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A Organização Mundial da Saúde desde 1987, na Conferência de Genebra, reconhece o saneamento como a questão primordial em termos de saúde pública.

Neste contexto, a saúde, higiene e educação sanitária estão conectadas no intuito de fazer as pessoas reconhecerem onde os problemas de saúde originam-se, e perceberem como melhorar o saneamento por meio de suas próprias ações (SIMPSON-HÉBERT et al., 1996).

Considerando-se que 1.2 bilhões de pessoas no mundo não têm acesso à água de qualidade para usos potáveis, que 3 bilhões não possuem saneamento adequado e que 50% dos resíduos sólidos produzidos mundialmente não possuem destinação correta, o desenvolvimento de modelos de saneamento que priorizem tecnologias sustentáveis e de custo acessível é a única forma de minimizar os problemas de saúde pública originados a partir deste cenário (WHO, 2008).

Como uma das medidas para a melhoria deste cenário a aplicação do modelo de saneamento focado em recursos ou ecológico (ecological

sanitation como é conhecido internacionalmente) é muito adequado. O

modelo baseia-se na ciclagem dos nutrientes procurando promover a seguridade alimentar e hídrica, e consequentemente promovendo a manutenção da saúde humana e ambiental.

As pesquisas acerca do saneamento focado em recursos surgiram como uma necessidade de mudança de comportamento frente às ações humanas de base insustentável na área do saneamento. O modelo de saneamento predominante hoje nas sociedades (centralizado e de “fim de tubo”) considera os subprodutos de nossas atividades cotidianas como resíduos, baseando-se na lógica do afastamento e da transferência de responsabilidade (PHILIPPI et al., 2007).

O pensamento ecológico no saneamento foi reconhecido inicialmente pelos países nórdicos europeus, principalmente pela Suécia na década de 80 e intensificado neste mesmo país na década seguinte, até então sem o apoio de governantes (VINNERÅS e JÖNSSON, 2013).

Dos pontos de vista, tanto da agricultura como biologicamente, humanos são um tipo de animal, e para a sustentabilidade nossas fezes e urina devem voltar para a terra produzindo nossos alimentos, da mesma forma que os dejetos de animais em criadouros ou animais selvagens. Na verdade as excretas humanas possuem vantagens importantes sobre os dejetos de animais. Uma é que as fezes e urina podem ser coletadas separadas e quase sem nenhuma perda de nutrientes, o que eleva seu valor e torna o manuseio mais simples (JÖNSSON e VINNERÅS, 2013).

O quadro 01 apresenta uma comparação das emissões de poluentes no meio hídrico e o consumo de energia nos dois sistemas de saneamento, o sistema convencional centralizado e o sistema de saneamento focado em recursos. Existem várias alternativas tecnológicas e de aproveitamento das excretas neste modelo de saneamento. Na construção das comparações apresentadas no quadro foi considerada a segregação com o tratamento e disposição final das águas cinzas e o aproveitamento das águas negras para produção de biogás e reúso como fertilizante agrícola.

Conceito de saneamento convencional com tratamento avançado de esgoto sanitário

Novo conceito de saneamento com a segregação entre águas cinzas e negras

Emissões Emissões (águas cinzas)

DQO 3,60 kg.p-1.ano-1 DQO 0,80 kg.p-1.ano-1

DBO5 0,40 kg.p-1.ano-1 DBO5 0,10 kg.p-1.ano-1

N total 0,73 kg.p-1.ano-1 N total 0,20 kg.p-1.ano-1 P total 0,07 kg.p-1.ano-1 P total 0,01 kg.p-1.ano-1 K total >1,70 kg.p-1.ano-1 K total <0,60 kg.p-1.ano-1 Consumo (-) de energia Consumo (-)/Ganho (+) de energia

Abastecimento de água -25 kWh.p-1.ano-1 Abastecimento de água - 20 kWh.p-1.ano-1 Tratamento de esgoto -85 kWh.p-1.ano-1 Coleta de esgoto

segregado à vácuo - 25 kWh.p-1.ano-1

- - Tratamento de águas cinzas - 2 kWh.p-1.ano-1

- - Transporte de lodo - 20 kWh.p-1.ano-1

- - Produção de biogás +110kWh.p-1.ano-1

- - Substituição de fertilizantes + 60 kWh.p-1.ano-1 Balanço final -110kWh.p-1.ano-1 Balanço final + 103kWh.p-1.ano-1

Alguns princípios do saneamento focado em recursos podem ser elencados, dentre os quais (DRANGERT et al., 1997; ESREY et al., 1998; JÖNSSON e VINNERÅS, 2013):

 A diminuição da poluição ambiental causada pelas excretas humanas e a consequente prevenção de doenças;

 As excretas humanas consideradas um recurso, e não um resíduo;  A possibilidade de recuperação de nutrientes das excretas e sua

utilização como fertilizante e condicionante dos solos;

 A diminuição da utilização de água com a função de transporte das excretas;

 O uso de sistemas descentralizados para o gerenciamento e logística dos subprodutos gerados a partir de nossas atividades humanas.

Todo o pensamento e os apontamentos trazidos pelo saneamento focado em recursos foram reconhecidos nos “Princípios de Bellagio”, estabelecidos durante uma Conferência entre especialistas que aconteceu em Bellagio/Itália no ano de 2000, pertencentes ao Environmental

Quadro 01. Comparação da emissão de poluentes e do consumo de energia nos sistemas de saneamento convencional e ecológico. (Adaptado de OTTERPOHL, 2000).

Sanitation Working Group do Water Supply and Sanitation Collaborative Council, da Organização Mundial da Saúde e

Organização das Nações Unidas.

Nesta conferência foi afirmada a necessidade de mudanças radicais nas políticas e práticas convencionais, de maneira que se possa acelerar o progresso visando a universalização do acesso ao saneamento ambiental seguro, dentro de um panorama de seguridade hídrica e alimentar respeitando o valor econômico dos nossos resíduos.

Até recentemente, o reúso das excretas humanas como fertilizante era uma prática utilizada em muitas culturas e

sociedades, estabelecida inclusive na Europa e Estados Unidos no início do século passado. O que deve ser considerado relativamente novo é a prática da separação das fezes e urina humanas, entendendo que estes são dois componentes com características diferentes, e que seu tratamento e reúso individual possibilitam formas mais eficientes de aproveitamento dos seus componentes, além da facilidade de remoção de patógenos (predominantes nas fezes) e micropoluentes (principalmente resíduos de hormônios e fármacos - predominantes na urina) (ESREY et al., 2001).

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