3.4 Evitement des résonances acoustiques
3.4.6 Comparaison entre les différentes méthodes d’alimentation
acima de tudo, uma visão de mundo sobre a figura feminina (e, consequentemente, sobre a masculina).
Se dermos um salto na História, verificamos outro momento que coloca em cena a mulher como atuante no contexto histórico de formação da sociedade brasileira. Nos anos 60 e 70, as mobilizações femininas contra a ditadura levaram muitas delas a serem presas ou exiladas por contestarem a ordem militar e patriarcal. As mulheres lutaram pela democracia, mobilizadas pelo que reivindicava o grupo como um todo - o fim da ditadura - e por questões mais específicas, como o fim do combate à violência doméstica, a construção de creches para os filhos das trabalhadoras e o direito ao aborto.
Em consequência do que foi dito, a partir dos anos 1960, as ações femininas em busca de representação política são intensificadas. Os jornais e revistas são agora mais comuns do que no século XVIII, as universidades já acolhem mulheres e o mercado de trabalho começa, aos poucos, aceitar a presença feminina. Com um pouco mais de espaço na sociedade, a mulher passa a ter mais oportunidades de expor suas ideias, de manifestar seus pensamentos e de reivindicar seus direitos. Destarte, várias ações começam a surgir com este intuito e podem ser interpretadas como gestos de libertação feminina. Não pontuaremos aqui essas ações, pois vamos verificá-las por meio das divulgações da imprensa nos jornais selecionados para o corpus. Os periódicos servirão de orientação lógica e cronológica da luta feminina em busca de sua representação e de sua identidade no mundo.
5.4.3 Aspecto biológico da constituição feminina
As discussões sobre os gêneros sociais aumentaram e solidificaram-se a partir de fins do século XX. Grupos de pesquisadores, feministas, simpatizantes do núcleo de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais (LGBT) e militantes da igualdade têm utilizado a mídia, os movimentos e as redes sociais para ampliar o espaço de discussão. Dessa maneira, o entendimento sobre ser homem e ser mulher passa por momentos de redefinição na sociedade. Se até o século XIX prevaleciam os ditames religiosos e a concepção de mulher associada à imagem de Nossa Senhora (santa) ou de Eva (pecadora), o século XXI apresenta uma nova configuração de ser mulher, ligada mais a
aspectos socioculturais e psíquicos do que a aspectos biológicos. Diante desta nova realidade, faz-se necessário rediscutir em que medida os aspectos biológicos/físicos são essenciais (ou não) para a constituição do que é ser mulher.
Sob uma visão mais anatômica compreende-se mulher a partir dos seus órgãos sexuais. Considera-se, essencialmente, os aspectos biológicos da formação da mulher sem importar-se com a constituição social e histórica. Essa diferenciação é sustentada, especialmente, pela teoria americana.
Seguindo as americanas, distingue-se o sexo, biológico, e o gênero (tradução na verdade insuficiente para Gender), construção sociocultural, produto das relações sociais desenvolvidas no tempo e que se pode, consequentemente, desconstruir. (PERROT, 2005, p. 264)
Alguns teóricos falam em natureza feminina, o que nos leva a pensar em uma constituição biológica da definição de mulher, algo pré-estabelecido, capaz de fixar características e comportamentos próprios de determinado gênero. Desse modo,
Começa assim a se configurar uma ideia do que venha a ser a natureza feminina na perspectiva steiniana. Até agora temos que a mulher experimenta sua feminilidade também no corpo, sendo este um elemento muito importante para se pensar na figura feminina. Além disso, a mulher, ela mesma, se volta para o outro com toda a sua inteireza, sempre atenta à totalidade e àquilo que vive. A partir desta atitude, entende-se também que o fato de ser mulher traz consigo um desejo e uma necessidade de realização no mundo, com uma missão específica a ser realizada (ROSA, Gerlaine; 2014, p. 18).
Aceitar a visão da natureza feminina é aceitar que a caracterização de homens e mulheres baseia-se na perspectiva biológica e assume “[...] categorias naturais,
essencializadas, resistentes às forças arbitrárias da cultura, da história e da pessoa”
(MATTOS, 1999, p.20). Em contraposição a essa ideia, Grossi afirma que
[...] falar em gênero é, portanto, pensar não em homens e mulheres (biologicamente diferenciados), mas em masculino e feminino como
construído a partir de relações sociais “fundadas nas diferenças entre os sexos”, diferenças hierarquicamente determinadas [...] (GROSSI,
1994, p.339).
Ao conduzirmos a discussão para os aspectos psicológico-existenciais, encontramos elementos que se contrapõem à visão pragmática da mulheridade. A psicologia fenomenológica, fundamentada nos postulados de Edith Stein, compreende o ser mulher como uma vocação. Dessa forma, há um vínculo religioso que expande o aspecto meramente físico da mulher para uma concepção mais transcendental. A pesquisadora Gerlaine Rosa (2014), em sua discussão sobre a natureza da mulher concorda que há uma relação entre a mulher e o espaço sócio-histórico onde ela se forma, mas defende também ser necessário que ela busque em sua interioridade a sua própria identidade.
Compreende-se assim que alcançar o ser feminino pleno exige um processo interior de conhecer a si mesmo, ajustando forças internas e externas a fim de assumir a função primordial feminina de abrir-se à totalidade para aquilo que movimenta no mundo, para o ser vivente, de modo a ajudar as outras pessoas a serem elas mesmas. (ROSA Gerlaine, 2014, p.20)
Compreendo que o entendimento sobre ser homem e ser mulher perpassa um conjunto de elementos que vão desde aspectos físicos a elementos psíquicos e culturais. A sociedade tenta moldar os seres humanos a partir de um conjunto de crenças e valores que estipulam os comportamentos cabíveis a homens e mulheres. Dessa forma, a partir dessa determinação social, são estabelecidas maneiras de falar, agir, vestir e ser homem e mulher. Na discussão travada nesta tese, portanto, a compreensão do papel social da mulher e de sua representação está intimamente ligada à maneira como a sociedade entende e quer que a mulher se comporte. Por isso, toda atitude que se desvia do padrão estabelecido socialmente é tida como transgressora; toda mulher que foge dos índices determinados socialmente é tida como rebelde e feminista; todo homem que resolve desviar-se do pretenso caminho correto definido pela sociedade é julgado de forma pejorativa. Sendo assim, nossa compreensão sobre quem nós somos depende diretamente do lugar onde estamos, dos valores que assumimos, da visão de mundo que temos e, especialmente, das nossas crenças.
Sob essa mesma perspectiva, Gerlaine Rosa (2014) define o ser mulher como um equilíbrio de forças que moldam o gênero. Para a pesquisadora,
[...] há uma dimensão estruturante do feminino que é experimentada quando forças internas e externas encontram o seu equilíbrio e a
mulher pode, sem exageros, reconhecer aquilo que é no mundo e assumir a missão para a qual ela foi chamada (ROSA, Gerlaine; 2014, p.20).
A partir desse viés e com o olhar centrado nos elementos desta pesquisa, podemos concluir que a mídia torna-se um elemento externo, capaz de contribuir para que a mulher molde seu jeito de ser. Do mesmo modo, a família, as instituições civis e religiosas, os elementos culturais são forças exteriores que se unem à compreensão psicológica e espiritual da mulher, consideradas forças internas para se equilibrarem e exteriorizarem aquilo que ela compreende de si mesma como sendo o seu ser mulher no mundo.
Sob o viés da psicologia social e com o intuito de alargar a nossa visão sobre identidade e representação social, está Costalat-Founeau (1997) que afirma a influência das regras sociais na formação da identidade do indivíduo. Para ela,
As representações não constituem um sistema engessado, é um sistema em movimento que não pode se limitar à organização de uma realidade objetiva. As regulações sociais de tipo afetivo influenciam os processos característicos das representações. (COSTALAT- FOUNEAU, 1997, p.13, tradução nossa). 28
A partir desse ponto de vista, podemos compreender que a constituição do ser mulher está ligada às regulações sociais que produzem a representação identitária dos indivíduos. Desse modo, somamos à fluidez do sistema a noção de exterioridade do mesmo, capaz de interferir internamente na formação e caracterização do indivíduo.
Tomamos como exemplo uma interferência externa na constituição do indivíduo mulher, no que tange à sexualidade, área tão reprimida para a mulher, que Araújo (2004) prefere chamar de “adestramento da sexualidade”, o que inclui “uma educação
dirigida exclusivamente para os afazeres domésticos”. (ARAÚJO, 2004, p.50). Em seus estudos, o pesquisador pontua que desde o Brasil Colônia, uma forma de exercitar a sensualidade diante da repressão, era através das vestimentas. As mulheres usavam roupas sensuais, transparências e decotes que chamavam a atenção dos homens e chegavam a ser até discutidas de forma hierárquica. O rei, em 1709, proibiu as escravas
28 Nossa tradução de: “Les représentations ne constituent pas un système figé, c’est un système en
mouvement qui ne peut se limiter à l’organisation d’une réalité objective. Des régulations sociales de type affectif influencent les processus caractéristiques des représentations” (COSTALAT-FOUNEAU, 1997, p.13.
de usarem sedas e telas para que não desviassem a atenção dos homens e os incitassem ao pecado (ARAÚJO, 2004, p.57). Percebemos, neste caso, uma forma clara de interferência externa na constituição do indivíduo, um molde social que constrói, organiza e pode delinear a identidade e a representação de um indivíduo ou grupo.
Diante dessa visão sobre a contribuição da sociedade no entendimento da mulher e sua identidade, apresentaremos, na seção seguinte, a discussão sobre o papel social exercido pela mulher e suas contribuições na imprensa.