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A comparative extension of the analysis of modes of local governance?

Tendo em vista o exposto, esta tese visa a compreender a constituição enunciativa da charge, isto é, sua arquitetônica, a fim de trazer à luz um trabalho científico que discorra sobre tonalidades de intolerância especificamente no gênero discursivo que se convencionou chamar charge com contorno intolerante. Para tanto, analisam-se duas charges edificadas a partir de temáticas que podem delinear um projeto de discurso com tonalidades de intolerância.

A compreensão da noção arquitetônica é relevante por ainda não ter sido esmiuçada em sua plenitude, especificamente em relação a discursos verbo-visuais. A partir da entrada arquitetônica bakhtiniana no banco de teses e dissertações da CAPES, como resultado aparecem 361 teses para a grande área de Letras e Linguística. Nesse recorte entram muitos trabalhos específicos de literatura; a outra parte está pulverizada entre noções gerais de gênero do dicurso, letramento, propostas de leitura, revisão e publicidade e propaganda. Nesses casos, arquitetônica aparece como um conceito da obra do Grupo, não propriamente configurando uma análise vertical de como essa noção se constitui – claro que a plataforma Sucupira não é um parâmetro universal para medir a originalidade de uma pesquisa, mas é um cômputo importante das produções nacionais, uma relevante base de dados.

Ademais, no que diz respeito à apreensão das noções mencionadas no âmbito de charges que veiculam discursos com tonalidades de intolerância, não foram encontrados registros que contemplem pesquisas científicas nos parâmetros da teoria dialógica do discurso, tampouco na interface que se propõe nesta tese: discurso, filosofia e direito – em pontos específicos, recorre-se a noções oportunas advindas da sociologia.

Tendo em vista tais considerações, foram selecionadas para análise duas charges com contorno intolerante, a julgar por seus elementos visuais ou verbo-visuais – frente à tensão das vozes sociais que as atravessam na relação que conta com: o autor que as assina, o veículo em que foram publicadas e no compor das tramas que se estabelecem entre os discursos contemporâneos que dialogam com elas.

Como o aspecto emotivo-volitivo do autor da tese também perpassa sua busca e seleção do objeto de pesquisa, é importante sublinhar que uma vez estabelecido o interesse por investigar o discurso intolerante em charges, há três atitudes: de antemão, ter uma concepção do que é o discurso intolerante, selecionar o escopo de atuação (intolerância em charges) e por ele procurar. Assim, no universo de charges que são produzidas e estão disponibilizadas na internet, o olhar já está definido para a percepção de obras que podem deixar ver intolerância. Certamente as análises dirão se essa suposição inicial que motivou a seleção era verdadeira ou não.

Chegou-se a esse recorte a partir de uma pesquisa na internet com a palavra- chave charges intolerantes, a fim de encontrar materiais que deixassem ver leituras inapropriadas ou algum aspecto que envolvesse a pauta sentidos intolerantes. Foi percebido que muitas das buscas para a entrada selecionada relacionam-se com as

charges quando do episódio Charlie Hebdo e algumas poucas outras charges cuja temática era a intolerância religiosa.

Embora o caso Charlie Hebdo tenha sido um motivador para a ideia do recorte de pesquisa, não era o objeto em si, assim que se partiu para palavras-chave já sabidamente atravessadas por discursos intolerantes: charge machista; charge religiosa; charge homossexual. Essa busca também não apresentou resultados satisfatórios, pois ainda muitos deles estavam vinculados ao semanário Charlie, em razão de o Grupo publicar sobre temas diversos.

A terceira tentativa foi realizada no buscador Google, sob a entrada charge x discurso de ódio. Especificamente na aba imagens, foi-se acessando o conteúdo a fim de entender o que se tinha. Muitas das charges que apareceram estavam fazendo menção, via conteúdo verbo-visual, às temáticas que são foco de preconceito. Eram discursos explicitamente denunciantes, contra racismo, contra feminicídio, contra homofobia.

Seguiu-se o refinamento, porém selecionando somente a palavra-chave charge ódio. Essa busca também mostrou como resultados charges sobre denúncia da promoção de discurso intolerante, sempre relacionada a alguma matéria cujo matiz também era de denúncia. Dando continuidade mais minuciosamente a essa busca, foi percebido que algumas charges não tinham nuances de protesto, seus sentidos se edificavam de modo diferente: minha hipótese inicial é que seus elementos verbo- visuais configuram um discurso com tonalidade intolerante. Esse julgamento de valor surge da tensão desses elementos com os fatos sociais quando da publicação de cada charge.

Tendo em vista esse cenário, por motivos metodológicos etiquetei as charges encontradas pelo que convencionei chamar de charges de denúncia forte (por seus elementos configurarem protesto sem ataque) e charges de denúncia fraca (por seus elementos configurarem protesto com ataque). Assim as estou catalogando porque penso que a existência ou não de ataque leva ao enfraquecimento do argumento que enseja o protesto.

Em outras palavras: quando a charge denuncia sem atacar, ela protesta sendo, portanto, uma charge de denúncia forte. Quando, por outro lado, ela denuncia ao mesmo tempo que ataca, ela é uma charge de denúncia fraca porque se torna intolerante, isto é, seu protesto se enfraquece porque ela ataca, tal como o fizera o alvo de seu protesto. Desse todo, as charges de denúncia fraca foram as escolhidas como material de análise, a fim de que se pudesse, sob o olhar das teorias que embasam o trabalho, entender como

se edifica a arquitetônica desses discursos, em hipótese, intolerantes por projetarem ataque.

Foram selecionadas duas charges. Elas são apresentadas na figura 4 a seguir.

Figura 4: As duas charges que são objeto de análise da tese

Fonte: Montagem da Autora

Essa eleição se deu em razão de: a) uma apresentar boa potência de análise no que tange a ser um exemplar de uma construção composicional verbo-visual; e b) a outra uma construção composicional apenas visual. Isso forma um contraste que capta o espectro do gênero em si, viabilizando explorar possibilidades de sentido. Ademais, dentro do conteúdo temático atualidades, cada uma se situa em um assunto com capacidade para ser gerador de discursos intolerantes, a saber: política e religião.

Com essa seleção, não pretendo apontar o discurso chargístico, o autor da charge nem o veículo midiático que a incorporou ou que possibilitou a sua veiculação. Não serei taxativa em alvejar os promotores de discurso intolerante. Quero, sim, é compreender a arquitetônica do que pode ser entendido como um possível discurso intolerante. O que tem esse projeto de dizer que destoa esse tipo de charge das outras, das de protesto, por exemplo? Como entender os contornos de discurso intolerante frente ao traço crítico que o gênero carrega? Tornando a busca ainda mais nebulosa, o que marca a promoção do discurso de ódio ou quais os traços de um discurso intolerante? Como ver o que é, na charge, liberdade de expressão e o que é contorno intolerante?

Entendido o procedimento de seleção do objeto de análise, passa-se, a seguir, à descrição da organização das seções de análise, que se dão no capítulo IV.

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