Tauá localiza-se no sertão dos Inhamuns, a uma latitude de 6º00‟11”, longitude 40º17‟34” e a uma altitude de 402,7 metros, distando 320Km de Fortaleza (Figura 3). Possui uma área territorial de 4.018,19km2 e 55.716 habitantes, sendo 42,1% na zona rural, distribuídos nos distritos Barra Nova, Trici, Marruás, Carrapateiras, Inhamuns, Marrecas e Santa Tereza, num total de 532 localidades. A temperatura média
oscila entre 26ºC e 28ºC e pluviometria média de 597,2mm3, com período chuvoso de fevereiro a abril. Os municípios limítrofes são: ao norte Pedra Branca e Independência, ao sul Parambu e Arneiroz, ao leste Mombaça e Pedra Branca, ao oeste Quiterianópoles e Parambu. Possui 13,9 (hab/Km²) de densidade demográfica (IPECE, 2016).
Figura 3 - Localização do município de Tauá (CE), com destaque para as áreas pesquisadas: ( ) Unidades domiciliares; ( ) Ambiente silvestre
Fonte: Adaptado a partir dos programas Google Earth e QGis 2.14. Essen. A: Localização do Estado do Ceará. B: Área do município de Tauá, Ceará, Brazil. C: Área de estudo. D: Detalhe da área de estudo.
O Índice de Desenvolvimento Humano Médio (IDHM) foi 0,633, em 2010, o que situa esse município na faixa de Desenvolvimento Humano Médio (IDHM entre 0,600
e 0,699). A dimensão que mais contribui para o IDHM do município é Longevidade, com índice de 0,773, seguida de Renda, com 0,585, e de Educação, com 0,560 (BRASIL, 2013). Segundo dados da Secretaria da Saúde do Estado do Ceará, a região é considerada historicamente como uma das mais importantes no contexto ecoepidemiológico da transmissão da doença de Chagas no estado do Ceará, (Apêndices 1 a 13).
A cobertura vegetal da caatinga encontra-se fortemente degradada, apresentando sucessão secundária em seus padrões fisionômicos, onde predomina a caatinga arbustiva-arbórea. A vegetação caducifólia e garranchenta, inserida em solos rasos e quase sempre pedregosos possui elevada deficiência hídrica na maioria dos meses do ano (OLIVEIRA, 2006; Trigueiro et al., 2009).
A floresta caducifólia espinhosa é representada por Cactaceae (Mandacaru, Palma e Xique-xique) e caatinga arbustiva aberta, com espécies lenhosas das famílias Fabaceae (Angico, Pau-ferro, Imburana, Catingueira e algumas espécies de Juremas); Apocynaceae (Pereiro); Euphorbiaceae (Favela, Velame, Pinhão-bravo e Marmeleiro); Anacardiaceae (Aroeira e Mangueira); Mimosaceae (Jurema-branca e Algarobas) e espécies perenifólias como Rhamnaceae (Juazeiro) (Trigueiro et al., 2009; IBGE, 2012).
Conforme as unidades morfoestruturais do estado do Ceará (Souza, 1988) o Município de Tauá possui as seguintes unidades: Coberturas Sedimentares Cenozóicos com planícies e terraços fluviais; Maciços Residuais e Depressão Sertaneja Dissecada e Aplainada. O embasamento cristalino Pré-cambriano é o substrato rochoso mais abundante. Os maciços residuais estão situados nos limites geográficos de Tauá, entre as cotas altimétricas de 550m a 800m, no Maciço de Pedra Branca e Serra da Joaninha (OLIVEIRA, 2006).
A Depressão Sertaneja Dissecada encontra-se entre 450m e 550m, local de abundante extrativismo vegetal e pecuária. A caatinga arbórea densa, arbustiva aberta e arbóreo-arbustiva são as principais coberturas vegetais. Os relevos dissecados em colinas rasas de topografia suave e ondulados são intercalados por vales abertos, apresentando cristas em alguns setores, que possuem textura arenosa média, fase pedregosa e rochosa, relevo forte ondulado e montanhoso, substrato gnaisse e granito (Oliveira et al., 2000).
Depressão Sertaneja Aplainada dispõe entre 350m a 400m de altitude, cuja superfície apresenta erosão e variados tipos de rochas do embasamento cristalino. A ação da intensa morfogênese mecânica se expressa nas topografias de colinas onduladas a suavemente onduladas, intercaladas por superfícies planas e vales abertos, recobertos por um pavimento detrítico grosseiro (Oliveira et al., 2000).
É nesse contexto de rochas do embasamento cristalino, marcado principalmente por rochas graníticas com fraturas expressivas, vegetação caducifólia e arbustiva, que vivem pequenos mamíferos, répteis e insetos. Dentre eles o T. brasiliensis, que possui nesse ambiente o seu ecótopo primário (FORATTINI, 1980).
Inhamuns foi o primeiro nome dado ao município de Tauá por ter sido habitado pelos índios Jucás, que segundo José de Alencar significava “irmão do diabo”. A palavra Tauá origina-se no Tupi, e quer dizer “barro amarelo e argiloso”. Entretanto, a existência de três sítios paleontológicos e 15 arqueológicos, com inúmeras manifestações de populações rupestres atribuem a Tauá o significado de “cidade antiga”. A utilização dos conjuntos de pedras graníticas como habitação pelos primeiros habitantes da região pode supor o quão antigo é o contato desse povo com os triatomíneos ali existentes. Em 3 de maio de 1802, o povoado foi elevada à vila, com o nome de São João do Príncipe, estimulando a ocupação das regiões dos Inhamuns (IBGE, 2008).
O Serrote Quinamuiú, cujo significado em Tupi quer dizer “serra perto da água” é um dos afloramentos rochosos mais belos do Ceará, localizado a Oeste da sede municipal e pode ser visto de qualquer ponto da cidade. Na Serra da Joaninha nasce o rio Jaguaribe, com o nome de Trici (IBGE, 2008).
O município de Tauá iniciou as atividades do PCDCh em 1983, com a vasta implantação ocorrida nesse período, como citado anteriormente. As prevalências populacionais da infecção pelo T. cruzi no município de Tauá foram estudadas por duas ocasiões em inquéritos nacionais: 1) Inquérito sorológico realizado em escolares, com crianças de 7 a 14 anos, entre 1991 e 1993, com 1.732 amostras processadas (4,5% - 1732/38.429) da amostra coletada no estado, sem reações positivas (BRASIL, 1996); 2) Inquérito da Soroprevalência da Infecção Chagásica (INSIC), entre 2001 e 2008, em crianças de 0 a 5 anos incompletos, onde foram coletadas 231 (2,4% - 231/9.797) do total de amostras estadual, também sem positividade (Ostermayer et al., 2011).
Dados do Laboratório Central de Saúde Pública (LACEN) da Secretaria da Saúde do Estado do Ceará identificaram uma prevalência em Tauá de 6,2% (70 /1.123) no período de 2013 até agosto de 2018. Segundo o Sistema de Mortalidade (SIM), Tauá representou 1,9% (5/258) das mortes por doença de Chagas no Ceará como causa básica e associada, no mesmo período analisado (dados não publicados).
Os apêndices 1 a 13 mostram o histórico dos indicadores entomológicos do PCDCh em Tauá, onde é possível observar a descontinuidade das atividades de campo, a princípio na década de 1990, e de forma mais acentuada a partir de 2003, período da
consolidação da descentralização das ações de controle vetorial do nível federal para o municipal (DIAS, 2000). A consolidação do PCDCh, após a descentralização é um processo tecnicamente viável, mas depende de aprimoramentos administrativos em sua estrutura, e de real vontade política dos governantes (Villela et al., 2007). Tauá é um exemplo de como os desafios para manter as ações mínimas do PCDCh após a descentralização são ainda maiores. O extenso território, elevada dispersão de triatomíneos, limitação operacional e sucessivas epidemias por arboviros comprometem a frágil estrutura municipal, expondo a população local ao risco de transmissão não só da doença de Chagas, mas também outros agravos veiculados por vetores (Dias et al., 2000).
2. JUSTIFICATIVA
Diante do exposto, este estudo justifica-se pelos seguintes motivos:
O limitado conhecimento sobre os elementos que constituem a dinâmica de infestação e reinfestação de triatomíneos e a transmissão de T. cruzi no semiárido nordestino.
A intensidade do processo de reinfestação das unidades domiciliares, em especial o peridomicílio, após borrifação residual por espécies autóctones de triatomíneos é um tema de fundamental compreensão para o sucesso do controle vetorial (SCHOFIELD, 2000; WHO, 2002b; Picollo et al., 2005; Carbajal De La Fuente et al., 2007; Feliciangeli et al., 2007).
O desenvolvimento do estudo aqui proposto poderá fornecer subsídios para se avaliar a importância dos ecótopos naturais e artificiais no processo de colonização e recolonização das unidades domiciliares, principalmente pelo T. b. brasiliensis, colaborando com informações úteis para auxiliar na elaboração de estratégias adequadas ao controle dos vetores da doença de Chagas.
O município de Tauá foi escolhido por representar a região do Sertão dos Inhamuns, localizado no semiárido nordestino, cujo bioma predominante é a Caatinga. Possui localidades rurais com alta dispersão e infestação por T. b. brasiliensis e T.
pseudomaculata.
As perguntas de partida para a construção do objeto de estudo foram:
i) Ocorreu alteração nos índices de infestação por triatomíneos ao longo do período de estudo nas localidades rurais trabalhadas no município?
ii) Ocorreu alguma alteração no perfil de infecção por T. cruzi nestes triatomíneos? iii) Houve diferença de infestação por triatomíneos no ambiente silvestre em relação às espécies e abundância do vetor?
iv) Houve diferença no perfil de infecção por T. cruzi nestes triatomíneos silvestres? v) Como provavelmente ocorre o processo de infestação nas localidades estudadas? vi) Quais as fontes alimentares as populações de triatomíneos se utilizam e qual seu significado eco-epidemiológico?
vii) Há populações diferentes de triatomíneos entre amostras temporalmente coletadas em ambientes intradomiciliar, peridomiciliar e silvestre? Esta caracterização pode explicar algum processo de invasão ou persistência de triatomíneos em meio artificial?
3. OBJETIVOS 3.1. Objetivo geral
Caracterizar a ecoepidemiologia de triatomíneos e diversidade genética de
Triatoma brasiliensis brasiliensis e de Trypanosoma cruzi em áreas de caatinga do
município de Tauá (CE), de 2009 a 2015.
3.2. Objetivos específicos
a) Descrever os indicadores entomológicos do Programa de Controle da Doença de Chagas na área de estudo no município de Tauá (CE) nos anos de 2009, 2010 e 2015.
b) Identificar quais espécies de triatomíneos estavam presentes na área de estudo no município de Tauá (CE) nos anos de 2009, 2010 e 2015.
c) Identificar o perfil de infestação pelo Triatoma brasiliensis brasiliensis em ambientes naturais identificados no município de Tauá (CE) ao longo do estudo.
d) Descrever a infecção pelo Trypanosoma cruzi em triatomíneos no ambiente intradomiciliar, peridomiciliar e silvestre na área de estudo no município de Tauá (CE) nos anos de 2009, 2010 e 2015.
e) Descrever os padrões de infestação e colonização após controle químico residual realizado em 2009 e 2010 em ambiente intradomiciliar e peridomiciliar na área de estudo no município de Tauá (CE) 6, 14, 20 e 78 meses após a primeira borrifação.
f) Descrever as fontes alimentares associadas a T. b. brasiliensis em ambientes intradomiciliar, peridomiciliar e silvestre de localidades no município de Tauá (CE) em 2015.
g) Caracterizar a dinâmica de infestação e reinfestação de T. b. brasiliensis.
h) Caracterizar o perfil molecular de T. cruzi em ambientes intradomiciliar, peridomiciliar e silvestre na área de estudo no município de Tauá (CE) nos anos de 2009, 2010 e 2015.
4. METODOLOGIA 4.1. Tipo de Estudo
Trata-se de um estudo transversal descritivo com cortes temporais.
4.2. Área de estudo
Para a pesquisa triatomínica domiciliar foram selecionadas 18 localidades integrantes do distrito Carrapateiras, totalizando 252 unidades domiciliares (UDs), são elas: Açude Novo do Sátiro (AS) (10 UDs), Belo Horizonte do Alfredo (BHAL) (24 UDs), Benfica do INCRA (BI) (2 UDs), Betânia (BET) (2 UDs), Cachoeira do Júlio (CJ) (17 UDs), Cachoeira dos Pedrosas (CP) (5 UDs), Canadá (CANA) (6 UDs), Jasmim do Aluísio (JA) (3 UDs), Merejo do Angico (MA) (12 UDs), Morada Nova do Pedro (MNP) (17 UDs), Morada Nova do Tomaz (MNT) (27 UDs), Mutuca (MUTU) (61 UDs), Mutuquinha (MUTQ) (36 UDs), Santa Fé (SF) (8 UDs), São Bento do INCRA (SBI) (8 UDs), São Cristóvão (SC) (7 UDs), Umburana (UMB) (3 UDs) e Várzea do Touro (VT) (4 UDs) (Figura 3).
Figura 4 - Área de estudo para pesquisa triatomínica no município de Tauá (CE)