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Quais as possibilidades concretas de se organizar uma prática jornalística vinculada ao interesse público, que seja independente de governos e empresas, que ajude cidadãos a se

autogovernarem e que seja: convicta de suas intenções, moralmente preocupada, verdadeira, ética, leal com a sociedade, treinada e competente na linguagem jornalística? Conforme as reflexões anteriores, não se reconhece esse jornalismo na mídia de massa ou jornalismo- negócio capitalista.

Simplesmente porque as condições enumeradas acima não estão entre os objetivos das empresas de comunicação de massa. A tendência de concentração da propriedade dos veículos, a confusão entre informação e comunicação, a midiatização da sociedade e a profusão de comunicadores amadores justificam essa análise.

Entretanto, o objetivo desta pesquisa não é teorizar indefinidamente sobre o jornalismo. Segundo os argumentos levantados até o momento, é possível uma cobertura jornalística que contribua para o debate da QAA, pois na tradição do jornalismo há competência e razões éticas para a abordagem dessa questão complexa.

Nesta seção, o objeto de pesquisa se delineia a partir da conclusão de que o jornalismo para o debate da QAA somente pode se realizar em um contexto alternativo ao da mídia de massa. Assim, o jornalismo alternativo para a QAA começa a tomar forma.

O Capítulo 2 revela que a QAA é contra-hegemônica por natureza, pois visa a questionar a ação capitalista naquilo em que é mais rentável (extração de recursos naturais), na circunstância em que mais fascina (rápido desenvolvimento de regiões como a Amazônia). Isso faz com que o jornalismo para a QAA seja expurgado do modelo de negócios da “práxis jornalística hegemônica”. Tal práxis é definida por Oliveira (2008, p. 3) como conjunto de práticas que se coadunam com a estrutura dominante e “cuja perspectiva é justamente consolidar a transfiguração da sociedade em mercado, da cidadania em consumo e da ideologia em mercadoria. [Para a práxis jornalística hegemônica] Não há vida [...] fora da sociedade de consumo”.

Oliveira (2008) afirma que a desregulamentação e a privatização da economia brasileira na década de 1990 geraram um debate ideológico no qual os grupos midiáticos apoiaram o lado conservador. Muito além disso, participaram dos negócios em questão, como a entrada ostensiva da TV Globo e de setores da mídia na privatização da telefonia. Como contraponto, a América Latina passa por um momento histórico de profunda consolidação de regimes democráticos e de surgimento de espaço para manifestação de novos atores sociais.

Oliveira constata a reformulação de contratos sociais estabelecidos na época colonial, o que se comprova com a eleição sistemática de presidentes de camadas mais pobres da população, com valores culturais diferentes dos hegemônicos. O movimento contraria a tendência global de mercantilização da esfera pública e de supremacia dos valores

econômicos. Sintonizada à disposição da massa que exige justiça social e debate democrático, surge a possibilidade de um jornalismo alternativo:

A práxis jornalística alternativa tem como perspectiva a reconstrução da esfera pública a partir dos valores da igualdade de oportunidades, da equidade, da democracia radical e da subordinação dos interesses econômico-privados aos interesses coletivos. Não se trata apenas e tão somente de defesa dos valores da democracia institucional, mas de uma atitude radicalmente democrática, que passa pela abertura dos espaços midiáticos a todos os segmentos sociais, rompendo com o cerco da agenda de fontes oficiais; pela plena referência na produção das informações no sujeito-cidadão e não no sujeito-consumidor. (OLIVEIRA, 2008, p. 3)

Tal práxis confronta-se com a estrutura monopolizada da mídia de massa brasileira que vê o jornalismo como mais uma atividade mercantil. “Os projetos alternativos de jornalismo podem configurar-se como elementos de construção de uma esfera pública alternativa, que esteja antenada com as demandas da maioria da sociedade”.39

O sentido de uma democratização lato sensu sintoniza-se a esta pesquisa ao prever a abertura de espaços midiáticos. Trata-se de um movimento sociopolítico que exige um jornalista livre de ingênuos voluntarismos, mas consciente da tradição democrática de seu trabalho, bem como das escolhas morais a que se obriga como mediador social. Entretanto, deste jornalista exige-se comprometimento e ética pessoal, na intenção de divulgar o que for de interesse público e fazer as escolhas políticas necessárias à sua autonomia profissional.

Contudo, entende-se que a noção de comunicação alternativa aflora eivada de conceitos alusivos a uma época de resistência política a governos autoritários, em um contexto muito diferente. A conjuntura atual exige a revisão de alguns desses conceitos sobre mídia alternativa, e, desta forma, opta-se por uma definição mais abrangente:

Entendemos por comunicação alternativa uma comunicação livre, ou seja, que se pauta pela desvinculação de aparatos governamentais e empresariais de interesse comercial e/ou político-conservador. No entanto, não se trata unicamente de jornais, mas, também de outros meios de comunicação, como o rádio, vídeo, televisão, alto-falante, internet, panfleto, faixa, cartaz, poesia de cordel, teatro popular etc.40

Entende-se que essa comunicação alternativa encaixa-se perfeitamente à práxis jornalística alternativa citada acima por Oliveira. De acordo com a leitura aqui proposta, a

39 Ibidem, loc. cit.

40 PERUZZO, C.M.K. Aproximações entre comunicação popular e comunitária e a imprensa alternativa no

Brasil na era do ciberespaço. In: Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 31, 2008, Natal. Anais. São Paulo: Intercom, 2008, p. 3.

definição traduz-se em uma comunicação alternativa atenta para não multiplicar a ideologia dominante. Essa é a principal característica que se deseja ressaltar sob o rótulo de “alternativo”. Nessa direção, Peruzzo (2008) diferencia “comunicação popular, alternativa e comunitária” de “imprensa alternativa”. Para a autora (2008, p. 15), “imprensa alternativa” constitui-se em,

uma vertente que reúne processos de comunicação basicamente jornalísticos, que podem assumir feições mais amplas, de caráter autônomo, e, por natureza, não alinhados aos padrões dominantes dos meios de comunicação, governos e demais setores que representam as classes dominantes. Os veículos alternativos de maior porte se constituem em alternativa frente à mídia convencional enquanto fontes de informações.

Durante décadas de ditadura e fechamento político em todo o mundo, a imprensa alternativa foi sinônimo de pluralismo e liberdade de expressão, frequentemente significando prisão, tortura e humilhações para jornalistas. Em tempos democráticos, é possível acreditar que se trate somente de dissensão plenamente aceitável no tecido social.

Em uma categorização de viés político, as atividades da imprensa alternativa são agrupadas por Peruzzo em: (a) jornalismo popular-alternativo (ou de base popular); (b) jornalismo alternativo colaborativo (de informação geral ou especializada); (c) jornalismo alternativo autônomo; (d) jornalismo político-partidário e (e) jornalismo sindical.41 Imagina- se o jornalismo alternativo para a QAA com características dos itens (b) e (c), categorizados segundo a autora conforme se segue:

Jornalismo alternativo colaborativo (de informação geral ou especializada): se

ocupa, fundamentalmente, em transmitir uma visão diferenciada e crítica dos acontecimentos que normalmente já são tratados pela grande mídia, além de temas omitidos por ela. Pode também tratar especificamente de política, economia, questões locais, questões juvenis, crítica aos meios de comunicação e assim por diante.

Seu caráter colaborativo pode ocorrer a partir de duas perspectivas. A primeira, pelo senso de ajuda, partilha e colaboração instituído e praticado, em geral, por voluntários que levam adiante alguma proposta editorial diferenciada com a intenção de colaborar na difusão crítica de informações. Dimensão essa que pode utilizar como suporte canais impressos, audiovisuais e/ou digitais. [...]

Em geral são iniciativas criadas e mantidas por coletivos, redes civis, cooperativas, Organização Não-Governamentais, Organizações Sociais de Interesse Público (OSCIPs), ligados diretamente ou não a movimentos sociais.

Jornalismo alternativo autônomo: imprensa produzida por indivíduos

isoladamente ou micro-empresários. Pode caracterizar-se como de informação geral, literário, político etc. (PERUZZO, 2008, p. 15-6)

Nesta tese, em que se trabalha nos entremeios do tecido interdisciplinar formado pela Comunicação Social e pela Ciência Ambiental, nas condições históricas amazônicas, surge uma proposta de complexa inscrição teórica, mas de fácil entendimento prático: trata-se do jornalismo alternativo para a QAA. O desafio é combinar em uma mesma cobertura jornalística a abordagem política da QAA (questionadora do desenvolvimentismo hegemônico) com um jornalismo competente (técnica) e comprometido politicamente com o interesse público de conservação da Amazônia (intenção movida a razões morais e éticas).

Operacionalizar uma cobertura feita a partir da Amazônia é um dos desafios do formato jornalístico que surge, condição de reportagens bem anguladas e aprofundadas. A proposta que ora se constrói, a ser verificada em pesquisa de campo no Capítulo 5, insere-se no esforço global para manter vivo o jornalismo independente essencial à democracia. Não se trata de uma iniciativa isolada.

Em janeiro de 2013, por exemplo, foi lançado em Bruxelas o relatório “Uma mídia livre e pluralista para sustentar a democracia europeia”42, citado em artigo do pesquisador Venício Lima.43 O documento faz 30 recomendações sobre a regulamentação da mídia na Europa, que seguirão para debate na Comissão Europeia.

Encontram-se no relatório propostas como: (1) a introdução da educação para a leitura crítica da mídia nas escolas secundárias; (2) o monitoramento permanente do conteúdo da mídia por parte de organismo oficial ou, alternativamente, por um centro independente ligado à academia, e a publicação regular de relatórios que seriam encaminhados ao Parlamento para eventuais medidas que assegurem a liberdade e o pluralismo; (3) a total neutralidade de rede na internet; (4) a provisão

de fundos estatais para o financiamento da mídia alternativa que seja inviável comercialmente, mas essencial ao pluralismo; (5) a existência de mecanismos que

garantam a identificação dos responsáveis por calúnias e a garantia da resposta e da retratação de acusações indevidas. (LIMA, 2013, p. 3, grifos nossos)

Conforme o exemplo do relatório acima, por que não pensar em alternativas de viabilização econômica para a Comunicação Social, como o financiamento público para a cobertura jornalística alternativa da QAA? A mídia alternativa se revela essencial ao pluralismo em qualquer latitude. Em busca de democracia e de justiça social, premissas para o debate da QAA, são as vozes dissonantes (pluralistas) que podem trazer benefícios

42 Disponível no link:

http://ec.europa.eu/information_society/media_taskforce/doc/pluralism/hlg/hlg_final_report.pdf. Acesso em jan 2013.

43 LIMA, V. Sob o ensurdecedor silêncio da grande mídia brasileira. Observatório da imprensa. [S.l]:

Observatório da imprensa, 2013. Número 731, 29/01/2013. Disponível em: http://www.viomundo.com.br/politica/venicio-lima-sob-o-ensurdecedor-silencio-da-grande-midia-

sustentáveis para a conservação da Amazônia. A preocupação com a viabilidade econômica é legítima e obrigatória para que se pense em um jornalismo alternativo de qualidade.

Assim, o objetivo da presente pesquisa passa a ser a construção de uma proposta concreta de jornalismo alternativo para a QAA. No entanto, primeiramente se estabelecerão alguns conceitos teóricos para essa prática jornalística. Ao final, a proposta integrará pesquisa de campo em que se verificará sua viabilidade.

O processo inclui o jornalismo que pretende ouvir os conhecimentos empíricos dos povos tradicionais da floresta, mas, dialeticamente, a própria tese também busca gerar conhecimento a partir de um formato institucional baseado em demandas sociais pragmáticas. Busca-se sintonia com o pensamento de Medina (2006, p. 53-4), para quem,

No âmbito estrito das disciplinas científicas havia e há constantemente uma discussão epistemológica que procura flagrar a incompletude dos saberes especializados e os riscos que a fragmentação e a dogmatização de certas verdades, princípios e leis representam ao se considerar pragmaticamente o esforço da ciência no sentido de dar respostas às necessidades humanas.

As palavras de Medina vão ao encontro das de Leff (2006), quando este autor defende a hibridação das ciências com o conhecimento não científico, o qual pode ser feito por meio do jornalismo. “Seja através dos mediadores-autores da comunicação, seja em outras mediações com a ciência e a sociedade, educador e educando” (MEDINA, 2006, p. 53). E, completa-se: seja por meio da pesquisa científica interdisciplinar.

Na institucionalização de um jornalismo alternativo para a QAA e na ciência em geral vive-se uma crise de paradigmas decorrente de fatos contemporâneos como: a unanimidade tecnológica; a midiatização da sociedade; a crise ambiental; o fim do socialismo real; o liberalismo triunfante; a iminência da pós-modernidade; as descobertas (notadamente na física quântica) que apontam para a premência de tornar a pesquisa científica mais complexa, isto é, mais qualitativa. São inúmeros os indícios de que a sociedade globalizada se encontra em um ponto de inflexão, em cujo vértice se enxerga a necessidade de discutir a crise ambiental.

Para Boaventura de Sousa Santos, a ciência contemporânea – e, eu diria, o jornalismo – está vivendo outra crise que não a do crescimento. Com todas as tragédias do século XX, com o mural dramático da miséria da humanidade, certamente não se vive, na primeira década do século XXI, a euforia do progresso, seja na ciência, seja no jornalismo, seja no senso comum. Na crise de degenerescência que claramente se configura na saúde e felicidade humanas ou no equilíbrio do planeta, percebe-se uma nova ruptura: os especialistas precisam reencontrar os elos perdidos entre eles e as múltiplas sabedorias para, juntos, darem outras respostas aos impasses históricos. Se a ciência se isolou na sua excelência para construir conhecimentos rigorosos, cifrados na especialização, hoje se faz

necessária a rearticulação perdida. [...] Quando uma especialização se dá conta das condições sociais e humanas em que o conhecimento científico se aplica ao cotidiano, não há condições de evitar a crise de degenerescência e a consequente ruptura com a gramática construída em torno das técnicas e da tecnologia assépticas.

Dessa reflexão e da consciência dos limites e contradições do saber científico nasce uma nova epistemologia, com o pé fincado na realidade humana e no meio ambiente humanizado. É o que se pode chamar epistemologia pragmática. [...] A inter, a trans e a pós-disciplinaridade reforçam o diálogo entre os saberes científicos, mas também com o saber cotidiano, o saber local, o senso comum, o saber mítico, religioso e artístico. (MEDINA, 2006, p.12, grifos da autora)

O jornalista entra para articular ciência e saber comum: Medina constata o fim da “divulgação” científica para promulgar o diálogo na contemporaneidade democrática. Dentro da prática jornalística, o “signo da divulgação” é substituído pelo “signo da relação”. Não se trata mais de transferência ou de transmissão de saberes (divulgação), mas de praticar a interação criativa dos saberes, de construir criativas mediações do saber plural (MEDINA, 2006, p. 13-4).

A ação comunicativa, na versão argumentativa de Habermas, ou o diálogo entre a ciência e o senso comum, na proposição de Boaventura de Sousa Santos [...], se constroem para além da racionalidade complexa, ou seja, outra mentalidade, outro comportamento solidário, e outra estética, a da interação social criadora. (MEDINA, 2006, p. 15)

Interpreta-se a revolução proposta por Leff (2006) na relação sociedade-ambiente como análoga à revolução proposta por Medina na relação jornalista-sociedade. Ambas ensejam que o cidadão contemporâneo participe da “interação social criadora”. As narrativas jornalísticas em geral, como a entrevista e a reportagem, necessitam de debates à luz de questionamentos como: (a) a ciência, as condições sociais e humanas reafirmam o paradigma cientificista ou exigem uma nova mentalidade?; (b) o jornalismo precisa de um simples aperfeiçoamento técnico ou exige uma pesquisa de linguagem transformadora?; (c) os cientistas estão propensos a reforçar a excelência de seu conhecimento ou se inclinam para a permuta com outros saberes humanos?; (d) no jornalismo, reforça-se a divulgação científica das fontes consagradas ou afloram novos debates plurais e contraditórios?

De acordo com questionamentos como esses, pesquisam-se formatos inovadores para a narrativa do jornalismo alternativo para a QAA. Além do que já foi exemplificado em seções anteriores como as características do melhor jornalismo já praticado (ethos jornalístico; elementos do jornalismo e da mensagem jornalística; relato veraz), a atualidade requer um perfil diferenciado. É preciso lançar um olhar contemporâneo ao jornalismo alternativo.

Pela ilusão da ótica objetivista, não se percebem os filtros que impedem a relação sujeito–sujeito, essencial para que se descubram algumas das forças do processo e se arme a narrativa dos fatos contemporâneos que ensaie, ao mesmo tempo, a polifonia e a polissemia do presente, o enraizamento na história, na cultura e nas identidades míticas, bem como a enunciação de tendências projetivas. (MEDINA, 2006, p. 59)

A relação sujeito–sujeito qualifica-se como uma opção política e um método atrelado à intenção de agir pelo interesse público. Entende-se a relação sujeito–sujeito como uma postura de igualdade e respeito do jornalista com as pessoas que fornecem informações e cujas vidas serão inquiridas pelo próprio jornalista. Em oposição à relação sujeito–sujeito estaria a relação sujeito–objeto, na qual o jornalista sai a campo para exercitar o jornalismo como se fosse uma “equação”, calculando quantas declarações e/ou imagens serão suficientes para cumprir o viés previamente determinado para aquela reportagem. Mesmo que a realidade se revele diferente desse viés pré-determinado, o repórter só conseguirá enxergar os fatos que anteviu como soluções para a sua “equação”.

O agente cultural “jornalista” deve assumir que seu ofício tem como matéria-prima a contradição, o conflito, a intercausalidade, a pluralidade e o caos. Procura-se um profissional hábil em desviar de conclusões incoerentes com a observação de campo.

Talvez o cuidado que possamos desenvolver com base na consciência das limitações da narrativa da comunicação social seja o de não demonstrar [...] teses conformadas antes do embate com o mundo vivo e seus paradoxos. Enfim, um cuidado metodológico que não representa nenhuma novidade no conhecimento científico. [...] Reportar o presente, valendo-se de uma inquieta e criativa metodologia de investigação, e ensaiar uma das várias redes de significados – eis um laboratório permanente para os autores-pesquisadores que aspiram a uma ação comunicativa. (MEDINA, 2006, p. 62)

Neste capítulo da obra, a autora descreve projeto de pesquisa sobre o diálogo entre ciência e sociedade, atividade de extensão e série de livros “Novo Pacto da Ciência”, reunião de pesquisadores interdisciplinares em torno das mediações sociais (ciência / sociedade / comunicação). Na narrativa da autora, conceitos sobre o novo papel da Comunicação Social na sociedade convivem com a descrição do “Novo Pacto da Ciência”.

O discurso híbrido (narrativo e metanarrativo) de Medina se mostra coerente com os objetivos desta tese, pois se encaminha um jornalismo alternativo em que o próprio formato jornalístico está em permanente questionamento. As afirmações da autora no contexto de seu projeto de pesquisa/extensão servem igualmente aos presentes propósitos: primeiro por se abrirem com tendência de universalidade; segundo por trazerem, no estilo, a complexidade que pretendem divulgar.

O jornalismo alternativo para a QAA constitui-se como um método adaptado à crise da objetividade e ao conteúdo complexo da QAA (político e socioeconômico). É necessário evitar ao máximo o direcionamento ideológico de veleidade conclusiva. (Assume-se a postura ideológica do “jornalismo alternativo para a QAA” somente em sua estrutura, explícita na opção por um formato alternativo de viabilização econômica.)

Medina (2006, p. 81) vai afirmar que “qualquer mensagem jornalística, esteja ela onde estiver, nas editorias ou divisões temáticas, constitui produção cultural”. Destarte, o jornalista passa a ser visto como agente cultural, responsável por produzir sentidos (produção simbólica) a respeito dos acontecimentos.

Trata-se de um agente que circula pela realidade concreta; observa, capta depoimentos dos protagonistas sociais, ouve relatos, análises e informações especializadas. Ao fim, cria uma narrativa jornalística que passa a ser uma espécie de “segunda realidade”, também capaz de produzir efeitos no mundo material. Nessas mediações, o jornalista, como privilegiado leitor da cultura, assume responsabilidade autoral. Admite-se a responsabilidade pessoal do jornalista como autor, e não como operário acrítico dos veículos de Comunicação Social.

“No universo simbólico, não há uma verdade absoluta, mas um processo de conflito de verdades. Ao agente de cultura chamado jornalista cabe produzir narrativas atravessadas por contradições, embates de visões de mundo, incertezas, interrogações”.44 Conviver com os conflitos e interpretar a realidade no calor dos acontecimentos: tal é a arte do jornalista. No caso do jornalismo alternativo que se pesquisa para fundamentar o debate da QAA, a responsabilidade e o comprometimento se originam na razão moral e na opção política de colaborar para a conservação da floresta amazônica. Assim, o jornalista adquire critérios para se orientar na complexidade contemporânea.

Torna-se imprescindível recorrer ao conhecimento do saber comum dos povos tradicionais, como parte do “conflito de verdades”. Somente o repórter presente na realidade concreta pode dar o tom adequado para a sua narrativa, de acordo com “uma razão complexa para procurar e articular informações disponíveis. A intuição abre caminhos para o insight