A fixação dos povoados, muitas vezes apropriada para o modo de vida e necessidades de defesa das populações, condiciona a sua implantação e exploração do território. Esta questão é clara e firme do ponto de vista cronológico, cujos locais evidenciam em grande norma uma continuidade na sua ocupação, que mesmo na atualidade a urbe se desenvolve, em muitos dos casos, envolta pelo ambiente dos considerados sítios do povoado primitivo.
Numa necessidade de controlo e defesa do território, em sociedades cuja organização social já se encontra bastante hierarquizada e organizada socialmente, tendo em linha de conta a existência de uma classe dominante, cuja ideia de “poder” e domínio é evidente, a implantação em locais proeminentes cujo contacto visual é amplo para controlo de vias, portelas e cumeadas onde outros povoados se localizam, é um fator preponderante quando falamos em povoamento do Iº Milénio a.C. (Idade do Bronze – Final e Idade do Ferro).
Os povoados da Idade do Ferro não modificaram a paisagem, antes pelo contrário, houve uma necessidade de construção sustentada, muitas vezes ajustada em conformidade com a orografia do terreno e os elementos que este possui, nomeadamente os afloramentos graníticos.
Existe uma preocupação em aglomerados deste período cronológico em ver e controlar, mas ao mesmo tempo não ser visto. Existe então uma relação entre visibilidade e invisibilidade, porque apesar de controlo e domínio de território e vias de circulação, estes, pela forma como se encontram edificados na colina requerem, um bom angulo de visão e, ao mesmo tempo, uma “presença dissimulada” como meio de defesa (DELINDRO, 2012: 82).
|35 O relevo da Serra da Estrela caracterizado principalmente pelas suas cumeeiras graníticas, cuja observação nos remete diretamente para a ideia de povoados em altitude, os designados “castros”, é uma forma muito clara e objetiva, cuja observação local nos aponta para o facto deste sítios de implantação serem os mais promissores para a prospeção de sítios característicos da Idade do Bronze Final e Ferro. Se nos fundamentássemos unicamente pela observação do território e análise dos recursos locais, poderíamos convictamente afirmar a existência de um povoado em qualquer uma das cumeadas, pelas características morfológicas que estas apresentam.
Numa zona onde se encontram povoados de maior destaque, pela morfologia do terreno, o Cabeço de Santo Estevão e Monte de Alfátima (C.M.P 1:25000 – Folha 212), cujo contacto visual é altamente abrangedor por toda a “Plataforma do Mondego” alcançando ao longe e igualmente de grande altitude a Serra do Caramulo, observamos uma série de cumeadas irrigadas por ribeiras mais modestas, afluentes do Rio Mondego. Uma prospeção de campo levada a cabo, na sequência desta investigação, permitiu-nos averiguar que muitos dos locais constantes neste ponto de grande altitude, citados por Martins Sarmento aquando da Expedição Científica à Serra da Estrela (SARMENTO, 1883) e Jorge de Alarcão quando realizava o inventário arqueológico para o Parque Natural da Serra da Estrela (ALARCÃO, 1993), não são locais totalmente descabidos de evidências arqueológicas. Entendemos e apontamos para a existência de uma rede de povoamento de altitude, no desenrolar da montanha até à “Plataforma do Mondego”.
Muitos dos locais citados como, por exemplo o Monte de Alfátima – Gouveia, localizado a 1310m de altitude (ALARCÃO, 1993 e SARMENTO, 1883), e Castro do Cabeço Redondo – Gouveia (ALARCÃO, 1993 e SENNA-MARTINEZ, 1989), sítios localizados a grande altitude, cujos vestígios assinalados careciam de presença duvidosa pelos autores, mas que a nossa investigação esclarece com presença de dados materiais, sustentam a tese de ocupação proto-histórica dos locais. A presença do elemento defensivo é em todos eles uma constante, vestígios de muralha que atualmente ainda são visíveis é o vestígio mais exequível cuja ocupação dos locais consideramos.
O Monte de Alfátima é um local de grande altitude, cujo campo de visão é amplamente claro e importante. Estas características, em primeira linha, conferem ao local um sítio estratégico e promissor para a implantação de um povoado. Se, por um lado, entendemos as altitudes elevadas como um ponto negativo para a fixação de populações de forma permanente, por outro lado, dados materiais como a presença de estruturas defensivas como são as linhas de muralha, muitas vezes estas são construções
|36 de bom aparelho sempre que possível aproveitando os afloramentos graníticos das cumeadas, dão nos conta que, quer por uma questão de estratégia defensiva, quer por uma questão de poder territorial, a localização de povoados a grande altitude não se justifica apenas pelos motivos já indicados ou estes podem ser considerados como locais de permanência temporária, aliados à exploração de atividades sazonais da montanha. A permanência a grande altitude de forma sazonal não seria justificada para a construção de uma muralha. Entendemos, portanto, que o poder do território poderia ser o motivo para a construção da estrutura defensiva como marco antrópico do domínio do lugar.
A altitude a que se encontram é uma situação constante em todos os povoados desta vertente da Serra da Estrela, cujas cumeadas se encontram irrigadas na sua maioria por modestas ribeiras, afluentes do Rio Mondego (DAVEAU, 1969:40), um recurso importante para a exploração do território.
A localização de diversos povoados na vertente Este dos concelhos de Seia e Gouveia leva-nos a apontar para uma possível rede de povoados em altitude, cuja característica principal é o contacto visual com a “Plataforma do Mondego” e a Serra do Caramulo. Bons exemplos deste local são o conjunto do Castro de Baixo e Castro de Cima (ALARCÃO, 1993), Alfátima (ALARCÃO, 1993 e SARMENTO, 1983), Cabeço Redondo (ALARCÃO, 1993 e SENNA-MARTINEZ, 1989 e 1995), Cabeço de São Sebastião e Castelões, estes dois últimos sítios inéditos, resultado de prospeções no âmbito da nossa investigação.
O desenvolvimento de uma rede de povoados de altitude, localizados no desfraldar da montanha, leva-nos a entender a utilização desta zona, cujo campo de visão alcança a Serra do Caramulo, como zona de controlo e domínio territorial.
Na vertente sul de Seia, na zona mais acidentada do concelho, onde se encontram implantadas algumas das aldeias de montanha19, cuja morfologia do terreno obrigou a uma harmonizada implantação do Homem, situam-se locais favoráveis para a implantação de povoados de altitude, em cumeadas acima dos 800m. Ao longo desta orla encontramos alguns povoados, cujas parcas referências eram citadas em dados bibliográficos de monografias locais, e onde a sua localização apenas foi possível, em muitos dos casos, por dados de populares.
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Aldeias de Montanha do Concelho de Seia: Alvoco da Serra, Cabeça, Lapa dos Dinheiros, Loriga, Senhora do Desterro, Sazes da Beira, Teixeira, Valezim e Vide.
|37 O importante sítio do Bronze Final, Idade do Ferro e Romano para o estudo do povoamento na zona da Beira Alta, Cabeço do Castro de São Romão – Senhora do Desterro, São Romão, encontra-se a uma altitude de 888m nesta faixa de cumeadas, num cume sobranceiro irrigado pelo Rio Alva e a Ribeira da Caniça (SENNA- MARTINEZ, 1989). Este povoado, escavado na década de 80 do século XX e estudado por Senna-Martinez, Carlos Fabião e Amílcar Guerra, no âmbito do programa de investigação PEABMAM - Programa de Estudo Arqueológico da Bacia do Médio e Alto Mondego,é um dos dois locais pertencentes ao concelho de Seia alvo de escavação arqueológica e referencias bibliográficas sólidas, o que permite, num sentido verosímil, dada a índole da nossa investigação, ser um local consistente do ponto de vista arqueológico para um concelho cujas evidências arqueológicas mais concretas, resultado de escavações e estudos de campo, são escassas.
Este território de morfologia acidentada, irrigado pelo rio principal, o Rio Alva, é um local favorável à implantação de locais de povoamento permanente. Sublinhamos o exemplo dos sítios: Cabeço do Castro de São Romão, Buraco da Moura de São Romão, Cabeças – Vila Cova e Monte do Castro – Valezim. A localização destes locais, salvo o caso do Buraco da Moura de São Romão, por este se tratar de uma gruta, encontram-se em cumeadas situadas a sul do concelho de Seia, na zona do Alto Alva, irrigadas por este rio e pela Ribeira da Caniça.
O Monte do Castro (ALMEIDA, 1945: 335 e ALARCÃO, 1993: 13), em Valezim, localizado num monte sobranceiro, junto à ermida dedicada ao culto da Senhora da Saúde, é um dos sítios dos quais não tínhamos dados concretos, apenas referências bibliográficas e relatos populares. A existência deste local pela sua implantação em altitude e proximidade com uma via antiga (Calçada de Valezim) que vem na direção do Cabeço do Castro de São Romão, sempre nos pareceu viável, embora Alarcão a considera-se duvidosa, devido à presença de um outro povoado do mesmo carácter nas proximidades (ALARCÃO, 1993:13).
Caminhando mais para sul, atravessando a Portela do Arão, encontramos o sítio: O Castro – Loriga - localizado a 900m de altitude numa zona de relevo bastante acidentado, cujo ambiente é rodeado por montes ingremes de penhas graníticas a 1500m de altitude, irrigado pela ribeira de Loriga. Pertencente à atual vila de Loriga, cuja monografia do concelho de Seia, redigida por Quelhas Bigotte, identifica este local como um “castro lusitano”, onde em 1759 eram visíveis ruinas e alinhamentos de muro.
|38 Com a romanização, este local foi deslocado para o sítio do Chão do Soito, considerado o povoado primitivo que deu origem à urbe atual (BIGOTTE, 1992:484).
Loriga é o resultado do “domínio arcaizante da montanha” como descreve Orlando Ribeiro (RIBEIRO,1967: 167) à forma de adaptação do homem à montanha ingreme de forma a tirar o maior proveito dos seus recursos. A observação panorâmica, em altitude desta vila encaixada entre duas ribeiras, a Ribeira da Nave e a Ribeira de São Bento, da junção destas nasce a ribeira que dá o nome à vila – Ribeira de Loriga afluente do Rio Alva, impressiona pela beleza da sua implantação, cuja urbe se desenvolve desde a cumeada até ao vale nas ribeiras em sucessivos e simétricos socalcos agrícolas, como se se tratasse de uma maquete desenvolvida no esporão.
Povoados localizados na “Plataforma do Mondego”, do período cronológico da Proto-História, mesmo localizados na zona de menor altitude, na área dos concelhos alvo da nossa investigação, aproveitam sempre montes dominantes da plataforma irrigada pelo elemento que lhe dá o nome – Rio Mondego - cujos cumes são afáveis para a implantação das populações.
O sítio do Castelo, localizado em Arcozelo, concelho de Gouveia, é um bom exemplo de povoado fortificado da Idade do Bronze Final / Idade do Ferro cuja cronologia de ocupação se prolonga até à Alta Idade Média (ALARCÃO, 1993 e TENTE, 1999 e 2010), localizado a poucos quilómetros do Rio Mondego, num monte sobranceiro cujo campo visual é bastante favorável, para um alcance em todas as direções e em contacto com outros povoados do mesmo tipo.
A 750m do monte do Castelo encontra-se situado o povoado do Risado. A sua ocupação estende-se até à época medieval (TENTE, 2007 e 2010), pela presença óbvia de uma necrópole de sepulturas escavadas na rocha, contudo uma intervenção no local poderia clarificar a ocupação e funcionalidade do mesmo. A ligação destes dois sítios quer pela proximidade, quer pelas evidências arqueológicas parece evidente e de alguma forma verdadeira (TENTE, 2010: 132). Consideramos que a cronologia mais arcaica deste sítio, assim como Jorge de Alarcão (ALARCÃO, 1993), remonta ao período do Bronze Final, Idade do Ferro. Pelo derrube de pétreo, que observamos no local, parece tratar-se de uma linha de muralha.
Os investigadores Jorge de Alarcão e Catarina Tente consideram este local, dada a forte quantidade e dispersão de material cerâmico de construção e comum de época romana, inclusive a recolha de um fragmento de terra sigillata hispânica (ALARCÃO,
|39 1993:25), como sendo um casal agrícola ou uma villa de médias a grandes dimensões, implantado sobre um povoado anterior (ALACÃO, 1993:25 e TENTE, 2010: 129-137). A localização semelhante, já na área do concelho de Seia, dos aglomerados das freguesias de Torroselo – Outeiro do Castro (SARMENTO, 1883) e Castro de Paranhos da Beira - Paranhos da Beira (ALMEIDA, 1945), apontam para o que julgamos tratar-se de locais da Idade do Bronze Final e Idade do Ferro, já anteriormente referenciados, implantados em plena “Plataforma do Mondego” com as mesmas características e semelhantes realidades de ocupação, dos locais mencionados para o concelho de Gouveia.
O Outeiro do Castro, em Torroselo, é referenciado por Martins Sarmento aquando da sua visita no âmbito da Expedição Cientifica à Serra da Estrela (SARMENTO, 1883). O sítio encontra-se implantado num monte destacado a 500m da urbe atual da freguesia de Torroselo, irrigado pelo Rio Cobral, que Jorge de Alarcão refere e localiza na cartografia do seu inventário: Arqueologia da Serra da Estrela (ALARCÃO, 1993:15). O contacto visual deste sítio é totalmente abrangedor, resultante da sua implantação favorável, mantendo contacto com os povoados implantados nas cumeadas da zona do Alto Alva.
O povoado Castro de Paranhos da Beira, mencionado por João de Almeida, do qual apresenta fotografias, do que considera ser uma linha de muralha (ALMEIDA, 1945), entendemo-lo pertencente à Idade do Bronze Final / Idade do Ferro, situando-se numa elevação a norte do Santuário religioso dedicado ao culto de Santa Eufémia devido à observação cartográfica, à referência a um povoado proto-histórico num monte sobranceiro ao santuário, referido numa publicação da capela de Santa Eufémia (COELHO, 1993) e prospeções que realizámos no local.
Os sítios de Outeiro do Castro e Castro de Paranhos da Beira são locais situados na “Planície da Beira Alta”, em elevações relevantes que lhes conferem paralelismo com os sítios do Castelo e do Risado em Arcozelo, concelho de Gouveia. Evidências arqueológicas poderiam atestar a nossa afirmação de forma mais viável, contudo as certezas já comprovadas para os povoados deste género, do concelho de Gouveia, levam-nos a sopor uma realidade paralela, dada a localização e características dos sítios.
A dispersão e implantação dos povoados ocorre principalmente nos montes destacados em altitude ou nos sobranceiros da zona de planície, devido à presença dos
|40 rios principais (Alva e Mondego) e ribeiras afluentes vistos como um recurso atrativo à concentração de áreas de povoamento mais circunscrito e centralizado.
A existência de povoados, na sua maioria implantados em elevações destacadas na paisagem, cujo anglo de visão é claramente abrangedor, é uma constante nos casos referidos para aglomerados da Idade do Bronze Final / Idade do Ferro, não só como sítios de destaque para meios de defesa e controlo de vias e portelas, mas também como uma preocupação em se manifestarem na paisagem, e com propósito de domínio e poder do território, aspetos importantes para uma sociedade que já se deparava com questões de carácter sociológico, como a liderança e hierarquização social.