A presente investigação consistiu num estudo do tipo sondagem e num outro quasi-experimental (Campbell e Stanley, 1988), realizado em duas escolas (na Escola do 3º Ciclo/Secundária de Vila Verde e na Escola Básica do 2º/3º Ciclo da mesma localidade) no ano lectivo de 2002/2003, com a finalidade de verificar o estado da Educação Alimentar em alunos do 3º Ciclo do Concelho de Vila Verde e testar a eficácia de uma intervenção pedagógica denominada “Aprender a comer para melhor viver”. Para a realização do estudo de tipo sondagem participaram cinco turmas, sendo três da Escola 3º Ciclo/Secundária e duas da Escola Básica 2/3, perfazendo um total de 110 alunos.
Para efectuar o estudo quasi-experimental constituíram-se dois grupos, um experimental e um de controlo, cada um formado por alunos de duas turmas, seleccionadas de entre as existentes nas respectivas escolas. Assim, o grupo experimental (onde se fez a intervenção) era formado por duas turmas da Escola 3º Ciclo/Secundária de Vila Verde e o grupo de controlo por duas turmas da Escola Básica do 2º e 3º Ciclo da mesma localidade, ou seja, esta amostra é formada por 4 turmas das 5 utilizadas no estudo tipo sondagem. Desta amostra fazem parte todos os alunos em que foi possível o emparelhamento entre o pré-teste e o pós-teste, constituindo um total de 92 alunos. Salientamos que inicialmente tínhamos cinco turmas para a realização do estudo quasi-experimental, sendo uma delas excluída por não lhe ter sido aplicado o pós-teste por um dos professores colaboradores. O desenho desta investigação não é do tipo experimental pelo facto dos sujeitos que integraram o grupo experimental e controlo não terem sido escolhidos aleatoriamente mas sim os grupos (as turmas) a que pertenciam, estando estes formados naturalmente. Embora os grupos dos alunos pertencessem a escolas diferentes, tivemos o cuidado de seleccionar grupos da mesma localidade – Vila Verde, com vista à obtenção de uma semelhança do ponto de vista socio-demográfico, condição indispensável para se poderem comparar os resultados obtidos numa e noutra escola. Não obstante serem do mesmo meio, observámos após a análise sociométrica que uma das turmas do grupo controlo era socialmente favorecida.
Antecedendo a presente investigação, fez-se um estudo piloto para validar o instrumento de recolha de dados desenvolvido (questionário de resposta individual) que viria a ser utilizado nos estudos de tipo sondagem e quasi-experimental.
das duas escolas já referidas, com os objectivos de determinar os conhecimentos dos alunos sobre alimentação saudável, e as suas intenções futuras relativamente à adopção de uma alimentação adequada.
Salientamos que em anos lectivos anteriores – 1997/1998 e seguintes - foi realizado outro estudo piloto para validar as estratégias e os materiais didácticos que viriam a integrar as várias sessões do Programa “Aprender a comer para melhor viver” (aquele que iria ser implementado no grupo experimental), que é um programa orientado para a promoção de hábitos alimentares saudáveis. A parte principal deste estudo decorreu na Escola Secundária de Amares, tendo os autores do programa recorrido a alunos do 8º ano de escolaridade das turmas leccionadas pelos professores estagiários de Ciências Naturais que à data leccionavam nessa escola. Foi também validada a intervenção deste programa intensivo, em anos subsequentes, na Universidade do Minho, pelo conjunto de professores que participou num curso de formação da FOCO aí realizado, por um dos autores do referido programa de educação alimentar e, ainda, na Escola Secundária de Vila Verde com a colaboração do respectivo Núcleo de Estágio de Biologia e Geologia.
Após o estudo de tipo sondagem procedeu-se ao estudo quasi-experimental com a finalidade de testar a eficácia do respectivo programa, na promoção dos conhecimentos e intenções favoráveis a uma alimentação saudável. Pormenorizam-se a seguir os passos subjacentes a esse estudo.
Assim, seguindo as orientações metodológicas próprias dos estudos quasi-experimentais (Campbell e Stanley, 1988), seleccionou-se numa escola um conjunto de três turmas do 8º ano onde o programa “Aprender a comer para melhor viver” viria a ser implementado (grupo experimental — Escola 3ºCiclo/Secundária de Vila Verde) e noutra escola um conjunto de duas turmas do mesmo ano que viriam a servir como controlo e onde o programa não seria implementado (grupo de controlo - Escola Básica do 2º/3º Ciclo de Vila Verde). Nesta última seria implementado o programa oficial, relativo à Unidade Programática “Alimentação e Saúde”.
O facto de se ter optado por escolas diferentes para constituírem o grupo experimental e o grupo controlo e não formar esses grupos recorrendo a diferentes turmas da mesma escola, deveu-se, fundamentalmente, à necessidade de evitar a contaminação do grupo controlo. Essa contrariedade podia ocorrer pelo facto de algumas acções atingirem indirectamente todos os alunos do 8º ano e por ser difícil a um professor que leccionasse turmas pertencentes a ambos os grupos (experimental e controlo) fazer a indispensável distinção entre as actividades a desenvolver numa e noutra turma. Além disso, a opção por escolas diferentes também evita enfraquecer a validade interna do estudo, pois se se viesse a verificar rivalidade entre os grupos controlo e experimental, ou desmoralização do grupo controlo, poderia haver enviesamento dos resultados.
Depois de se recrutarem os professores das disciplinas de Ciências Naturais, que iriam implementar o programa (docentes das turmas do grupo experimental), foi-lhes dada formação prévia, relativamente a aspectos teóricos relacionados com a problemática da “Alimentação Racional” e do programa a implementar, tentando consensualizar pontos de vista, quer no que respeita a materiais a aplicar ao longo do programa, quer a aspectos metodológicos a ter em conta.
Posteriormente foi aplicado o instrumento de recolha de dados, como pré-teste, aos alunos do 8º ano dos dois grupos (os dados fornecidos pelo pré-teste, conforme já foi referido, foram utilizados no estudo de tipo sondagem), e foi preenchido antes da aplicação do respectivo programa de Educação Alimentar no grupo experimental, e da abordagem oficial/“tradicional” no grupo controlo. Foi fornecido um conjunto de instruções aos professores para os orientar na aplicação do referido questionário. Os dados recolhidos no pré-teste, que foi aplicado aos grupos experimental e controlo, processaram-se de forma a atingir os objectivos do estudo do tipo sondagem. Para determinar os conhecimentos dos alunos sobre alimentação saudável, utilizou-se a média obtida pelos alunos da amostra nos itens do questionário que tinham variáveis contínuas e foram feitas distribuições de frequências nos itens do questionário relativos a variáveis de categoria.
Para determinar as intenções dos alunos relativamente à adopção de uma alimentação adequada procedeu-se de igual forma. No primeiro período do ano lectivo de 2002/2003, após a aplicação do pré-teste, implementou-se o programa “Aprender a Comer Para Melhor Viver” aos alunos do grupo experimental.
As aulas foram sendo observadas com o objectivo de verificar se se desenrolavam conforme o que estava previsto.
Após a aplicação dos programas “Aprender a Comer Para Melhor Viver” e o oficial – “Alimentação e Saúde”, os alunos dos grupos experimental e controlo preencheram o mesmo questionário, funcionando agora como pós-teste, de modo a verificar a evolução dos conhecimentos e das intenções em matéria de alimentação.
Os dados recolhidos foram introduzidos numa folha do programa Statview e foram comparados os resultados obtidos pelos dois grupos (experimental e controlo), antes de ensino e pós-ensino. Assim, a eficácia das intervenções pedagógicas foi inferida com base na evolução dos alunos, relativamente aos conhecimentos sobre a “alimentação” e nas suas intenções respeitantes à prática de uma alimentação saudável. Em termos técnicos, para avaliar a eficácia da intervenção utilizaram-se dois procedimentos: (1) comparação das médias obtidas pelos alunos do grupos experimental e controlo no pré e no pós-teste, utilizando para o efeito o teste t’Student com um grau de significância de p<0,05, por se tratarem de variáveis contínuas; (2) análise da distribuição de frequências obtidas pelos dois grupos no pré e no pós-teste, recorrendo ao X por se tratarem de variáveis de categoria. O quadro 1 resume todo o trajecto seguido nesta investigação.
Quadro 1
Sumário dos estudos desenvolvidos na investigação
2
Ano lectivo Estudos efectuados
1997/98 e anos lectivos subsequentes.
Estudo piloto para validar o programa intensivo de intervenção “Aprender a comer para melhor viver”.
Fim do ano lectivo de 2001/2002.
Estudo piloto para validar o instrumento de recolha de dados (questionário).
Início do ano lectivo de 2002/2003 até ao final do 1º período.
Estudo do tipo sondagem (aplicação do questionário).
Estudo quasi-experimental (utilização do questionário/pré-teste realizado para o estudo tipo sondagem, implementação do programa “Aprender a comer para melhor viver” e aplicação do pós-teste).
O esquema da figura 4 pretende representar a sequência de “passos” subjacentes ao estudo quasi-experimental