Esta seção apresenta a fenomenologia da responsabilidade nas três obras principais de Lévinas. Da redução fenomenológica do sujeito Lévinas hauriu a consciência da responsabilidade por todos. Kosky situa Autrement qu’être ou au-delà de l’essence e De Dieu qui vient à l’idée dentro da tradição fenomenológica no que se refere à “prática da redução” em termos de uma “análise da subjetividade”.635 Kosky denomina a fenomenologia de Lévinas como “fenomenologia da responsabilidade”.636 Tanto o sujeito quanto Deus estão fora do âmbito de qualquer forma de identificação. Kosky resume a fenomenologia da responsabilidade nestes termos: subjetividade enquanto responsabilidade se passa paradoxalmente em contraste com e na ambigüidade do teatro e do templo. A imanência representando o teatro, e a altura, a transcendência o templo. O ser, o conhecimento, a tematização e a síntese pertencem à intriga do teatro, ao passo que o “infinito eclipsando” a essência, ao templo. Mais propriamente, a intriga da ética como responsabilidade instaura a passagem do finito impaciente do teatro ao finito “retendo a respiração”, e atingindo a “pura paciência”, do templo. Na fenomenologia da responsabilidade ocorre a mudança de ênfase da sincronia, do teatro, para a diacronia, do templo, e da necessidade (do teatro), para o Desejo (do templo). Em acréscimo, nesta fenomenologia se dá o movimento da interioridade do “eu” numa perspectiva fechada da consciência, no monólogo do teatro, à exterioridade do próximo, do Infinito, do absolutamente outro, ou seja, a uma consciência aberta ao que está fora dela, “o sempre e o jamais de um des-interessamento e do a-Deus”.637
634
LÉVINAS, Emmanuel. Transcendance et intelligibilité, p. 52 (ID. Transcendência e inteligibilidade, p. 40).
635
KOSKY, Jeffrey L. Levinas and the Philosophy of Religion, p. xxii.
636
Ibid., p. xxiii.
637
KOSKY, Jeffrey L. Levinas and the Philosophy of Religion, p. xxiv. Cf. DVI 184 (ID. De Deus que vem à idéia, p. 162); 115 (ID. De Deus que vem à idéia, p. 103): “Comédia na ambigüidade do templo e do teatro, mas onde o rir fica sufocado na garganta com o aproximar-se do próximo, isto é, do seu rosto ou de seu desamparo”. Nélio Vieira de Melo não interpreta o evento da consciência intencional exclusivamente nos parâmetros da imanência, mas afirma: “(...) A intenção é transcendente, mas é imanente à doação por parte das coisas. (...) O evento da consciência é, ao mesmo tempo, transcendência e imanência. Essa é uma saída que justifica a relação entre doação do objeto e
O caráter ambíguo da subjetividade permanece, na linguagem filosófica de Lévinas, paradoxalmente como “ponto de ruptura” e, concomitantemente, “nó da intriga ética”.638 Sendo tanto o ponto de ruptura quanto o nó da intriga ética, não causa surpresa que exista um grande número de pesquisas sobre o pensamento do filósofo voltadas ao tema da subjetividade. O tema da subjetividade tem sido objeto da pesquisa de pelo menos quatro autores brasileiros, Marcelo Fabri, Ricardo Timm de Souza, Marcelo Luiz Pelizzoli, e René Bucks639.
O primeiro autor é Fabri. O autor relembra que, segundo Lévinas, a subjetividade tal qual aparece na tradição filosófica ocidental cede ao primado ontológico640. Seguindo o percurso filosófico de Lévinas, Fabri aponta a ética como busca da transcendência. “O infinito é o que não pode ser reduzido à esfera da objetividade. Não pode ser objeto de conhecimento”.641 Um dos resultados da pesquisa de Fabri é respectivamente:
A subjetividade como substituição procura superar duas tendências mitologizantes, ambas perigosas para o homem, a saber, a defesa dos particularismos presente no ideal pós-moderno e a tendência universalizante (...). O sujeito levinasiano reúne em si a esfera do particular (sou eu que devo responder e substituir) e do universal (é no discurso filosófico que essa máxima se universaliza). A linguagem
subjetividade”. MELO, N. Vieira de. A Ética da Alteridade em Emmanuel Levinas, p. 47. E quanto ao paradoxo do teatro e do templo, as referências ao teatro estão respectivamente em: AE 230, 173. Ainda em De Dieu qui vient à l’idée há referências aos paradoxos entre o “teatro” e o “templo” nomeados acima por Kosky. Considere-se: DVI 176-184 (ID. De Deus que vem à idéia, p. 155-162); IDEM. De l’existence à l’existant, p. 64, 66 (ID. Da existência ao existente, p. 46, 48).
638
AE 14-15, 31, 32.
639
Dentre estes, os três primeiros estão vinculados ao CEBEL (Centro brasileiro de estudos sobre o pensamento de Emmanuel Lévinas). Disponível na web está o sítio do centro de estudos dedicado ao pensamento do filósofo: www.cebelonline.hpg.ig.com.br. O CEBEL foi fundado em 1999, e tem como sede a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Susin afirma que o centro “representa o resultado de pesquisas que foram expostas no X Encontro Nacional da ANPOF, em São Paulo, ao final de 2002”, em: SUSIN, Carlos; FABRI, Marcelo; PIVATTO, Pergentino S.; TIMM DE SOUZA, Ricardo (orgs.) Éticas em Diálogo: Levinas e o pensamento contemporâneo: questões e interfaces. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003. p. 9. Verifiquem-se outras obras dos estudiosos de Lévinas: PIVATTO, Pergentino S. A ética de Levinas e o sentido do humano – crítica à ética ocidental e seus pressupostos. Veritas, v. 37, n. 147, p. 325-363, 1992; IDEM. Elementos de Reflexão sobre a questão de Deus em Heidegger e Levinas. In: SUSIN, Luiz Carlos; FABRI, Marcelo; PIVATTO, Pergentino S.; TIMM DE SOUZA, Ricardo (orgs.) Éticas em Diálogo..., p. 111-130; FABRI, Marcelo. Desencantando a Ontologia: subjetividade e sentido ético em Levinas. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1997; TIMM DE SOUZA, Ricardo. Sujeito, ética e história: Levinas, o traumatismo infinito e a crítica da filosofia ocidental. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1999; PELIZZOLI, Marcelo L. Levinas: A reconstrução da subjetividade. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002; BUCKS, René. A Bíblia e a Ética: A relação entre a filosofia e a Sagrada Escritura na obra de Emmanuel Levinas; MELO, N. Vieira de. A ética da Alteridade em Emmanuel Lévinas.
640
FABRI, M. Desencantando a Ontologia: subjetividade e sentido ético em Levinas, p. 11.
641
profética é uma espécie de mediadora entre essas duas esferas, pois meu Dizer nunca se absorve na impessoalidade do Dito642.
O segundo autor é Timm de Souza, que, em estilo pontual e preciso, resume o pensamento de Lévinas “como uma Crítica da Totalidade desenvolvida sub specie philosophiae e que toma a forma de uma radical apologia da justiça – objetiva a ‘substituição’da Ontologia pela Ética no papel de prima philosophia”.643 Totalidade significa tudo o que “de forma aberta ou oculta, intenta o aniquilamento da Alteridade do Outro, seja no processo lógico do pensamento, seja na ideologia do infinito progresso ou da infinita acumulação (...) do dinheiro”.644 Mediante essa crítica filosófica se estabelece uma esperança ética: “A possibilidade de uma nova base
filosófica para um futuro ético da humanidade”.645 O futuro ético é traçado a partir da “infinita proximidade da presença do Outro” que constitui uma “alternativa” para “a construção da paz, através da multiplicação das possibilidades da recepção do Infinito ético”.646
O terceiro autor é Luiz C. Susin. Ele investiga a articulação entre a antropologia levinasiana e a teologia. As pesquisas de Susin apontam para o fato de que a subjetividade é o
locus theologicus da transcendência. A subjetividade é animada, pois, pela alteridade definida em
termos de expiação e substituição. A idéia de um Infinito absolutamente separado é revertida à alteridade que passa a ser igual e absolutamente separada. Com a idéia do Infinito, demonstra-se a dívida de Lévinas para com Descartes647. Susin pesquisou a obra de Lévinas intitulada Difficile
Liberté, e sugere que é na “passividade” que Lévinas “desce ao abismo infinito do Messias”.648 A partir do abismo do Messias, Susin reflete sobre a aproximação entre antropologia e messianismo antes que entre antropologia e ontologia, pois, em Lévinas, “o homem se define mais por sua vocação a Messias do que por seu ser”.649 Difficile Liberté trata da morte do sujeito em sentido
642
FABRI, M. Desencantando a Ontologia: subjetividade e sentido ético em Levinas, p. 209-210.
643
TIMM DE SOUZA, Ricardo. Sujeito, ética e história..., p. 6.
644 Ibid., p. 174. 645 Ibid., p. 6. 646 Ibid., p. 174. 647
Cf. SUSIN, Luiz C. O Homem Messiânico: uma introdução ao pensamento de Emmanuel Lévinas. Petrópolis: Vozes, 1984. p. 12-13, 14, 16, 224.
648
SUSIN, Luiz C. O Homem Messiânico: uma introdução ao pensamento de Emmanuel Lévinas, p. 469.
649
figurado e forte não como a “morte natural”, mas aquela morte que apresenta o messianismo como “o poder de suportar o sofrimento de todos”.650
O quarto autor é Pelizzoli. Ele investiga “o sentido da subjetividade, na confluência com o sentido da alteridade e o que isso implica em termos filosófico-éticos, e a de uma nova inter-
subjetividade”.651 A “nova inter-subjetividade” é uma reconstrução da subjetividade e da intersubjetividade “fora dos matizes da reciprocidade, como em Husserl e de algum modo Heidegger, mas para além também da mera nadificação”.652 É pensar a subjetividade “a partir da possibilidade de estabelecer uma abordagem da alteridade enviando em primeiro lugar à inteligibilidade ética”.653 A inteligibilidade ética é parte essencial da subjetividade. A filosofia de Lévinas se faz filosofia com e a partir do sujeito. Portanto, a subjetividade é o nó, o gancho com a filosofia. Todavia, é também o ponto de ruptura, pois o filósofo não pára aí, e descreve o sujeito sendo questionado, reduzido fenomenologicamente para, posteriormente, ser conduzido à ética da responsabilidade pelo próximo. O sujeito assim conduzido é o novo sujeito.
O itinerário rumo ao novo sujeito, aquele que passou pelo processo da redução fenomenológica levinasiana, não é de afirmação, de identificação, de negação, de síntese, de dialética. Em contraposição com este itinerário, o autor propõe o percurso do questionamento de si mesmo: o “eu” é posto entre parênteses e é questionado pelo próximo. O questionamento inquieta a subjetividade. O novo sujeito que emerge deste estado de inquietação é infinitamente responsável pelo próximo. Ele ou ela é um sujeito ético. O percurso rumo ao sujeito ético emerge da redução fenomenológica do sujeito.