índia, suspeitando-se que flebótomos dos géneros Phlebotomus e Sergentomyia possam ser os seus vectores (Depaquit et al., 2010). Estudos laboratoriais mostraram no entanto que a espécie P. papatasi é um reservatório eficiente do vírus, permitindo o seu crescimento e transmissão venérea e transovárica (Tesh et al., 1983; Mavale et al., 2006). Phlebotomus. argentipes também permite, experimentalmente, a transmissão do vírus (Mavale et al., 2007).
O vesiculovirus Radi foi isolado em Itália, em P. perfiliewi mas não está associado a doença humana (Verani et al., 1991).
No que diz respeito aos flebovírus, uma grande percentagem foi isolada nas Américas Central e do Sul, apesar de a infecção humana, nessa parte do mundo, ser pouco comum. No Panamá os vírus Chagres e Punta Toro foram isolados em flebótomos
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do género Lutzomyia, assim como os vírus Aguacate, Cacao, Caimito, Chilibre, Frijoles e Nique (Tesh et al., 1975).
É provável que espécies que ingerem sangue humano na Região Neotropical sejam, na sua maioria, silváticas no que diz respeito aos locais de repouso e entrem raramente em habitações humanas (Tesh, 1989).
Os flebovírus Sicília, Nápoles e Toscana foram detectados em várias espécies de flebótomos.
O vírus Sicília foi isolado em P. papatasi em países da Bacia do Mediterrâneo e na Ásia e na Argélia, em P. ariasi (Tesh et al., 1977; Izri et al., 2008).
O vírus Nápoles foi isolado em P. papatasi em Itália e no Egipto (Sabin et al., 1944; Schmidt et al., 1971) e em P. perfiliewi, na Sérvia (Gligic et al., 1982).
O vírus Toscana foi isolado em P. perniciosus e P. perfiliewi em Itália (Verani et
al., 1988).
O vírus Arbia foi isolado em P. perniciosus e em P. perfiliewi (Verani et al., 1988), o vírus Corfou na Grécia em P. major (Rodhain et al., 1985), o vírus Massilia foi isolado em França e detectado em Espanha em P. perniciosus (Charrel et al., 2009; Sánchez et
al., 2010) e o vírus Punique em P. perniciosus e P. longicuspis na Tunísia (Zihoua, 2010).
Os flavivírus isolados em flebótomos não são reconhecidos como patogénicos para os seres humanos, no entanto, devem ser referidos devido à importância que este género de vírus tem vindo a adquirir nos últimos anos.
O flavivírus Saboya, foi isolado a partir de roedores, aves e morcegos capturados no Senegal (Saluzzo et al., 1986; Butenko, 1996; Konstantinov et al., 2006;) e posteriormente foi isolado em flebótomos no mesmo país (Fontenile et al., 1994; Ba et
al., 1999; Traoré- Lamizana et al., 2001). O ciclo deste vírus permanece por explicar
suspeitando-se, no entanto, dos três grupos de vertebrados referidos como possíveis reservatórios.
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Mais recentemente, foram detectados ácidos nucleicos de flavivírus designados por insect-only, em pools de P. perniciosus capturados na Argélia e com designação proposta de “phlebotomine-associated flavivirus” (Moreau et al., 2010).