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2. CADRE LEGAL ET INSTITUTIONNEL – INSTRUMENTS DES POLITIQUES 52

2.5 Comparaison et éléments clés du cadre institutionnel

Neste longo comentário não mostramos porque é que o rato de T4.1 é diferente do da

nossa história. Por isso convirá procurar outros textos que ponham em destaque as caracte- rísticas relevantes do pretendente da carochinha, de forma a verificar se é coerente o que ele faz e diz de si mesmo.

O primeiro texto com interesse para o nosso argumento encontra-se nas fábulas de Esopo, vertidas por Manuel Mendes, nele sendo posto em evidência que entre o rato doméstico e o rato selvagem há diferenças significativas no que respeita aos hábitos alimen- tares.

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ID, op. cit., I, pp. 683. O entendimento das outras expressões é o seguinte: «o que não devia encontrar» = uma topadela; «o bom no melhor» = uns bois num trigal; «o doce no ar e o rico ao pé» = uma amendoeira carregada.

T4.3: O rato cidadão e o rato montesinho

«Um rato que morava na cidade, acertando de ir ao campo, foi convidado por outro, que lá morava, e levando-o à sua cova, comeram ambos cousas do campo, ervas e raízes. Disse o Cidadão ao outro: ‘Por certo, compadre, tenho dó de ti, e da pobreza em que vives. Vem comigo morar na cidade, verás a riqueza, e a fartura que gozas.’ Aceitou o rústico e vieram ambos a uma casa grande e rica, e entrados na despensa, estavam comendo boas comidas e muitas, quando de súbito entra o despenseiro e dois gatos após ele. Saem os ratos fugindo. O de casa achou logo seu buraco, o de fora trepou pela parede dizendo: ‘Ficai vós embora com a vossa fartura, que eu mais quero comer raízes no campo sem sobressaltos, onde não há gato nem ratoeira.’ E assim diz o adágio: Mais vale magro no mato, que gordo na boca do gato.»376

O texto mostra que as várias espécies de ratos se alimentam de maneira diferente: o rústico come ervas e raízes, ou seja, coisas totalmente naturais, ao passo que o urbano, delicia-se com grande abundância de boas comidas.

Esta diferenciação entre os dois animais parece, de resto, ter feito caminhada na literatura. Subjacente a um poema do Fausto de Goethe, encontramos, com efeito, algumas das notas caracterizadoras do rato doméstico. O trecho em causa, bastante descontextua- lizado do resto da acção, é cantado por um dos «alegres companheiros» na taberna de Auberbach, em Leipzig.

T4.4. O rato do Fausto

«Havia uma ratazana num buraco de cave / Que vivia só de gordura e manteiga / Tinha-se feito uma pequena barriga redonda / Tal qual a do Doutor Lutero. / A cozinheira deitou-lhe veneno / Então o mundo lhe pareceu bem pequeno / Como se tivesse o amor no ventre. / [...] / Daqui para ali corre e sai / Vai beber a todos os charcos / Rói e arranha por toda a casa / Mas o furor não lhe aproveita / Faz muitas cabriolas angustiadas / Em breve o pobre bicho fica cansado / [...] // Angustiado corre em pleno dia / E à cozinha vai parar / Cai na lareira, esperneia, patas no ar / E arfa que era um dó ver / Ri a envenenadora então: / Ah, chia tu a tua última canção / Como se tivesses o amor no ventre.»377

Não se pode deixar de ver neste excerto um certo paralelismo, elaborado embora, com a história da carochinha, designadamente no que se refere ao contexto culinário e ao

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Editado em Teófilo BRAGA, Contos tradicionais..., II, p. 276.

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Johann W. GOETHE, Faust, I, 2126-2148, trad. de Henri Lichtenberger, Paris, Montaigne, s.d., p. 68. O texto alemão é o seguinte [2126]: «Er war eine Ratt’ im Kellernest / Lebte nur von Fett und Butter / Hatte sich ein Ränzlein angemäst’t / Als wie der Doktor Luther / Die Köchin hatt’ ihr Gift gestellt; / Da ward’s so eng ihr in der Welt / Als hätte sie Lieb’ im Leibe. [… 2134] Sie fuhr herum sie fuhr heraus / Und soff aus allen Pfützen, / Zernagt’ zerkratzt’ das ganze Haus, / Wollte nichts ihr Wüten nützen; / Sie tät gar manchen Aengstesprung, / Bald hatte das arme Tier genung, / Als hätte es Lieb’ im Leibe. […2142] Sie kam für Angst am hellen Tag, / Der Küche zugelaufen, / Fiel an ten herd und zuckt’ und lag, / Und tät erbärmlich schnaufen. / Da lachte die Vergifterin noch; / Ha! Sie pfeift auf den letzten Loch, / Als hätte sie Lieb’ im Leibe.»

facto de a ratazana morrer esperneando, patas no ar, na lareira. Algumas das traduções, mal sustentadas pelo original, ainda estendem mais esse paralelismo.378

Nerval, por exemplo, afirma que o rato morreu assado no forno, o que de alguma maneira constitui uma inter- pretação, já que o animal cai na lareira, tal como na nossa história onde se diz ilogicamente ter ele sido «assado» na água do caldeirão.

Mas este não é o único ponto de contacto entre os dois textos. Goethe diz explici- tamente que a ratazana tem um grande ventre – tão redondo como o de Lutero –, o que indicia uma grande voracidade. E tudo se passa na cozinha, ambos os ratos confundindo comida e amor. As poucas diferenças existentes – ser uma ratazana, ser envenenada e não haver outro animal na história – não são suficientes para dizer que a história da carochinha e o texto do Fausto não seguem um mesmo modelo. De facto, não referindo explicitamente nenhum casamento, também nele se afirma que a ratazana está enamorada, o que faz supor, pelo menos, um contexto de namoro.

Havendo, pois, tais semelhanças entre estes textos pode-se perguntar donde provêm. A melhor hipótese será que Goethe terá usado como fonte uma tradição popular379

seme- lhante à portuguesa, representando a história da carochinha um dos possíveis desenvol- vimentos desse núcleo comum. Todos os factos apontados são consentâneos com esta explicação. Por isso não se faz violência nenhuma a este poema comparando-o com a nossa história.

Estes dados mostram, pois, que a preferência do rato pela comida não é uma particularidade do conto português mas corresponde a uma marca caracterológica que foi teorizada da mesma forma na cultura popular e na literatura erudita. Neste sentido se entende que também o rato do Fausto prefira manteiga e gorduras, as quais fazem do seu ventre uma imagem do de Lutero.

No pressuposto de que as atitudes e os comportamentos dos actores só se tornam claros quando ideal-tipificados, importará ver em que medida a oposição {comer / vestir}, determinante do entendimento da personagem carochinha, também está presente nos comportamentos do João Ratão, o que, a verificar-se, mostraria que o trabalho simbólico

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As versões poéticas para francês (Johann W. GOETHE, Faust, trad. de Gérard de Nerval, Paris, Librio, 1995, pp. 60-1) e para inglês (George M. PRIEST: http://www.pinkmonkey.com/dl/library1/ faust.pdf), introduzem, com efeito, noções que não correspondem à letra do poema. Gérard de Nerval, situa a história, desde o início, na cozinha e traduz os vv. 2142 e ss. desta maneira: «Dans le fourneau, le pauvre sire / Cru enfin se cacher très bien; / Mais il se trompait et le pire, / C’est qu’il y creva comme un chien. / La servante, méchante fille, / De son malheur rit bien alors: / Ah, disait elle comme il grille!. / Il a vraiment l’amour au corps!» Na tradução de George Madison Priest, o mesmo texto significaria: «By anguish driven in open day / It rushed into the kitchen, / Fell on the hearth and panting lay, / Most pitiably twitchin’. / Then laughed the poisoner: / ‘Hee! hee! hee! It’s at its last gasp now,’ said she, / ‘As if it had love in its body.’ » João BARRENTO (Fausto, Lisboa Relógio d’Água, 2003, 2ª ed. p. 121) minimiza alguns dos traços apontados: «Em pleno dia, a tremer, / À cozinha foi parar. / Cai no lume a estrebuchar, / Arfava que era um dó ver.»

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Esta hipótese está de acordo com que o facto de o autor ter utilizado um conto popular noutros versos do seu poema: «Minha mãe, a galdéria / Que me matou! / Meu pai, o patife / Que me comeu! / Minha irmãzinha guardou / Os ossos e os enterrou / Em fresco lugar. / Ali em belo pássaro do bosque me tornei. / Voa longe, voa longe» (Fausto, 4412-20), dos quais existem vários paralelos nas tradições contísticas de muitos países europeus, inclusive Portugal e Alemanha. (Seguimos a tradução de J. Barrento, op. cit., p. 246, excepto nos dois últimos versos.)

atingiu um alto grau de elaboração na nossa história. Esta oposição é, de facto, requerida pela lógica da diferenciação entre os dois actores principais, por terem sortes antagónicas.

Ora os factos conformam-se com a hipótese, segundo passamos a mostrar, reprodu- zindo o texto da V2 (a V1 é omissa neste particular), que refere o seguinte: [1.3.1] «Casaram- se, e ele chamava-se o João Ratão. Domingo à missa / Ambinhos vão, / Feijões ao lume / No caldeirão. / Viu-se a carochinha / Sem leque na mão. / ‘carochinha sem leque! / Que não dirão? / Vai-me por ele / Meu João Ratão.’ Chega ele a casa / Vai ao caldeirão, / Meteu um pé, / Meteu a mão / Caiu lá dentro / O João Ratão.» No essencial, e em termos categoriais, o texto diz que, devendo o rato ir em busca de um bem de vestuário, efectivamente preferiu um bem comestível.

Mas esta opção não é apenas significada nesta versão. Muitas outras a exprimem,380

referindo como objecto por ele desprezado, o leque,381

as luvas,382

o colar, o livro de missa, o véu, o relógio ou o anel do casamento383

preferindo-lhes o que estava a cozer na panela. Ora se bem atentarmos na natureza destes objectos, incluindo os menos frequentes, verificamos que todos cabem na categoria de adornos ou enfeites, ou seja objectos relacionados com o vestuário excessivo. Mais: são de género idêntico aos preferidos pala carochinha e que ela comprou para conquistar o seu noivo.

O facto de ser tão grande o número de versões que explicitam os termos da alterna- tiva da escolha do rato não pode deixar de significar que, no entendimento que o mitógrafo português faz da história, os comportamentos da carochinha e do João Ratão são antagó- nicos: enquanto a primeira prefere os bens de vestuário às guloseimas, o João Ratão prefere a comida aos adornos. Desta sorte, a história, na parte já analisada, pode ser resumida na fórmula: {carochinha / João Ratão // vestir / comer}, a qual, para ser completa, deveria ter ainda a relação {vida / morte}. É o comer que efectivamente implica a morte, segundo modalidades que abordaremos mais adiante (nos pontos 5 e 8 deste capítulo). De resto, mesmo quando esta última oposição não é expressa, está implícita nos comportamentos, tanto da carochinha que opta pelo enfeites, como do rato que come excessivamente.