“Por favor, não achem natural o que muito se repete”. Bertold Brecht A divulgação da pesquisa do Censo 2010 (IBGE) causou espanto ao mostrar que, ao contrário das expectativas, as metrópoles nacionais continuam crescendo. O tema da concentração metropolitana tem, na verdade, raízes arcaicas e é uma manifestação do processo histórico de urbanização desigual que sofrem o Brasil e também a América Latina. Não é difícil notar que a concentração das salas de exibição no Brasil acompanha a tendência à metropolização e à macrocefalia urbana de nosso território.
As interpretações clássicas sobre a origem da urbanização apontam que estas são fruto da divisão social do trabalho e da extração do excedente das comunidades agrícolas. No entanto, no caso das nações que sofreram exploração colonial como o Brasil, a urbanização em sua primeira fase não foi orgânica, mas manifestação de determinações exteriores, pois os excedentes eram expatriados e a Coroa portuguesa impedia a reprodução local de qualquer capital.
No Brasil colonial, o espaço rural era o centro da economia. O mercantilismo monopolista português necessitava controlar apenas algumas poucas cidades litorâneas, ao mesmo tempo comerciais (exportação e importação) e administrativas (civis e militares). Enquanto o caráter exportador e dominador da colonização requeria a presença de
cidades, o caráter latifundiário e escravista das relações de produção mostrou-se pouco urbanizador (somente os fazendeiros residiam nas cidades), segundo Mamigonian (1982).
Até 1850, o Brasil era um arquipélago de cidades e subespaços (áreas de influência das cidades) que evoluíam segundo lógicas regionais e em relação ao projeto colonial (SANTOS, 1993). A falta de comunicação entre as áreas (vias de acesso) fortalecia as metrópoles9. A macrocefalia urbana nasceu com o Brasil, como decorrência do monopólio administrativo, comercial e fundiário (MAMIGONIAN, 1982), mas se agravou pelas características desiguais de modernização, pois a dinâmica da hierarquia urbana acompanha o desenvolvimento econômico e as rupturas históricas da nossa formação.
Além desta concentração urbana que remonta à época colonial, o capitalismo industrial também se desenvolveu desigualmente no Brasil do ponto de vista espacial, favorecendo áreas mais ricas e drenando recursos das mais pobres. A concentração espacial da produção industrial é mais consequência do que causa das desigualdades regionais brasileiras formadas em nosso processo de transição capitalista.
Não há dúvida de que a concentração urbana é necessária para o desenvolvimento do capitalismo industrial do ponto de vista de sua produtividade e da circulação. Nos países periféricos, a tendência à superconcentração urbana, ou seja, à macrocefalia, surge como consequência da urgência que tem o capital e o Estado de “criar unidades urbanas com certa consolidação; é a necessidade de concentrar seus recursos limitados em poucos centros primazes, em detrimento de outros componentes da formação social.” (JARAMILLO, 1986, p. 32).
Consequentemente, as metrópoles nacionais passam a atrair um grande contingente de migrantes, o que contribui para a rápida desintegração do complexo rural. Esta é outra forma pela qual a questão agrária incide sobre a indústria cinematográfica nacional, no sentido de que o fenômeno da desintegração do complexo rural não permite a formação de um mercado nacional consistente para a exibição cinematográfica, mas apenas de poucos mercados pontuais lucrativos.
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O caso das minas e do gado são exceções à regra, pois representaram novos padrões de organização territorial mais urbanos, que estimularam o comércio interno. A mineração exige trabalhadores especializados e um aparato administrativo de controle e fiscalização da produção mais complexo (gerando cidades com mais espontaneidade), além de ligações terrestres com os portos. O gado, através dos caminhos das tropas, que eram pelo interior, e das estâncias (locais de parada), também originava aglomerações que evoluíram para cidades.
Destarte, as migrações campo-cidade não revelam somente o dinamismo urbano, mas a decomposição violenta da sociedade rural:
A decomposição, que a proliferação das relações sociais capitalistas exerce sobre outros tipos de estruturas sociais tradicionais desencadeia fortes processos de reacomodação espacial da população que engrossam as aglomerações urbanas. O resultado é um crescimento sumamente considerável e veloz dos centros urbanos, que contrasta com a precariedade dos fundos disponíveis para a criação de valores de uso que estas aglomerações exigem (JARAMILLO, 1986, p. 31).
Assim como Jaramillo (1986), Correa (1989) expõe que uma rede urbana desigual, dendrítica e concentrada (com ausência de centros intermediários, sub-regionais) é característica dos países subdesenvolvidos. No período colonial, a relação da metrópole (a grande cidade nacional da época, posição ocupada no Brasil primeiro por Salvador e mais tarde pelo Rio de Janeiro) com sua área de influência era a de extração de excedente e de força de trabalho, comercialização de seus produtos e drenagem da renda fundiária (CORREA, 1989). Nossa rede dendrítica possui, portanto, origem colonial, e é caracterizada por poucas grandes metrópoles em contraposição aos numerosos e pequenos centros, ausência de centros intermediários e pelo caráter unilateral dos fluxos (baixa divisão territorial do trabalho).
Mesmo constatando que a falta de acesso da população brasileira ao cinema é face da configuração de nossa rede urbana, é preciso admitir que a quantidade de salas de exibição ainda poderia ser maior, pois desde o final dos anos 1980, enquanto a urbanização brasileira avança, as salas de cinema escasseiam. Na verdade, é a partir dos anos 1970 que a rede urbana brasileira se complexifica, internaliza-se, principalmente nos estados do sul e sudeste onde começam a aparecer mais cidades médias. Em 1940, por exemplo, uma cidade média para o IBGE possuía até 20 mil habitantes; nos anos 1970, até 100 mil habitantes; atualmente pode contemplar de 100 a 500 mil habitantes. Mas o fato é que, enquanto isso, as metrópoles continuam crescendo e se fortalecendo enquando centros de decisões.
Além destas origens históricas, podemos perceber como as desigualdades regionais acentuam-se pela atuação do capitalismo
mundial em sua fase contemporêanea de flexibilização, quando as grandes empresas hegemônicas elegem certos lugares para investir, formando e reforçando arquipélagos econômicos que não são contrapostos por uma política estatal de desenvolvimento de outras regiões, que sofrem um verdadeiro processo de desertificação (econômica e política).
2.2 SALAS DE EXIBIÇÃO E O PÚBLICO DO CINEMA NACIONAL