A enfermagem é considerada uma profissão de relação, em que os enfermeiros lidam diariamente com doentes, trabalhando em contextos em que a morte é uma presença constante, sendo extremamente difícil e doloroso enfrentar essa realidade (Tojal, 2011). Ao considerarmos a profissão de enfermagem como humanista, pode-se inferir que lhe está implícita a relação humana, quer seja com o doente quer com a equipa multidisciplinar, logo
130 pode-se considerar que se trata de uma profissão onde as relações interpessoais ocupam um lugar de destaque (Costa, 2009).
Nesta categoria, são abordadas as competências dos enfermeiros focadas: na relação enfermeiro-doente: na proximidade e no acompanhamento; na relação de confiança; na intencionalidade e no compromisso.
3.3.1. Proximidade e acompanhamento
A presença efetiva do enfermeiro foi reconhecida como essencial no acompanhamento do doente terminal:
Proximidade e acompanhamento
- (...na prática o apoio é uma coisa muito complexa, às vezes passa simplesmente por estares lá, tu ou a família, basta esse gesto para as pessoas se sentirem apoiadas ...)E1; (...a maior parte das vezes não é preciso dizer nada realmente, porque realmente a presença do enfermeiro...)E1; (...acompanhamento da pessoa até que a morte ocorra...)E3; (...eu sinto que quando estou presente, demonstrando esta presença à doente, ela consegue mostrar o que lhe vai na alma e quase sempre no final diz sentir-se melhor, por vezes até dizem que as dores desapareceram…)E5
; (...estar mais perto dele...)E7; (...máximo de atenção possível, mais disponibilidade, mais um contacto direto...)E7; (...sentirem que estão acompanhados...)E7; (...não tenho medo de ir às salas de noite...)E8; (...é a facto do doente não se sentir desprezado...estarmos próximos deles...)E9; (...mas o sentirem que a gente favorece a presença, o sentir que a gente está presente, se for necessário alguma coisa, acho que os deixa um pouco tranquilos...)E9; (...acompanhar é mais do que estar com ele...é viver intensamente com ele e com a família de modo que a solidão e o desespero diminuem significativamente...)E10; (...procurar estar sempre próximo dele...)E13; (…é de muita importância, pois este momento, todas as possibilidades de vida se esgotaram... enfermeiro é a pessoa e o profissional que está próximo do paciente...)E19; (...I learned from people that they need us to be there and spend time with them...over time I realized that this is the most important thing in the care...)E28; (...you don't have to actually say anything...you can just be there...)E32; (...I learned from people that they need us to be there and spend time with them...over time I realized that this is the most important thing in the care...)E33; (..you’re very aware when somebody is dying, and I would be very aware and I would be in and out all the time...and not leave them on their own…)E37; (...I think for me it's an unspoken contract that I
131
’ll be there...it doesn't matter to me if you can't give me anything back, I am still willing to be here, and that, for me, is the hospice nurse's contract...)E39; (...today you can just touch their hand or give a hug...just be there...)E39.
Os enfermeiros referiram proporcionar o acompanhamento do doente na fase final procurando estar presentes e disponíveis. É importante que o enfermeiro saiba conduzir o seu envolvimento com o doente de forma eficaz e saudável, proporcionado um cuidado humanizado, que envolva o calor humano e o carinho (Benincá, Fernandez e Grumann, 2005). A presença efetiva do enfermeiro requer atenção no cuidado prestado, através da comunicação dessa disponibilidade ao doente e à sua família (Santos, Pagliuca e Fernandes, 2007).
Também Sapeta (1997) refere que o doente terminal espera mais do enfermeiro do que a simples execução de técnicas e procedimentos, procurando um suporte humano na busca desesperada do alívio ou da cura da sua doença. Para Cândido (2004), o enfermeiro ao estabelecer uma relação terapêutica com o doente terminal estabelece uma relação de proximidade que nem sempre é fácil de gerir. Para tal, é necessário que o enfermeiro desenvolva atitudes que favoreçam o acompanhamento, como: saber ouvir as necessidades e os seus receios; saber gerir uma presença silenciosa; proporcionar abertura, recetividade e atenção às diferentes dimensões do doente que sofre física e espiritualmente (Martins, 2006). "É mais difícil do que fazer o que os enfermeiros normalmente fazem nestes casos: a visita
apressada do enfermeiro...é mais simples do que sentarmo-nos à cabeceira de um doente terminal e falar com ele sobre o que o preocupa" (Morris, 1989, p.3 cit. Rossa, 2007). Nisto,
a presença do enfermeiro ao doente terminal representa a última dádiva que a ninguém pode ser negada (Oliveira, 2006).
3.3.2. Relação de confiança, intencionalidade e compromisso
Foi evidente nas falas dos enfermeiros a intencionalidade e o compromisso de querer fazer mais e melhor pelo doente terminal:
Intencionalidade e compromisso
- (...a gente tenta se dar de todas as formas, tenta dar o seu melhor, para poder atender às necessidades dele...)E11; (...ir aprimorando todo o serviço, melhorando toda parte desde o atendimento com os pacientes, a educação com os funcionários...)E13; (...pra mim não existe um paciente que não se faça mais nada, enquanto há vida, enquanto houver batimento
132
cardíaco, até já o último respiro...)E16; (...isto significa que enquanto há vida temos o dever e a obrigação de cuidar, mesmo sabendo que o que fazemos é um paliativo a fim de confortar o pouco que resta...)E19; (...lets make this day the best day that we can for...so if there is something we can do for you we will...)E26; (...how I look after people, with the way I am, means that only the best I can do for them is good enough really...)E27; (...in the hospital you can always behave in the same way, but here you have to adjust and you can not behave in the same way among different persons...)E33; (...and I think I do a good job at it, I think I enjoy it, and I can, I can make a difference...)E38; (... you walk in and you don't always know what you are walking into...you are able to make a difference, you're able to make someone smile that wasn't smiling...)E39.
Os enfermeiros demonstraram querer fazer mais e melhor para o doente e sua família, estando presente a intencionalidade na promoção do conforto e no bem-estar global. De acordo com Estanque (2011), o cuidar, como ideal moral, ultrapassa o ato específico de um enfermeiro individualmente e produz atos coletivos da profissão de enfermagem que têm consequências e repercussões importantes para o doente e sua família.
Também a relação de confiança estabelecida entre o enfermeiro e o doente terminal esteve presente em alguns estudos:
Relação de confiança
- (...eu tive ai doentes lhe não lhe dei senão um ombro amigo...)E9; (...os nossos pacientes ficam muito tempo com a gente, eles voltam sempre, ficam às vezes meses internados, a gente cria um vínculo com eles...)E11; (...na oncologia ele se torna um amigo seu, uma pessoa que você, por mais que não queira, você tem uma relação de envolvimento com ele...)E11; (...eu tento me dedicar a eles, dar atenção, me interessar pelo que eles estão falando, ter um bom relacionamento com o acompanhante, brincar, conversar, você cria um vínculo muito forte com esses pacientes...)E13; (...estabelecer um vinculo com esse paciente né?!...enquanto, um vinculo, assim, de confiança e que...através desse vinculo, eu consigo prescrever e executar e fazer cumprir medidas que são necessárias, assim, pra ele, pro cuidado dele, pra melhor assistência dele e a gente, assim, também obter um retorno...)E17; (...If you have five minutes, ask if she wants her fingernails painted...it's always good to paint people's fingernails...and you think 'I'm just painting her fingernails ' but they then start talking to you about their life, and they get to know you a bit as well and, you know, you do those extra little things that you wouldn't normally do for other people...)E32; (...it’s a question of getting this special
133
relationship and if you don’t have continuity, or are not consistent you can’t create that relationship...)E35;(...you've opened a window that's so amazingly intimate and allowed me into a place that, in many regards, I had no right to be in...I am a stranger...I think it's what nursing is intended to be, there is always a relationship...)E39.
Os enfermeiros relataram que para promover uma relação interpessoal eficaz com o doente- família é necessário a acessibilidade e a disponibilidade, que deve assentar essencialmente numa relação de confiança. Para Gama (2013), a relação enfermeiro-doente é uma das muitas relações que afeta a forma como se desenvolve a trajetória da vida e da morte de qualquer doente. O processo de cuidar permite traçar com a pessoa cuidada um horizonte para onde ela pretenda caminhar, caminho este que deve estar repleto de laços de confiança e no respeito pela pessoa, de escuta ativa, de disponibilidade, de simplicidade, de humildade, de autenticidade, de humor e de compaixão (Hesbeen, 2000 cit. Rossa, 2007). Assim, para Gama (2013), o cuidar envolve o relacionamento interpessoal que tem origem na relação de ajuda e de confiança, na empatia mútua e que se desenvolve por base em valores humanísticos e em conhecimento técnico-científico.