“De tanto fazer tudo
parecer perfeito
você pode ficar louco ou para todos os efeitos suspeito de ser verbo sem sujeito”
(P. Leminski)
Para um trabalhador da Extensão Rural, a grande dificuldade em adotar uma metodologia para estudá-la é obter o distanciamento necessário, tanto na coleta, como na análise dos dados. Segui pelo caminho mais fácil, pouco preocupado com o distanciamento. Assim, ao utilizar uma série de materiais bibliográficos, documentais e de entrevistas com alguns colegas, as observações estarão sempre embebidas de minha experiência como Extensionista Rural. Penso que os afastamentos que tive da atividade diária da Extensão Rural e da empresa EMATER/RS-ASCAR, durante dois períodos de licença, oportunizaram condições de ouvir e conviver com outros segmentos, o que leva a “julgamentos” um pouco acima da “corporação”. Esse fato, que talvez amenize preocupações (e culpas), também acaba reforçando a condição de pertencimento a um determinado grupo. Logo, os apaixonados pela neutralidade e objetividade do método julgarão que este não é um trabalho muito objetivo. Fazer o quê? Estamos “sujeitos” a isso.
Para ouvir os envolvidos diretamente com o tema da dissertação,, realizei uma pesquisa de campo na região Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul. A pesquisa foi feita apenas com os Extensionistas Rurais da EMATER/RS-ASCAR pois inicialmente o projeto de
pesquisa era orientado para avaliar aspectos da formação profissional dos mesmos e as diferenças que poderiam ou não existir entre profissionais que viveram períodos mais intensos de transferência de tecnologia como o Projetão e aqueles que tiveram o contato com a crítica da modernização da agricultura brasileira ainda na educação formal ( colégios agrícolas e universidades) ou atrvés da formação inicial oferecida pela empresa.Tendo a pesquisa esse objetivo, não foram entrevistados os diferentes públicos que a Extensão Rural trabalha na região.Entretanto, no momento da qualificação da dissertação, graças a contribuição da banca examinadora, o trabalho assume um aspecto mais amplo sobre a atividade extensionista e essa lacuna passa a existir na nossa metodologia.
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A Região Celeiro do Estado do Rio Grande do Sul está localizada na parte Noroeste do Estado. É composta por vinte e um municípios: Barra do Guarita, Bom Progresso, Braga, Chiapetta, Campo Novo, Coronel Bicaco, Crissiumal, Derrubadas, Humaitá, Inhacorá, Miraguaí, Redentora, Santo Augusto, São Martinho, São Valério, Sede Nova, Tenente Portela, Tiradentes do Sul, Três Passos, Vista Gaúcha e Esperança do Sul e se caracteriza por uma participação expressiva da agricultura na economia, com um predomínio de médias e pequenas propriedades agrícolas, resultado de um processo de ocupação do espaço conhecido como colonização tardia5. Esta é a migração interna de filhos ou famílias de imigrantes das primeiras colônias (assentamentos humanos efetivados com imigrantes vindos da Europa) do Estado do Rio Grande do Sul que se situavam na região da Serra, Centro e Vale do Sinos e Paranhana
A população residente é de 149.590 habitantes, sendo 76.387 habitantes (51,06%) na área urbana e 73.204 habitantes (48,94%) na área rural, de acordo com o Censo 2000 do
IBGE. No meio rural, cerca de 40% da população é constituída por homens adultos, 38% de mulheres adultas e 22 % de jovens. No período de 1991 a 2000, a região apresentou uma taxa média anual de crescimento demográficonegativa de –1,09%, indicando a perda de população para outras regiões, principalmente jovens do meio rural. Apenas três municípios - Bom Progresso (+0,05), Chiapeta (+0,24) e Inhacorá (+0,14) - apresentaram índices positivos, mas mesmo assim bastante inferiores à média estadual, que é de +1,21% ao ano. Esse comportamento negativo da taxa de crescimento deve-se ao fato de ser uma região fornecedora de mão-de-obra para as regiões industriais ou de abertura de fronteira agrícola do país.
A estrutura fundiária da Região Celeiro evidencia a predominância da pequena propriedade. Segundo o Censo Agropecuário de 1996 do IBGE, são 24.742 estabelecimentos rurais, sendo que 11.425 têm até 10 hectares, representando 46% do total de estabelecimentos. Entre 10 e 20 hectares o número é de 8.090 estabelecimentos rurais, 33% do total. Acima de 20 e inferior a 50 hectares são 3.969 estabelecimentos, representando 16% do total, e acima de 50 hectares são apenas 5%, abrangendo 1.258 estabelecimentos.
Na região, encontram-se também cerca de 50% da população indígena do estado, nas reservas da Guarita e Inhacorá (apesar do nome, essa TI fica localizada no município de São Valério do Sul). Existem 520 pessoas assentadas do Programa Nacional de Reforma Agrária nos municípios de Coronel Bicaco e Chiapeta. Essa referência é importante porque esses são segmentos considerados atualmente como “públicos especiais” pela Extensão Rural.
No aspecto econômico, a região destaca-se como produtora de matéria-prima agropecuária (para a transformação em outras regiões do estado) e pelo baixo valor agregado
oriundo dessa produção. A principal atividade agrícola da região é a produção de grãos, especialmente a cultura da soja, com cerca de 250.000 hectares; trigo com 80.000 hectares; e milho com 50.000 hectares,. A produção animal mais relevante é a produção leiteira, que é uma atividade econômica importante para 8.876 famílias dos municípios, sendo que 6.830 famílias produzem até 50 litros de leite por dia, 2.031 entre 50 e 100 litros diários e apenas 1.142 que possuem uma produção que supera 100 litros por dia.
Outras atividades produtivas desenvolvidas na região são a fruticultura, produção de suínos e hortigranjeiros. Recentemente, com ações e programas públicos voltados à agregação de valor para a produção primária - como o Programa de Agroindústria Familiar e o Pronaf Agroindústria - e pela preferência manifestada dos consumidores da região por produtos industrializados de origem colonial, houve uma expansão da atividade agroindustrial em pequenos empreendimentos familiares ou pequenas cooperativas. Além da produção, grande parte da renda dos agricultores provém dos benefícios previdenciários, graças a condição de segurado especial da previdência que o agricultor familiar possui.Em alguns municípios esses valores superam o valor bruto da produção primária ou o retorno financeiro do FPM (Fundo de Participação dos Municípios).
Todos os municípios possuem um Sindicato de Trabalhadores Rurais. Existem Sindicatos Filiados à FETAG/RS (Federação dos Trabalhadores da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul) e à FETRAF – Sul (Federação de Sindicatos de Agricultores Familiares). Também existe na maior parte dos municípios organização de grupos de agricultores ligados ao MPA6 (Movimento dos Pequenos Agricultores), sendo que esse movimento foi objeto de estudo de uma dissertação neste curso de mestrado em Educação nas Ciências.
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Os entrevistados foram selecionados dentro das categorias mais numerosas de trabalhadores da Extensão Rural que atuam na região Celeiro, pertencentes à região administrativa da EMATER/RS-ASCAR de Ijuí. Essas categorias são técnicos agrícolas, extensionistas de bem estar social e engenheiros agrônomos. A região administrativa de Ijuí é composta por quarenta e sete escritórios municipais, três escritórios de classificação vegetal, um centro de treinamento em Bom Progresso e um escritório regional de apoio situado em Ijuí. Possui em seu corpo funcional cinqüenta e dois técnicos agrícolas, vinte e seis engenheiros agrônomos, dois médicos veterinários, quarenta técnicos de bem estar social e trinta e seis funcionários em setores de apoio (assistentes administrativos, auxiliares de limpeza, informática e outros).
A escolha dos entrevistados deu-se pelo período de admissão na empresa. Foram selecionados dois períodos emblemáticos: o Projetão em 1980 e o período de 1999 a 2002. As razões da escolha desses períodos são: a orientação recebida durante a fase de ingresso na empresa, num processo de formação denominado de pré-serviço no período de 1980 e capacitação inicial a partir do ano de 1997. No primeiro caso, o Projetão significou a expansão do sistema de Extensão Rural pelo Estado e a afirmação da orientação difusionista que se tornava hegemônica nessa época, graças às orientações estabelecidas para o Banco Mundial para projetos de desenvolvimento rural em países pobres. Já no segundo período escolhido, que foi de 1999 a 2002, a capacitação inicial deu-se sob bases de uma política de formação de recursos humanos diferenciada do pré-serviço do Projetão. Essa política estava orientada para o campo conceitual denominado de Agroecologia, com forte presença dos estudos e diagnósticos participativos e o enfoque nas cadeias de produção e nos sistemas de produção na propriedade.
A partir desse critério, escolhi dois entrevistados em cada categoria profissional, um em cada período de admissão escolhido. A seleção dentro dos períodos foi feita pela data de admissão: os mais antigos, no caso do período do Projetão; e os mais recentes, no caso do outro período. As entrevistas semi-estruturadas, com ênfase no papel que identificam para a Extensão Rural na atualidade e no trabalho que realizam, foram feitas entre outubro de 2005 e janeiro de 2006. Todas foram realizadas no local de trabalho, com autorização da direção da empresa e dos empregados entrevistados e foram gravadas para registro e consultas posteriores. As referências que posteriormente serão feitas, baseadas nas falas e contribuições desses Extensionistas, estarão identificadas pelo termo Extensionista e um número correspondente à ordem das entrevistas realizadas.