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Comparaison des trois strat´egies d’intensification et de diversification 86

5.3 Exp´erimentations

5.3.4 Comparaison des trois strat´egies d’intensification et de diversification 86

Neste capítulo, debatemos os trabalhos produzidos sobre a comunicação de risco através das notícias nas sociedades contemporâneas. Analisamos os contributos de um modelo baseado na definição de indicadores de realidade para medição da distorção (no sentido de amplificação ou atenuação social) do risco nas notícias, identificando também as debilidades da abordagem. Descrevemos depois o contributo da equipa de Graham Murdock (Murdock et al, 2003), que definiu as bases para o estudo da comunicação mediada do risco, uma matriz complexa que reconhece a dificuldade de modelizar o futuro tratamento jornalístico de um acontecimento de risco dada a complexidade de todas as variáveis envolvidas. No capítulo, identificamos também os trabalhos produzidos em Portugal sobre o tema, como as reflexões de Cristina Ponte (2007) e do grupo de Maria Eduarda Gonçalves (Gonçalves et al, 2007).

5.1 – Amplificação e atenuação social do risco nas notícias

Na literatura sociológica relacionada com a comunicação pública do risco, distinguimos vários contributos entre o final da década de 1970 e a década de 1980, balizados, por um lado, pelos trabalhos de Niklas Luhmann (1986/1989) sobre a percepção de ocorrências trágicas no seio de várias comunidades e os processos de comunicação por elas suscitados e, por outro, pelo primeiro esforço de construção de um modelo explicativo da amplificação social do risco, maioritariamente através dos media, concebido por Roger Kasperson e colegas em 1988 e notabilizado pela sigla anglófona SARF (Social Amplification of Risk Framework, ou Matriz de Amplificação Social do Risco).

Entre os trabalhos dos primórdios da conceptualização do risco enquanto objecto de estudo da sociologia do jornalismo, a obra de Luhmann é emblemática. Inspirado numa perspectiva construcionista, segundo a qual o risco resulta de uma construção social assente em percepções subjectivas moldadas por filtros culturais e sociais, Luhmann distinguiu os riscos dos perigos. Segundo ele, os primeiros são atribuídos a decisões tomadas por agentes ou instituições sociais, enquanto os segundos são provocados por factores externos (1991/1993: 107) a qualquer sujeito e, como tal, incontroláveis.

Luhmann postulou assim que diferentes formas de solidariedade social tomam forma, “dependendo do facto de o futuro ser visto pelo ângulo do risco ou do perigo. Por esta razão, nós julgamos danos auto-infligidos pelo tabaco de forma diferente da que utilizamos para julgar danos provocados por contaminação de amianto. No primeiro caso, a regulação social colide com as noções de liberdade, e a noção de fumador

passivo não justifica regulação” (1991/1993: 102). O segundo caso, naturalmente, levanta reacções concretas dos sujeitos afectados, visando a responsabilização dos culpados e a reparação dos danos através de normas de regulação social. Por outras palavras, o tabagismo pode ser entendido como um risco do ponto de vista daqueles que o decidem incluir nos seus hábitos, mas será um perigo para aqueles que, não fumando, sejam afectados pela decisão dos fumadores de fumar num determinado espaço.41

Nesta concepção, qualquer ocorrência com potencial para provocar danos aos seres humanos é irrelevante ou localizada caso não seja detectada e comunicada entre grupos de seres humanos. Comentando a proposta de Luhmann, Paul Slovic lembrou que um dos contributos mais relevantes da perspectiva do autor foi precisamente a negação da inerência objectiva do risco. “O risco não existe ‘lá fora’, independentemente das nossas mentes ou culturas, à espera de ser medido. Os seres humanos inventaram o conceito de risco para os ajudar a compreender e a lidar com os perigos e incertezas da vida. Não há assim ‘risco real’ nem ‘risco objectivo’”, escreveu (Slovic, 1992: 119).

Nos primórdios do debate, a perspectiva construcionista mereceu contestação. No seu balanço da controvérsia, Eugene Rosa (2003) destacou as concepções ontológicas do risco, assentes no pressuposto de que existe um mundo independente dos agentes sociais cognitivos e que, como tal, o risco pode ser uma propriedade objectiva de uma ocorrência ou de uma actividade, justificando uma avaliação da sua probabilidade de ocorrência por comparação com as propriedades de outros riscos. Nesta concepção, o risco incluiria “qualquer situação ou evento em que algo com valor humano (incluindo os próprios seres humanos) estaria em causa e cujo desfecho seria incerto” (Rosa, 2003: 56). A definição expressa uma ontologia do risco que especifica que estados do mundo podem ser conceptualizados como risco e, simultaneamente, exclui três tipos de ocorrências: os eventos que são certos, mas nos quais nada ameaça bens humanos (materiais ou simbólicos); os eventos incertos, mas nos quais os bens humanos, pelo menos proximamente, não estão ameaçados; e os eventos que afectem bens humanos, mas têm desfecho totalmente certo (opus cit.: 57).

Mesmo nesta perspectiva, porém, reconhece-se que as ocorrências ou actividades apreendidas por uma sociedade como risco não são moldadas exclusivamente pela

41 A diferenciação entre “risco” e “perigo” de Luhmann não foi integrada nos trabalhos posteriores.

Eugene Rosa (2003) deu conta de que, gradualmente, ela foi preterida pela noção de que os dois conceitos diferiam em termos de reconhecimento e não de decisões envolvidas. Assim, perigos seriam os aspectos do mundo que ameaçam o ser humano mas não são reconhecidos, em oposição aos riscos, que seriam os aspectos do mundo reconhecidos explicitamente como ameaças.

característica objectiva desse risco, pois são-no também por factores sociais, políticos, culturais e psicológicos e pelo grau de incerteza que o envolve.

De certa forma, a dicotomia entre os dois lados da barricada não foi ainda ultrapassada. Num extremo, posicionam-se aqueles para os quais o risco é socialmente construído, dependendo para isso de um discurso público, na medida em que os problemas ecológicos ou ambientais a que ele se refere não melhoraram nem pioraram. Simplesmente, aumentou a comunicação sobre eles. François Ewald (1991) foi talvez o construcionista mais radical, ao sugerir que os riscos não só não existem na realidade, como, em teoria, qualquer ocorrência pode ser construída como risco. Luhmann, como vimos no primeiro capítulo, considerou que é através da comunicação que se definem e constroem os problemas ecológicos. E mesmo Ulrich Beck, com alguma prudência, identificou-se como precursor do “realismo reflexivo” (1999: 26), procurando conciliar o melhor das duas posições e reconhecendo que, para além da dimensão ontológica do risco, ele pode ser apreendido e politicamente gerido de formas distintas em cada país, uma vez que cada cultura produz uma rede de conhecimento específico.

Do outro extremo, colocou-se a corrente realista, partindo do argumento de que se regista um agravamento real dos problemas, como as tragédias de Chernobyl, Bhopal ou Fukushima eloquentemente ilustram e vários indicadores ambientais sugerem. Sheldon Ungar (2001) é um bom exemplo: a sua pesquisa sobre processos de histeria colectiva produzidos na sociedade ocidental em torno da energia nuclear sugere inclusivamente que o papel atribuído a cada grupo de pressão para construir os seus argumentos no conflito tem sido sobrevalorizado pelos sociólogos, em prejuízo do estudo dos “contributos dos eventos reais” e dos indicadores analíticos de ansiedade do público. Autores como Piet Strydon (2002) sugerem que esta matriz tem sido desequilibrada a favor dos construcionistas, circunstância que motivou vários estudos de casos nas mais variadas áreas de intervenção com o objectivo de explicar em que condições uma sociedade interioriza o risco, como o filtra, que agentes e instituições tomam parte activa na formação desse conceito e, sobretudo, que desigualdades se podem detectar na percepção do risco dentro de universos relativamente complexos.

Barry Turner (1978) introduziu um conceito decisivo neste debate, ao recusar analisar exclusivamente os processos de amplificação do risco, nos quais os meios de comunicação de massa jogam importante papel, ao disseminarem os ecos de um acidente pela sua audiência. Turner analisou 84 acidentes associados a tecnologia no Reino Unido e concluiu que eles raramente foram provocados por uma única causa, mas

sim por um conjunto de falhas acumuladas, não noticiadas ou não apreendidas ao longo de um extenso período de tempo. Recusando a convicção generalizada entre os autores que se debruçaram exclusivamente sobre o papel dos media enquanto agentes amplificadores dos acidentes, Turner transportou o debate para a esfera organizacional e para a necessidade de entender o risco como um processo prolongado, no qual actuam agentes sociais e instituições com diferentes motivações e que operam frequentemente sobre um manto de normas ineficazes ou cujo cumprimento não é fiscalizado. A sociologia do risco deve a Turner o conceito de período de incubação do desastre, o intervalo temporal entre a acumulação de falhas organizacionais e o evento desencadeador do acidente. Na sua perspectiva, a sociologia do risco só teria condições de sucesso se incluísse o estudo do período de incubação do desastre no seu objecto. Na mesma linha de trabalho, Diane Vaughan (1992) estudou o acidente do vaivém

Challenger e concluiu que factores estruturais, como as pressões de um ambiente

competitivo, a escassez de recursos numa organização, a vulnerabilidade de sectores decisivos e as características do sistema interno de regulação podem aumentar as probabilidades de um risco, permanecendo no entanto publicamente obscuros.

Do outro lado da barricada, Barbara Combs e Paul Slovic (1978) deram entretanto o mote para os estudos de cobertura noticiosa dos riscos pelos media, um precioso indicador da forma como determinados sectores de uma sociedade enquadram os perigos que lhe estão mais próximos e como deles extraem sentido. Neste estudo clássico, Combs e Slovic concentraram-se nos mecanismos utilizados por dois jornais norte-americanos para relatar diferentes causas de morte e extraíram da análise de conteúdo uma tipologia da construção social dos obituários noticiosos. Concluíram que as mortes envolvidas em maior mistério ou drama (aquelas que, para a audiência, constituiriam riscos mais assustadores) provocaram as narrativas mais emocionais. No campo da saúde, Robert Lichter e Stanley Rothmann (1999) protagonizaram igualmente uma extensa investigação analisando a informação sobre cancro nas notícias de televisão e de jornal entre 1972 e 1992. Utilizaram como padrão de normalidade a apreciação dos peritos e cruzaram-na com a informação publicada nos media, concluindo que os riscos foram amplificados por diversos factores organizacionais inerentes ao jornalismo, campo propenso a explorar situações de alarme social.

Na mesma linha de procedimento, embora operando sob o paradigma da sociologia do jornalismo, Mark Fishman (1980) dedicou-se às notícias sobre crime, analisando como as fontes (polícias e organismos governamentais) fornecem aos repórteres informação

formatada, sobre ocorrências potencialmente relevantes para as suas audiências e como estes constroem notícias respondendo às necessidades dos seus leitores. O crime, enquanto acto de disrupção da ordem social, tornou-se desde logo um campo promissor de investigação para a sociologia do risco.

Um dos teóricos fundamentais da construção social do risco foi Ortwin Renn (1992). Apesar da tentação para apontar o dedo exclusivamente aos meios de comunicação como agentes influenciadores das percepções colectivas do risco, o sociólogo recusou conceber os media como meras estações de amplificação do volume de uma ocorrência. Segundo ele (e, aliás, na esteira dos trabalhos da década de 1970 sobre rotinas organizacionais dos jornais e jornalistas, como os de Gaye Tuchman, 1978/2002), os media contribuem para o efeito de filtragem dos acontecimentos a noticiar, mas produzem também o efeito de edição (traduzido nos elementos que os jornalistas adicionam ao facto, adaptando a narrativa às estruturas com melhor ressonância cultural para o seu público) e o efeito de contextualização.

O ambiente e os seus problemas muito particulares – expressos, por exemplo, por William Catton e Riley Dunlap (1978; 1994) ou por Pereira Rosa (2007) como novos problemas de uma sociedade pós-moderna, que exigiria dos agentes e instituições sociais novas soluções – tornaram-se igualmente campos de intensa produção sociológica. A visibilidade das ameaças de poluição, de perigos de conservação ou da escassez de recursos tornaram o ambiente uma actividade particularmente ajustada ao noticiário de risco. Num estudo clássico, Allan Mazur (1984) comparou a cobertura noticiosa do caso de poluição em Love Canal e do incidente de radiação na central de Three Mile Islands. Concluiu que o interesse desmesurado dos media pelos dois temas influenciou as percepções do público sobre a seriedade daquelas ameaças concretas. Mazur propôs uma das primeiras tipologias mediáticas das catástrofes, identificando, no seio dos media americanos, as estações de televisão cuja selecção de ocorrências a noticiar afecta grande parte das escolhas dos restantes media nacionais. Mazur concluiu também que as acções públicas para responder a um risco, bem como os níveis de preocupação de uma audiência com esse risco, crescem e decrescem consoante o volume de relatos mediáticos.

Outra linha de contributos eclodiu nesta fase dos primórdios da conceptualização do risco enquanto realidade construída socialmente através dos trabalhos de Serge Moscovici (1985). O sociólogo chamou a atenção para a necessidade de inserir nos modelos de compreensão do risco o combate entre agentes ou instituições com

interesses opostos na resolução do conflito. Em numerosos casos, os grupos de pressão oferecem aos media uma narrativa/enquadramento mais facilmente formatável da contenda e tornam-se fontes de pleno direito no enjeu simbólico pela definição do risco. É verdade que, antes de Moscovici, já a sociologia do jornalismo transferira o objecto de estudo dos produtores de informação – os jornalistas – para as fontes, reconhecendo o seu papel essencial, as suas estratégias e motivações e o seu inegável peso para o resultado do trabalho jornalístico (Molotch e Lester, 1974; Gans, 1979; Gandy, 1982; ou Gitlin, 1980b), mas, no campo do risco, a proposta de Moscovici abriu caminho para vários estudos concentrados nos grupos de pressão e na sua capacidade de influenciar a definição noticiosa de um acidente (Hansen, 1993 e 1993b; Burgess e Harrison, 1993; Kitzinger e Reilly, 1997/2002; ou Anderson, 1997).

Posteriormente, detectaram-se excepções à regra precocemente enunciada por Moscovici: nem sempre os grupos de pressão enquadrados pelo público como agentes que agem em nome do bem-estar colectivo e, ao mesmo tempo, peritos no assunto em causa, têm capacidade para promover a amplificação ou atenuação dos riscos nos media. Como Paul Manning (2001) veio mais tarde a demonstrar, as fontes institucionais continuam a dispor de mais recursos e a beneficiar de mais credibilidade perante as empresas jornalísticas, o que condiciona a cobertura noticiosa do risco. Mas o próprio Manning reconheceu, na linha de Moscovici, que, quando os debates públicos se polarizam, é muito provável que sectores consideráveis da audiência alinhem as suas convicções pela forma de apreender o risco proposta pelo grupo de pressão a que atribuem mais confiança. Lynn Frewer (2003: 126), aliás, concluiu que as fontes nas quais se deposita mais confiança aumentam os efeitos de amplificação se a informação de risco lhes for atribuída, mas atenuam as percepções públicas caso sejam elas a divulgar informação reconfortante para o público.

Um último contributo foi proporcionado por autores que, importando conceitos da psicologia social, analisaram os mecanismos cognitivos através dos quais os agentes sociais processam a informação em situações de risco. Seymour Epstein (1994) construiu um dos melhores referenciais desta perspectiva, propondo a existência de dois modos paralelos e interactivos de processamento de informação partilhados por todos os agentes sociais – um racional e outro emocional. Concluiu que os agentes sociais que tomam decisões sobre riscos e benefícios associados a determinados perigos tendem a processar a informação disponível de forma experiencial e emocional, sobretudo se pressionados por uma ocorrência cronologicamente próxima difundida pelos media.

Todas estas propostas fragmentadas falharam porém na tentativa de generalizar um modelo capaz de explicar como se processa a construção social do risco, abrangendo a complexidade das relações gizadas no seio da comunidade envolvida e dotado de capacidade de previsibilidade para eventos futuros. Parte da resposta viria a ser fornecida pelos promotores da SARF.

5.2 – O modelo da SARF A Matriz de Amplificação Social do Risco foi proposta por oito autores em 1988 (Kasperson et al, 1988) e visava interpretar os “processos através dos quais certos riscos e eventos que os especialistas avaliam como de risco baixo podem tornar-se um foco particular de preocupação e de actividade sociopolítica numa sociedade (amplificação do risco), enquanto outros riscos que os especialistas avaliam como mais sérios recebem comparativamente menor atenção (atenuação do risco” (Kasperson et al, 2003b: 13). Posteriormente, Glynis Breakwell e Julie Barnet afinaram o objecto de investigação, ao propor que, nos casos em que não se detecta discrepância entre as perspectivas periciais e leigas e os impactes mensuráveis de uma ocorrência, “não falamos de ampliação ou atenuação, mas sim de uma terceira dimensão – a representação” (2003: 100).

A SARF foi pontualmente atacada, sobretudo pela sua incapacidade para previsão de ocorrências futuras. Por definição, como veremos, esta matriz opera com efeitos retroactivos, identificando, numa ocorrência já realizada, as diferentes fases conceptualizadas pelos autores. Mas, na verdade, tratou-se do primeiro esforço sistematizado para modelizar a construção social da percepção do risco.

Roger Kasperson e colegas postularam que, através da experiência pessoal e da comunicação directa e indirecta, um indivíduo ou um grupo têm acesso a informação sobre o risco ou ocorrências de risco – os sinais (imagens, símbolos ou signos). Cada agente social dispõe de canais de informação, seja através dos sentidos, de redes sociais informais ou da descodificação por parte de um perito. A informação, filtrada por estes canais, chega então às estações sociais de amplificação ou atenuação. Dos líderes de opinião aos grupos sociais e culturais, das agências governamentais às organizações de cidadãos e aos media, todas estas estações contribuem para formatar os sinais, moldando-lhes o volume. Kasperson e colegas destacaram também o peso das estações individuais, processos subjectivos inerentes a cada sujeito e que moldam igualmente a forma como um agente social determina o grau de risco. Nestas estações individuais, os autores conceberam os filtros de atenção, a capacidade de descodificar a ocorrência, a

heurística intuitiva, a avaliação e interpretação de cada sinal e a cognição influenciada pelo contexto de cada ocorrência.

Depois de todas estas fases de processamento da informação, o agente ou grupo está em condições de definir o seu comportamento institucional e social perante um risco em concreto. Pode optar por modificar a sua atitude perante o risco, por envolver-se política ou socialmente, por desenvolver respostas no seio de organizações ou por integrar protestos sociais (Figura 3).

Figura 3: Amplificação e atenuação do risco, de acordo com Kasperson e colegas (1988).

Um dos contributos verdadeiramente inovadores da SARF foi o conceito de ondulação. Uma ocorrência de risco é entendida como um processo que inicia uma onda de consequências graduais, que se podem limitar aos grupos directamente afectados (ondulação primária), mas que podem também produzir impactes económicos, legislativos, políticos ou sociais em sectores da sociedade apenas remotamente associados ao evento original (ondulação secundária). A transversalidade da matriz permitiu a sua aplicação em diversas arenas, retirando a análise do risco do campo exclusivo da sociologia e expandindo-a para o campo económico, cultural ou político.

James Flynn (2003), por exemplo, demonstrou como o debate em torno de eventos de risco nuclear, não só afectou projectos de instalação desta fonte de energia ao longo de décadas, como contribuiu para influenciar negativamente a percepção pública de tecnologias ou instituições não relacionadas.

“A ondulação espraia-se para fora, afectando primeiro as vítimas directamente relacionadas ou as primeiras pessoas que tomam conhecimento da ocorrência, depois passa para o nível institucional seguinte e, em casos mais extremos, pode atingir outras partes da indústria ou outras arenas sociais com problemas similares” (Kasperson et al, 2003b: 16). Cada ondulação desperta assim impactes sociais e políticos, mas também gera intervenções de controlo, que minimizam danos e reduzem impactes secundários. Do ponto de vista metodológico, a SARF introduziu o método de camadas no estudo de risco (mais tarde redimensionado por Breakwell e Barnett, 2003), traduzido no reconhecimento de que, para medir as ondulações em diferentes níveis institucionais, torna-se essencial recolher indicadores das várias áreas transversais potencialmente afectadas pelo evento de risco. Ao estudar o impacte da doença BSE na sociedade britânica, por exemplo, Breakwell e Barnett recolheram indicadores de fundos governamentais e privados investidos no tratamento da doença, dados de animais infectados e abatidos, registos da evolução da preocupação dos britânicos com vários riscos de saúde e cruzaram-nos com o número de notícias redigidas no mesmo período

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