Para esta pesquisa, ao abordar as fotografias de estúdio produzidas nas décadas de 1930 e 1940, utiliza-se a percepção do retrato romântico enquanto forma de representação social, de um ideal. Conforme Annateresa Fabris (2004), um retrato virtual que apresenta um confronto entre uma busca de representação de ser moderno num contexto que se opõe a tal ideário. Para a produção desses retratos fotográficos, foram utilizados cenários, acessórios e certa teatralização nas poses.
Nesse sentido, Jacques Leenhardt (2009), ao abordar retratos do final do século XIX, afirma que
[na] proporção em que o retrato se torna um fenômeno social que atrai as camadas de população mais diversas, é preciso que o estúdio esteja na medida de fornecer os acessórios decorativos correspondentes a cada um dos estatutos sociais que possam se apresentar, como dispositivos pintados representando todos os meios físicos da moda: paisagem natural, litoral marítimo, paisagem urbana, interiores ou salões, jardins de inverno ou bouquets floridos.60
Nos estúdios fotográficos com o auxílio do fotógrafo, os clientes podem utilizar os símbolos para a construção da imagem de si. Essa preocupação, com o cenário, acessórios, decoração, se mantém até a metade do século XX nos estúdios fotográficos menores, afastados dos grandes centros.
Com a popularização da fotografia e o custo mais baixo, há maior consumo desse bem, antes acessível apenas para as camadas sociais com poder econômico mais elevado. Os estúdios passam a atender uma demanda acelerada de consumo
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LEENHARDT, Jacques. A imagem de si no retrato fin de siècle: de Paris para Porto Alegre. Fênix: Revista de História e Estudos Culturais, n. 2, v. 6, ano VI, p. 6, abr./ maio/jun. 2009.
que cresce em escala progressiva, atingindo um volumoso público das cidades e do meio rural que comparecem aos estúdios com certa regularidade.
No final do século XIX, a fotografia de família tornou-se mais popular: “As jovens mães, diante de elevadas taxas de óbito infantil [...], buscavam fotografar seus bebês sós, com irmãos e com elas próprias.”61 Algumas dessas fotografias
eram produzidas nas residências dos fotografados. Esse espaço da intimidade do lar, predominantemente feminino, vai demandar o trabalho de fotógrafas, porém de “comportamento aceitável”, tendo o cuidado e a discrição demandados em tal ambiente de intimidade.
Nelson Schapochnik, ao abordar os álbuns de família, concebe a fotografia como um suporte da memória, pois, enquanto registro resiste à aceleração do tempo e orienta a memória, que tende a ser fragmentada pelo próprio suporte e pelas opções do fotógrafo ao efetuar o registro. Assim, à fotografia “[...] não seria dada a capacidade de conservar o passado, mas tão somente a de produzir referências para a rememoração no presente”.62
A partir da pesquisa com imagens fotográficas de família, o autor defende que há a criação de um elo com o passado ancestral, “recordações que articulam passado e presente, ascendentes e descendentes”,63 conectando diferentes
gerações em torno do elo familiar. Refletindo acerca dos álbuns familiares, observa- se que mesmo que os descendentes não tenham convivido, ou desconheçam as pessoas retratadas, essas narrativas visuais são guardadas pela família. Nesse sentido, o álbum familiar assume a função de reforçar a coesão social do grupo e o sentimento de pertencimento a uma “comunidade afetiva”.
Miriam Moreira Leite se dedicou a pesquisar sobre as fotografias de família publicando o livro Retratos de família, no qual trabalha com a análise de fotografias de família no período de 1890 a 1930 em São Paulo. Por meio da análise das fotografias e do contexto em que estão inseridas, busca uma compreensão crítica da fotografia histórica, analisando o que está visível e o que está oculto através do recorte da imagem. A autora ainda comenta que “para uma tendência historiográfica, o documento fala; para alguns entusiastas da eloqüência da imagem fotográfica,
61 MICHELON, Francisca Ferreira; BEAL, Marisa Gonçalves. Lembrar do tempo através dos olhos das
mulheres: memória da fotografia em histórias de fotógrafas. In: MICHELON, Francisca Ferreira; TAVARES, Francine Silveira. Fotografia e memória: ensaios. Pelotas - RS: UFPel, 2008. p. 74.
62 SCHAPOCHNIK, 1998. 63 Ibid., 1998.
esta transmite clara e diretamente informações. Para outra, contudo, tanto o documento escrito quanto as imagens iconográficas ou fotográficas são representações que aguardam um leitor que as decifre”.64
Ao abordar fotografias de família, Miriam Moreira Leite afirma que a presença dos álbuns fotográficos era mais frequente nas famílias de classes média e alta. As fotografias avulsas figuravam entre as populações de baixa renda, e, independentemente da quantidade ou qualidade, constituíam-se em distintivos sociais: “sou de família”. A autora argumenta que a fotografia de família pode ainda ser utilizada para documentar para os ausentes a prosperidade dos que se mudaram e, em grande parte, não voltaram mais para contar seus feitos, é a produção do espetáculo a ser distribuído.
Dentre as fotografias de família pesquisadas, tanto nos álbuns quanto nas fotografias avulsas, Miriam Moreira Leite observou que dentre os ritos de passagem mais registrados imageticamente pelas diferentes classes sociais está o casamento. Ela afirma:
O casamento encontra-se presente em quase todas as sociedades e simboliza uma alteração irreversível da situação social do casal que, proveniente de duas famílias ou de dois ramos da família, une-se para formar uma terceira. Em grande parte, o casamento está mais ligado à passagem da moça donzela a esposa e anjo tutelar de nova linhagem. Em muitas sociedades, o casamento corresponde à passagem à maturidade, à vida adulta da mulher.65
Assim, a fotografia é a forma de legalizar, tornar público um ato da vida privada, sendo o retrato a última publicidade da celebração da união que já foi testemunhada pelos convites e proclamas. A qualidade do retrato e a quantidade definem a ostentação de riqueza e prestígio social do casal ou das famílias. Assim, “os retratos são objetos de exibição e distribuição entre convidados e parentes que não puderam comparecer, desenvolvendo assim uma função integradora dos membros e ramos imigrados com os que ficaram na terra de origem”.66 Tais
fotografias constituem, portanto, a memória familiar e registram para os descendentes o evento do casamento. Por outro lado, a ausência de registro imagético do casamento pode significar alianças desaprovadas pela família. Por
64
LEITE, Miriam Moreira. Retratos de família. São Paulo: Edusp, 2001. p. 23.
65 Ibid., p. 97. 66 Ibid., p. 119-125.
isso, observa-se que mesmo famílias com poucas condições econômicas geralmente apresentavam, pelo menos, uma fotografia do ritual do casamento.
De acordo com Miriam Moreira Leite, o ritual do retrato de casamento se conserva como legitimador da família, e mesmo com as mudanças sociais e econômicas perdura como um ritual até os dias atuais. Como testemunha desse ritual, a fotografia parece imune à desconfiança no imaginário social.
Nas fotografias de família, Nelson Schapochnik observa que as imagens apresentam a continuidade de sucessivas gerações e os ritos de passagem que configuram o núcleo familiar. Dentre os ritos de passagem, o autor destaca os batizados, as celebrações de primeira comunhão, marcando a passagem da infância para a adolescência, e o casamento, dos quais o rito que envolve mais publicidade e registros imagéticos tornados públicos é o casamento. Nesse sentido, o autor destaca que os registros fotográficos desses eventos converteram-se em suporte da memória familiar67 com forte poder simbólico, emoldurados e expostos nas
residências como objetos decorativos, que resistem ao tempo.
O autor argumenta ainda que as poses nas fotografias de famílias buscavam reproduzir a hierarquia familiar entre pais e filhos e os estereótipos em torno dos papéis masculino e feminino. Ele ainda observa a exaltação da inocência e da ingenuidade das crianças por meio das roupas que as crianças vestem, da mesma forma destaca “as exigências de um comportamento que parecia muito mais próximo do mundo dos adultos”.68
Além das fotografias de casamentos e de ritos mencionados anteriormente, os retratos também compõem e constituem momentos vividos em família e/ou individualmente nesse convívio.