Chapitre 6 : Réalisation et expérimentation du système SARIPOD
4. Expérimentations et résultats
4.4 Comparaison avec le SRI SARCI
O aspecto que, na sequência das reflexões que temos vindo a tecer, agora se propõe como objecto de alguma atenção constitui, desde logo, uma novidade mais que distingue a nossa novela das anteriores.
A tradição bucólica clássica não concede particular importância à “célula social” que a família representa. Isto porque, nela, não existe lugar para a representação dos dois pólos ideológicos habitualmente associados à noção de família: o matrimónio e a filiação (cf. Poggioli, 1975: pp.56-58) – dois compromissos que impiedosamente aboliriam a beata liberdade pastoril. Previsivelmente, nas novelas pastoris espanholas que se mantêm mais fiéis ao ideal arcádico, entre as quais a trilogia fundadora das
Dianas49, a família e as suas figurações encontram-se igualmente diluídas. Nelas, toda a sociedade pastoril se oferece como uma ampla família, para tal contribuindo o isolamento destas Arcádias, a existência de um código moral e de um padrão sentimental comuns, e, enfim, uma certa igualdade fraterna entre pastores. Se as personagens tendem a formar grupos mais restritos dentro da comunidade, fazem-no como resposta a um impulso natural que move o indivíduo a procurar os seus semelhantes – que o são a um nível vivencial, não por afinidade de sangue –, e porque,
49 Apenas em parte, exceptue-se a Diana enamorada, onde o matrimónio é encarado como a «meta final» do amor (Egido, 1987: p.395), embora marque o fim da narrativa. À medida que nos adentramos pelo século XVII, chega mesmo a impor-se como um topos obrigatório do género, equiparável, por exemplo, ao enaltecimento da vida campesina. Naturalmente, esta insistência radica em circunstâncias sociais e espirituais da história espanhola na hora crítica que foi a da transição deste século para o seguinte. Veja- se Milhou-Roudié (1995).
sem essa categorização mínima, seria incomportável manejar a complexa e abundante matéria novelesca habitualmente abrangida por estes textos. Considere-se ainda que o conceito de linhagem, para o qual conflui, nesta época, o de família, acarreta uma impressão de temporalidade, incompatível com a essência estática, acrónica, quase mítica destes universos pastoris.
No Pastor de Fílida, contudo, esse conceito de linhagem não só é assumido, como se revela determinante na constituição de um tecido social substancialmente mais complexo do que aquele com o qual nos confrontamos nas Dianas, herdeiro já de princípios distintos, tal como temos verificado.
É o critério da linhagem que impõe uma distinção de primeira ordem entre os pastores naturais do Tejo. Sugerimos já que algumas personagens constituem uma espécie de “elite” pastoril, sobretudo aquelas que gravitam em torno do “patriarca” Sileno, tanto por afinidade de sangue – Elisa, sua filha, Galafrón, Barcino, Mireno e Liardo, seus «deudos» (p.217) –, como na condição de “apaniguados” – Mendino, Castalio e Cardenio. Estes últimos não são, evidentemente, seleccionados de forma aleatória: se alcançam esse estatuto privilegiado é porque a pertença a uma família ilustre os credita – uma família aristocrata, apetecer-nos-ia dizer, se tal termo não agredisse demasiado a noção de mundo arcádico a que os clássicos nos acostumaram. Para que este código social seja eficaz, cumpre, ainda, que a família seja reconhecível, ao menos pelos pastores oriundos da mesma “classe”, inclusivamente noutros âmbitos pastoris50. É o cumprimento destes requisitos que permite a circulação de pastores “nobres” entre aldeias, sem que o seu prestígio saia minimamente lesado, tal como sucede com Mendino, que é acolhido pela «mayor nobleza de la pastoría» (p.214), sendo-lhe logo reconhecido, apesar de estrangeiro, um lugar proeminente na comunidade, junto de Sileno e dos seus51. Os elementos identificadores destas famílias não escamoteiam o seu realismo: algum avoengo especialmente célebre («nieto del gran Rabadán Mendiano» – p.213); o local de origem, que, comummente, acompanha os títulos nobiliários («Mis bisabuelos en la [ribera] de Adaja apacentaron» – p.307); e o brasão de armas («las alas de un águila de plata sobre color de cielo» – p.307). Fílida, que, todavia, mantém em relação à comunidade, como em relação a tudo, um certo
50 O aristocrata «efectivamente só faz parte da “boa sociedade” na medida em que os outros estão convencidos disso, o consideram como um dos seus» (Elias, 1987: p.69).
51 Ingénuo nos parece o juízo emitido por B. Damiani a respeito de um mundo social que é, enfim, aquele que El Pastor de Fílida pinta: «As distinction of birth and wealth ceased to confer any special privilege on the individual in the Renaissance, society judged men and women by their personal qualities, among them “discreción”» (1983: pp.33-34).
distanciamento que a deifica, também se encontra neste plano social pelo seu parentesco com o rico Vandalio; demais, é possível que a tal se refira Siralvo quando, socorrendo- se embora de um chavão poético, exalta orgulhosamente o «lugar alto» a onde «volaron [sus] pensamientos» (p.308)52, e ainda Silvia, ao emparelhar Fílida a Juno e Vénus ou, mais prosaicamente, a uma desconhecida Albana do Henares (p.321).
Deslocadas do âmbito ideológico em que são aqui inseridas (ou, pelo contrário, envolvidas num âmbito ideológico que não parece coadunar-se com elas), estas personagens encontram-se, todavia, no centro do universo ficcional do Pastor de Fílida. Os amores exemplares entre Siralvo e Fílida e entre Mendino e Elisa constituem os eixos da obra, e Montalvo, ao conceber os protagonistas da sua novela, parece ter seguido a lição das novelas sentimentais, de cavalarias e de aventuras, destacando-os, não só pela excelência interior, mas também pela condição social53.
À parte destes pastores, declarados “duplos” da fidalguia espanhola com a qual Montalvo tratou, sobra uma “massa” social de personagens, que somente não destoam de forma flagrante do universo “aristocrático” porque ele próprio se presta já a profundas ambiguidades, porventura atenuadas por virtude da repetição. O seu estatuto na comunidade nunca é explicitado com grande rigor, embora indirectamente se insista na igualdade de uns perante os outros e, sobretudo, de todos perante a “classe” dominante. Entre estas personagens, incluem-se, indiferenciadamente, naturais e estrangeiros, dotados dos mesmos costumes e deveres: todos pertencem – tal como a “fidalguia” pastoril, mas noutro sentido – a um conjunto universal, dotado de códigos próprios: é por este motivo que Finea se desloca da montanha para as margens do Tejo, onde, constituindo um pequeno rebanho, reconstrói a sua vida, como se ali houvesse visto pela vez primeira a luz do dia (p.281). Na verdade, se estas figuras pastoris não parecem ter um lugar determinado na estrutura hierárquica, é justamente por se encontrarem à margem dela, aproximando-se, pois, muito mais do estereótipo pastoril estabelecido pelos autores clássicos e em parte reforçado, neste aspecto, pelas anteriores novelas pastoris espanholas. A estes pastores é aplicável o conceito de família global a
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Mayans y Siscar (1792) faz uma leitura semelhante deste segmento. Admite uma desigualdade social entre Siralvo e a sua pastora, baseando-se quer na identidade real de Montalvo, cuja condição de «gentilhombre» crê estar subentendida nos termos «humilde pastor» (1792: p.XVIII), quer na cautelosa conduta que a personagem Siralvo adopta sempre que procura aproximar-se da sua bem amada e muito resguardada Fílida (pp.XXI-XXII).
53 Por outro lado, não é pouco significativo que Castiglione projecte o mesmo ideal para o perfeito cortesão, que, para além das prendas pessoais, conviria que tivesse uma ascendência aristocrata: «Voglio adunque che questo nostro cortegiano sia nato nobile e di generosa famiglia» (Castiglione, 1990: p.39). Ver Martínez San Juan (2003), nomeadamente as pp.95-97.
que atrás aludíamos, até porque, para além de se ignorar em absoluto a sua ascendência, não existe sequer, entre elas, qualquer relação de parentesco, alicerçando-se todas as afinidades no princípio tradicional da semelhança de caracteres e de interesses, ao qual regressaremos no momento oportuno. Por outro lado, desvinculados de tudo o que não seja o amor presente (ao qual se restringe toda a sua história de vida, que nem reflecte um passado nem anuncia um futuro), preservam aquela irrealidade vaga, acrónica e a- histórica de entidades puramente literárias, traço distintivo da personagem pastoril típica que impregna a literatura subordinada ao vastíssimo tema, ou, antes, ao «state of mind» que a pastoral representa, como tão afortunadamente arrisca Heninger (1961: p.257).
Família e Sociedade
Regressemos, porém, ao caso dos “pastores aristocratas”. A pertença a um estrato social superior traduz-se, estamos habituados a pensar, em algumas regalias; neste universo ficcional, quase perfeito para todas as personagens, essas regalias reduzem-se a uma só, não isenta, aliás, de uma subtil ironia: o protagonismo. Igualmente, presume-se que este estatuto acarrete certas obrigações irrevogáveis. De tais questões ocupar-nos-emos nesta derradeira secção do presente capítulo.
É certo que todas as comunidades pastoris literárias, desde Teócrito até Montemayor e seus seguidores, são dotadas de códigos concretos que permitem ao leitor identificar o universo ficcional em que se integram. Por exemplo, nas bucólicas clássicas espera-se que o pastor talentoso aceda aos pedidos dos seus companheiros, exercendo a sua arte para os entreter e aliviar a dureza das labutas rurais; por seu lado, os companheiros (muitas vezes um só – o suficiente para constituir um “agregado” pastoril e humano) deverão compensar a sua gentileza com um troféu generoso, já que a música e o canto constituem o requinte supremo da existência. Já em qualquer uma das
Dianas, é muito significativa a importância que se atribui à partilha de experiências de
vida, cortesia que se supõe ser mútua, como adiante discutiremos. Sucede, não obstante, que estes procedimentos estereotipados, para além de terem como desígnio primordial a aproximação humana entre pastores, respondem a uma necessidade narrativa ou poética
imediata, visto que asseguram um pretexto para o desenvolvimento novelesco da obra ou para as indispensáveis expansões líricas.
Ora, também o universo pastoril da novela de Gálvez de Montalvo absorve, à sua maneira, estes códigos, como se pode confirmar em vários momentos. No entanto, a novidade da obra consiste na assimilação de certas pragmáticas que, desprovidas de funcionalidades narrativas primárias, põem em relevo a afinidade entre este âmbito ficcional e a realidade histórico-social da Espanha quinhentista, que abertamente se pretende retratar e, sobretudo, idealizar, resultando não já numa aproximação, mas num distanciamento entre certas personagens de elite face às restantes. Estes padrões comportamentais não se fundam no princípio da igualdade entre os indivíduos: sublinham uma diferença hereditária que, assegurada à partida pelo nascimento (factor acidental, tal como vários escritores e pensadores da época reconhecem54), deve ter continuidade em cada gesto, em cada palavra, em cada atitude e decisão destas personagens excepcionais.
Tais condicionantes, restringindo o campo de actuação, estilhaçam a utopia clássica da liberdade hedonista, o que, de resto, não constitui forçosamente um paradoxo, já que, conforme vimos, ao lidar com este universo ficcional, há que adaptar o raciocínio a dois pólos ideológicos radicalmente opostos. Assim, Elisa e Fílida, as duas pastoras que encarnam a “aristocracia” feminina, são constrangidas a manter um recato rigoroso, o que limita substancialmente a frequência das suas aparições, embora estejam quase sempre presentes através de Mendino e Siralvo, respectivamente, os quais, sob uma perspectiva masculina, expõem o rol das suas prendas e virtudes ao leitor55. Note-se que os louvores tecidos a estas donzelas paradigmáticas abarcam, invariavelmente, a rectidão da sua conduta, onde reluz a excelência moral dos espíritos: se Elisa é «de maduro juicio, amada de muchos, mas de ninguno pagada» (p.214), Fílida é dotada de um «entendimiento […] de varón muy maduro y muy probado» (p.299). A própria formosura destas pastoras, que supera as das demais figuras femininas, é indício quer da sua superioridade, quer da virtude que, por tradição, a acompanha56.
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Entre os quais Juan Huarte: «El necio [...] se ha de contar en el número de los brutos animales, [...], puesto caso que [...] sea [...] bien nacido, y en dignidad Rey o Emperador» (Huarte de San Juan, 1948: p.73).
55 Das representações da mulher «a través del prisma del neoplatonismo», que redunda menos na sua dignificação do que na do seu amante, bem como das Arcádias enquanto universos predominantemente masculinos, ocupa-se C. Castillo Martínez (2009b).
56 Sagazmente observa A. Cirurgião: «a beleza é apanágio de toda a mulher. Convém, porém, notar que existe uma hierarquia na beleza feminina, hierarquia que é universalmente aceite. […] [A] mulher bela é por natureza boa e virtuosa, ou, pelo menos, a sociedade exige que assim seja» (1968: p.402a; p.406a).
Elisa dá-se a ver somente aos pastores da sua classe: na primeira parte da obra, podemos encontrá-la numa reunião lúdica onde participam igualmente Filis, Clori, Mendino, Galafrón e Castalio, pastores que, sabemos já, pertencem ao mesmo círculo social. Elisa assiste, em silêncio, às competições poéticas entre os pastores seus pares, sem se pronunciar, muito menos quando, chegando a vez de Mendino, nitidamente o canto lhe diz respeito. Então, por muito enamorada que se sinta, não é necessário recordar-lhe os seus deveres: instintivamente, dissimula, não concedendo nunca maior atenção a nenhum dos convivas do que aos demais57. Por outro lado, ciente de que de si depende, mais do que a sua reputação em particular, a nomeada de toda a sua família na aldeia do Tejo e, porventura, também fora dela, conduz com a máxima prudência os seus amores com o «nieto del gran Rabadán Mendiano»: é a pastora quem toma a decisão de enganar habilidosamente Galafrón e Filis (p.223) e quem determina os momentos em que podem encontrar-se com segredo, valor supremo para qualquer cortesão (p.228)58. Não é pouco curioso que os amantes, iguais no plano afectivo e social, encarem com receio a possibilidade de uma ligeira incúria vir a revelar os seus amores, legítimos em todos os aspectos. Sucede que, se no caso dos pastores vulgares o amor sobeja para autorizar a união entre dois seres, quando de pastores aristocratas se trata não basta o amor acompanhado de todas as excelências morais e, ainda, de uma impoluta nobreza de sangue, atendendo a que, em última instância, não está já em questão o destino de dois indivíduos, mas sim o de duas linhagens. Visto que o amor se nutre de esperanças mas não de esperas, Mendino e Elisa engendram esta arriscada estratégia para poderem gozar, dentro dos limites da honestidade e da «limpieza», os seus amores, antes de qualquer contrato matrimonial, sempre incerto e que, demais, não lhes compete decidir, nem sequer propor. No capítulo final, reservaremos um espaço para as questões matrimoniais.
Fílida, por seu turno, é a mais avisada e honesta guardiã da sua própria virtude, pelo que dispensa o controlo familiar e social que envolve a filha de Sireno. Ignoramos
57 A jovem obedece a um preceito cortesão fundamental, assinalado por Castiglione: a dissimulação. Corresponde, concretamente, a uma «mediocrità difficile» (Castiglione, 1990: p.266), que exige que a dama seja «circunspetta» e tenha «riguardo di non dar occasion che di sé si dica male» (p.265), e, ao mesmo tempo, que evite «esser tanto ritrosa e mostrar tanto d’aborrire e le compagnie e i ragionamenti ancor un poco lascivi, che ritrovandovisi se ne levi» (p.266-267). Os aspectos que concernem às regras de conduta cortesã observadas pelas personagens do Pastor de Fílida são informada e abundantemente tratados por Martínez San Juan (cf. 2003: pp.93-204).
58 «Gli amori de’ quali la fama è ministra, son assai pericolosi di far che l’omo sai mostrato a dito; e però chi ha da caminar per questa strada cautamente, bisogna che dimostri aver nell’animo molto minor foco che non ha» (Castiglione, 1990: p.348).
quase tudo o que à sua família diz respeito, com excepção da nobreza. A sua probidade, de resto, é mais sólida, na medida em que corresponde mais a um tributo à virtude em si mesma do que à honra familiar. Por tal motivo, a conduta desta pastora revela-se mais rigorosa ainda, transcendendo a mera cautela, na qual confiava Elisa, e fundando-se numa total pureza espiritual. Siralvo teria, assim, motivos para ser um amante bem mais infeliz do que Mendino, se a sua própria perfeição não se encontrasse à altura da da amada, já que escassíssimos são os encontros amorosos a que assiste: um nocturno, na terceira parte, um nos jardins do templo de Pã, na quarta parte, e, enfim, um último, na quinta parte, nas selvas onde Fílida, já sequaz da filha de Latona, se entretém a caçar. Merece ser salientado que, apesar de se dizer da pastora que «no se esquivaba [...] de oírle, ni de entender que la amaba» (p.230), a verdade é que, com excepção do segundo momento referido (menos inconveniente graças à presença de outros pastores), Siralvo mal chega a vislumbrar e a comunicar directamente com a sua amada ou não o faz de todo, dirigindo, amiúde, os seus requebros a Florela, confidente dos amantes, e pedindo- lhe notícias do estado dos sentimentos de Fílida59. Não deixa, pois, de surpreender o facto de a mais formosa, discreta e recatada pastora da aldeia, mais tarde consagrada a Diana por «no haber hombre que la merezca» (p.321), tratar mais livremente do que Elisa com os restantes pastores, entre os quais, todavia, é sempre reverenciada como superior. Recorde-se, a este propósito, na quarta parte, a já aludida sessão de “academia literária”. Visivelmente, esta personagem feminina é alvo de uma idealização exacerbada, pelo que qualquer observação que recorra ao seu exemplo revelará sempre alguma fragilidade60.
Os austeros preceitos de convivência social determinam, portanto, não somente as ocasiões em que é apropriado mostrar-se, mas ainda os indivíduos com quem se pode lidar sem comprometer o estatuto social, bem como o modo adequado de o fazer. Não é
59 No entender de Siles Artés, Fílida «no corresponde» ao amor de Siralvo «con sentimientos de la misma altura […], no figura en la trama como mujer enamorada» (1972: p.126). Primeiramente, a superioridade social que esta pastora está consciente de deter é em larga medida responsável pelo recato honesto que, não favorecendo grandes expansões afectivas, é o que, acima de tudo, a torna amável aos olhos de Siralvo. É algo arriscado especular acerca da intimidade de personagens das quais, deliberadamente, apenas a superfície se dá a conhecer, seja porque representam meros estereótipos literários, seja porque toda a sua essência se concentra nisso mesmo: num relance de ideal. Para além disto, o crítico parece equivocar-se quanto ao âmbito a que se reportam as suas considerações: Fílida, mais “platonizada” ainda do que a maioria das pastoras novelescas, não emparelha com Mme Bovary, mas antes com Beatrice e Laura – em última instância, o seu supremo acto de amor é ser amada.
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«De alguna forma, Fílida constituye un compendio sustancial del bien deseado por el hombre» (Martínez San Juan, 2003: p.133). Secundamos, e com menores hesitações ainda, tal asserção, aliás fortalecida pelos comentários do protagonista masculino, suposto “duplo” literário do autor e movido, portanto, pelos mesmos objectivos: «- Un corazón de hombre -dijo Siralvo- con que la amo, imposibilitado a pagar deuda tan divina» (p.294).
pouco relevante o facto de tais códigos visarem sobretudo a conduta feminina61, já que Mendino, o pastor aristocrata que conhecemos melhor, e Siralvo, o “intermediário” social, gozam de liberdade para conviver com pastores de todas as classes; Mendino chega, inclusivamente, a entregar-se aos amores de várias pastoras, alguns anos após a morte de Elisa, o que leva as ninfas a lastimarem a mudável condição de «todos los hombres» (p.440), como em resposta às censuras de que o seu sexo foi sendo alvo desde os tempos de Adão.
Importa ter presente que são as personagens pertencentes a esta “elite” pastoril bastante realista as que têm dado que pensar aos críticos e historiadores na hora de identificar as personalidades históricas implicadas nesta “mitificação” artística de uma corte toledana62. Quanto às demais, não se verifica qualquer esforço nesse sentido, o que sublinha o facto de umas e outras possuírem naturezas manifestamente distintas.
Pelo contrário, para um pastor enamorado, qualquer hora é a mais aprazada para procurar e conversar com a sua amada, desde que o amor – única entidade a quem se encontra sujeito – o instigue nesse sentido. A presença de outros pastores não inibe os amantes nem compromete a sua honestidade nem a do ser amado, até porque todos, sentindo ou tendo sentido no passado os efeitos das mesmas paixões, se compadecem e se compreendem mutuamente. São mesmo permitidos os galanteios públicos, tais como as serenatas ou os cantos amorosos entoados em reuniões pastoris. Na verdade, dissimular o amor resultaria paradoxal, dado que os apaixonados são os primeiros a descobrir, sem embaraço, todos os seus pormenores a qualquer outro pastor que se disponha a escutá-los, conforme aprofundaremos no devido lugar. Para esta liberdade amorosa, inerente à utopia clássica e novamente enaltecida, embora com restrições e outra intenção, em algumas novelas pastoris dos Siglos de Oro, muito contribui a ausência de vinculações a grupos familiares, o que, como vimos, acarreta responsabilidades e condiciona o olhar dos outros e sobre os outros. Em suma, a